USF São João do Porto tem equipa rejuvenescida e é pioneira na formação em Geriatria nos CSP
Quase se poderia considerar que a USF São João do Porto, assim batizada com este nome em 2011, nasceu afinal em 1999, como Centro de Saúde S. João. Provavelmente, ao projeto “Tubo de Ensaio” só não lhe chamaram logo unidade de saúde familiar simplesmente porque essa designação ainda não tinha sido inventada! Por alguma razão, aliás, lhe foi logo atribuído, desde o dia 1 da sua existência, o estatuto de USF Modelo B.
Avançando no tempo até aos dias de hoje, 9 médicos, 9 enfermeiros e 7 secretários clínicos tratam da saúde a uns 16.300 utentes, a que se devem adicionar 3 médicos internos de MGF e ainda – acrescenta o coordenador, Rodrigo Pinto Costa – 3 profissionais de limpeza e 2 seguranças, ali colocados pela au tarquia.
Uma nota relevante: a USF São João do Porto é a primeira un idade de CSP a proporcionar formação prática para a obtenção da competência de Geriatria pela OM. E uma curiosidade: mais de metade dos seus médicos de família integram, desde 2018, a CO das Jornadas Multidisciplinares de MGF, um projeto de educação médica idealizado por três conhecidos especialistas nesta área: Paulo Pessanha, Manuel Viana e Rui Costa.
Rodrigo Pinto Costa
"Há sempre vários candidatos a um lugar que fica vago"
“Temos assistido, nos últimos anos, a um aumento consistente de pedidos de inscrição na unidade, o que reflete a confiança da população no trabalho da equipa, mas também a dinâmica demográfica do centro do Porto”, refere Rodrigo Pinto Costa.
Quanto a profissionais interessados em integrar esta USF – sejam médicos, enfermeiros ou secretários clínicos –, pode-se dizer que há sempre vários candidatos a um lugar que fica vago, como muito recentemente aconteceu quando foi necessário substituir um elemento da enfermagem, que decidiu mudar para muito mais perto de casa.
Servindo uma população de 16.300 utentes, “a nossa USF é, dentro da ULS de Santo António, das que tem mais unidades ponderadas por lista”, informa o coordenador, que assumiu a lista de utentes que era do médico Paulo Pessanha, referindo, a esse propósito:
“A maioria dos utentes já o acompanhava há muitos anos, e muitos até o tinham seguido quando deixou a unidade onde trabalhava anteriormente, na Maia, há mais de 20 anos. Por isso, quando se sentam à minha frente pela primeira vez, é natural que queiram perceber quem é o seu novo médico de família. E isso nota-se claramente.”
Numa altura em que já terá recebido no seu gabinete mais de dois terços dos cerca de 1800 utentes da sua lista, Rodrigo Pinto Costa salienta que a mudança de médico levou muitos doentes a agendarem consulta apenas para o conhecer e “perceber com quem podem contar do lado de cá”, afirma.
Deve-se acrescentar que de Paulo Pessanha assumiu não só a lista de utentes como também manteve a enfermeira Madalena Rocha, que fazia equipa com ele desde a criação da
USF. Por isso, “muitos doentes já a conhecem bastante bem e têm com ela uma relação de grande confiança”.
“O verdadeiro motor da USF é a equipa multiprofissional”
Um dos ajustes que Rodrigo Pinto Costa fez enquanto coordenador da USF São João do Porto foi reduzir a frequência e a duração das reuniões internas. E porquê? “Gosto de manter as reuniões objetivas e orientadas para a resolução dos problemas”, responde, esclarecendo que em 2025 se realizaram 27 reuniões. E é fácil gerir quase 30 pessoas?
“São 28! E depois temos também profissionais que, não estando formalmente integrados na equipa, estão connosco, ao nosso lado, dia após dia – são 3 profissionais de limpeza e 2 seguranças, que aqui trabalham diariamente, sob a chancela da Câmara Municipal do Porto. Contamos ainda regularmente com médicos internos de Pediatria, de Medicina do Trabalho e de Formação Geral, bem como com alunos de Medicina e de Enfermagem.”
