«Vamos receber utentes (com doenças respiratórias) mais descompensados»

Com o regresso do atendimento presencial, inicia-se uma fase de alguma sobrecarga para o médico de família. Rui Costa, especialista de Medicina Geral e Familiar (MGF), não tem dúvidas de que, pelo menos relativamente às doenças respiratórias, vão aparecer na consulta muitas pessoas mais descompensadas do que seria suposto em circunstâncias normais.

Em entrevista à Just News, na qualidade de copresidente das III Jornadas Multidisciplinares de MGF, o médico esclarece que “a pandemia de covid-19 veio alterar, do ponto de vista organizacional, a prestação de cuidados ao nível dos cuidados de saúde primários (CSP), fundamentalmente porque houve uma redução significativa na produção de consulta presencial, tendo-se dado uma ênfase acrescida à consulta não presencial".

Paralelamente, o número de consultas nos hospitais diminuiu de forma significativa, tal como os exames complementares de diagnóstico, “muitos deles vitais”. O mesmo sucedeu com os atos programados, "afetando sobremaneira, por exemplo, as sessões de fisioterapia e de reabilitação respiratória".



"Foi difícil fazer primeiros diagnósticos"

“Houve uma limitação muito grande na realização de provas funcionais respiratórias, o que quer dizer que foi difícil fazer primeiros diagnósticos, tornando-se complicado avaliar alguns doentes que, por determinado motivo, apresentaram perda de controlo da sua doença”, reporta o médico.

Assistiu-se "muitas vezes" a uma sobreposição de sintomas de covid-19 e de agudização de doenças respiratórias crónicas, de que a asma e a DPOC são apenas dois exemplos.

“Isso fez com que o esforço do MF para proceder ao diagnóstico diferencial fosse maior e a sua acuidade diagnóstica tivesse que ser mais apurada, pelo menos enquanto esteve limitada a acessibilidade à realização de testes à covid-19”, refere Rui Costa.

Adicionalmente à grande dificuldade de referenciação de novos casos para o especialista hospitalar, ou de situações que se complicaram, surgiu o receio dos próprios doentes em relação à pandemia, evitando sair de casa e de frequentar os serviços de saúde. E não só: “Alguns terão descontinuado algumas terapêuticas e isso terá levado à descompensação da sua doença de base.”


"A sobrecarga que teremos nesta fase vai ser muito maior"

“O que vai acontecer agora é que, ao começarmos a ver presencialmente muitos destes doentes, e podendo realizar alguns exames de diagnóstico, vamos receber pessoas que estão mais descompensadas do que seria expectável, portanto, a sobrecarga que teremos nesta fase vai ser muito maior", observa Rui Costa.

Uma realidade que se justifica não só pela procura normal de quem quer assegurar os seus cuidados habituais, "mas também pelos doentes que, tendo ficado descontrolados, precisam de um maior acompanhamento e de uma melhor avaliação, com um seguimento presencial".

E acrescenta: “Na área respiratória, é fundamental garantir, acima de tudo, que as pessoas que fazem terapêutica inalada usem bem o inalador. Para isso, nós temos que as ver fazer, precisamos de estar perto delas e ensiná-las, procurando garantir a prática de uma técnica inalatória adequada, de forma a obterem um maior benefício com a terapêutica que estão a fazer. Como consequência de um melhor controlo da doença, conseguiremos uma redução de hospitalizações por descompensação, ou até uma diminuição da mortalidade.”

"Tem havido uma maior credibilização da MGF"

Rui Costa não hesita em considerar que o médico de família “está habilitado a lidar com a maior parte das doenças respiratórias, como a asma ou a DPOC, em que a grande maioria das pessoas pode e deve ser seguida em exclusividade nos CSP. Porque ele tem competências, armas terapêuticas e acesso a exames auxiliares de diagnóstico que lhe permitem acompanhar estes casos e mantê-los controlados sem necessidade de recorrer a cuidados mais especializados”.

Outro aspeto positivo prende-se com o facto de que “estas novas gerações de MF têm tido acesso a uma formação e a uma educação médica na área respiratória superior à disponibilizada no passado, tornando-as mais capacitadas para gerir a doença respiratória crónica”.

“Acho que tem havido, ao longo dos últimos anos, uma maior credibilização da MGF e, portanto, as pessoas confiam mais”, conclui Rui Costa.




Umas Jornadas para "todas as gerações da MGF"

Agendadas para dias 23, 24 e 25 de setembro de 2021, as III Jornadas Multidisciplinares de MGF “são para todas as gerações da MGF, incluindo os mais novos e os mais velhos”, sublinha Rui Costa. O que se pretende é “transmitir conhecimentos atualizados, boas práticas clínicas especificamente dirigidas às suas necessidades, ou seja, baseadas em situações reais do dia-a-dia, nos casos clínicos”.

No fundo, o grande objetivo da reunião é “contribuir para a educação contínua dos nossos colegas, para que possam identificar a melhor solução para cada uma das múltiplas situações que se lhes deparam”.

Não admira, pois, que o programa contemple “áreas que possam ser mais frequentes e outras em que se verifique uma maior dificuldade de diagnóstico, ou em que seja preciso aumentar o conhecimento para poder satisfazer as necessidades das populações”. O inquérito que se faz aos participantes no final de cada edição das Jornadas permite perceber melhor quais as necessidades educacionais mais sentidas.

Há duas mesas-redondas que Rui Costa destaca nas Jornadas deste ano: a dedicada às doenças autoimunes, “uma área ainda relativamente desconhecida para muitos”, e a que vai promover o debate em torno das alterações analíticas do leucograma e plaquetas, “algo que não é praticamente abordado em eventos educacionais”.



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