Então e a gestão da equipa? “É algo que não se aprende na faculdade, não temos formação para isso, e que acabamos por aprender sobretudo no terreno, no dia-a-dia, a trabalhar com pessoas. Mas é preciso ter a noção de que o verdadeiro motor da USF é a equipa multiprofissional, cujos elementos têm de trabalhar em conjunto, com base na cooperação. Muitas vezes, o desafio na gestão da equipa é encontrar o equilíbrio entre as necessidades individuais e aquilo que é melhor para o grupo. E é este equilíbrio que é preciso. Para isso, a comunicação aberta e transparente é essencial.”
"A área de que gosto mais é mesmo a da Saúde da Mulher”
Rita Costa, 33 anos, destaca a área da Saúde da Mulher como uma das suas favoritas, salientando dois momentos de grande significado na vida de uma mulher, a gravidez e a transição para a menopausa, “nos quais o papel do médico de família se torna particularmente importante, assegurando acompanhamento contínuo, prevenção e orientação personalizada nestes momentos-chave, promovendo bem-estar e qualidade de vida”.
Dá-se a circunstância de o seu ficheiro não ser particularmente envelhecido: “É uma lista relativamente diversa, com representatividade das diferentes faixas etárias, nomeadamente muitas crianças e grávidas.”
Para além de que, no contexto da imigração que se tem verificado, “há novas utentes que não eram seguidas nesta USF e que, entretanto, engravidaram e procuraram-nos porque precisam de um médico de família, algumas das quais estou a acompanhar”.
Rita Costa
Quanto à questão da menopausa, “deve ser nossa preocupação procurar eliminar qualquer constrangimento que a mulher possa sentir em abordar o assunto na consulta”. Até porque “o impacto pode ser grande na sua vida, tanto a curto como a longo prazo”. Para Rita Costa, “é essencial que a mulher na menopausa sinta confiança para falar connosco e perceba que queremos ajudá-la a lidar com os novos desafios que muitas vezes surgem nessa fase da sua vida”.
Não admira que este ano as Jornadas Multidisciplinares de MGF incluam no seu programa mais uma sessão dedicada à menopausa, em que a médica participa como moderadora, ela que integra a Comissão Organizadora do evento desde a primeira edição, quando se encontrava no 1.º ano de internato.
Obedecendo ao princípio de que o especialista em MGF lida com vários campos da saúde, a médica decidiu fazer uma pós-graduação em Geriatria durante o internato. E porquê? “Por ser uma área de conhecimento muito vasta, sendo portanto fácil termos algumas lacunas, e também porque na faculdade não existe uma cadeira de Geriatria, e mesmo o internato não inclui qualquer estágio com especificidade nesta área.”.png)
“Eu quis adquirir algumas ferramentas e ouvir profissionais com a competência de Geriatria que me permitissem lidar melhor com a população geriátrica, nomeadamente com a população idosa frágil, que normalmente não é abrangida pelas guidelines”, justifica. O que “constitui um desafio clínico complexo, exigindo uma abordagem integrada que considere a multimorbilidade, a polimedicação, a vulnerabilidade funcional e o contexto social do doente”.
Admitindo ter sido influenciada pelo facto de o seu pai, Manuel Viana, ser médico de família, Rita Costa não só se licenciou em Medicina – terminando em 2016 o curso que fez na FMUP – como optou pela mesma especialidade, depois de cumprir o internato do Ano Comum no Hospital da Senhora da Oliveira, em Guimarães.
A formação em MGF foi feita na USF Aníbal Cunha, que fica a apenas 10 minutos a pé da USF São João do Porto. No entanto, depois de obter o título de especialista, em março de 2022, demoraria ainda um ano a chegar à Unidade onde agora trabalha. Isto porque, entretanto, esteve cinco meses na USF Cedofeita, que também pertence à atual ULS de Santo António, e depois mais sete numa UCSP, em Mirandela.
Neste último local, teve oportunidade de contactar, em termos de população de utentes e de recursos disponíveis, com uma realidade “diametralmente diferente” da do Porto, enquanto a passagem pelas duas USF anteriores lhe permitiu ficar a conhecer o tipo de utentes que habita nesta zona da cidade.
A reportagem completa pode ser lida na edição de março do Jornal Médico.


