Saúde Pública nos cuidados primários: «O nosso trabalho é sempre inclusivo e transversal»
A intervenção de diversos especialistas de Saúde Pública nas I Jornadas da Saúde Boa Nova foi um dos elementos claramente diferenciadores do evento que se realizou recentemente, no Parque Biológico de Gaia, organizado pelo Centro de Saúde Boa Nova.
Esta participação "é da maior importância", sublinha Teresa Sabino, coordenadora da Unidade de Saúde Pública (USP) do Agrupamento dos Centros de Saúde (ACES) Grande Porto VIII Espinho/Gaia. 
Teresa Sabino junto com outros profissionais das várias unidades que integram o Centro de Saúde Boa Nova
Em declarações à Just News, a médica reconhece que a presença de profissionais de Saúde Pública em outros eventos de cuidados de saúde primários (CSP) não tem sido muito regular: "Na minha perspetiva, porque não são efetivamente considerados como parte importante pelas entidades promotoras desses eventos. Como exemplo disso podemos referir quer os restantes parceiros dos CSP, quer a Indústria Farmacêutica."
Na sua opinião, tal deve-se ao facto de "a USP não ser uma unidade funcional prescritora, daí não ser competitiva em termos financeiros para essas entidades, que raramente nos englobam nas formações que organizam".
Desta forma, "apesar das medidas de Saúde Pública serem efetivamente as que mais custo-efetividade representam no nosso SNS, não são de modo nenhum devidamente valorizadas pela maior parte dos atores dos CSP". A contribuir para essa realidade, "também terá influência a grande falta de conhecimento da nossa atividade". 
A assistente graduada de Saúde Pública faz ainda questão de destacar que os especialistas de saúde pública "são os médicos mais vocacionados para a colheita e tratamento dos dados/ indicadores em saúde, que permite saber o estado de saúde, as necessidades e os programas a implementar na população abrangida pelos prestadores dos CSP".
Uma participação "da maior importância"
Para Teresa Sabino, não há qualquer dúvida. "Não existem cuidados de saúde primários sem a complementaridade da ação da Saúde Pública e, nesse sentido, o nosso trabalho é e deverá ser sempre inclusivo e transversal", assegura.
E sublinha: "A nossa participação em eventos, que não os de Saúde Pública, é não só desejável como nos parece da maior importância, porque a saúde começa na prevenção e não na doença instalada."
Um evento inovador e inclusivo
Foram vários os especialistas de Saúde Pública que partilharam as suas experiências e perspetivas nas I Jornadas da Saúde Boa Nova, que decorreram há dias no Auditório do Parque Biológico de Gaia. Contudo, o evento fica também marcado por outros elementos, desde logo, o tema central, dedicado exclusivamente ao debate de questões relacionadas com a Oncologia. 
Esta pode ser considerada uma aposta arrojada, mas que resulta de uma "decisão ponderada", refere Ângela Teixeira, diretora do Internato Médico Santos Silva (DISS), que integrou as comissões científica e organizadora do evento
Por outro lado, a Comissão Organizadora do evento incluiu profissionais de todas as unidades que integram o Centro de Saúde Boas Nova: as USF Nova Via e Boa Nova, a UCC Tempus e a Unidade de Saúde Pública do ACES Grande Porto VIII - Espinho/Gaia.
"Fazia sentido reunirmos e prepararmos um evento multidisciplinar, já que o doente oncológico e a família necessitam de todas as unidades envolvidas e todos os profissionais têm como objetivo o bem-estar biopsicossocial do doente", explica a enfermeira, que assumiu o papel de coordenadora das I Jornadas da Saúde Boa Nova.
Oncologia e atestados médicos
Além de ter intervido em outras sessões nas I Jornadas da Saúde Boa Nova, Teresa Sabino proferiu a conferência: "Atestado médico e doença oncológica. Como proceder?" e, na sua opinião, "relativamente aos atestados médicos por nós emitidos, referentes aos atestados multiuso, aos quais todos os doentes oncológicos têm acesso, existem muitas arestas que precisam ser limadas".
E que arestas são essas? "Desde logo, os prestadores de cuidados (quer dos CSP quer dos cuidados hospitalares) precisam familiarizar-se com a legislação aplicada nestes casos (TNI – Tabela Nacional de Incapacidades – Decreto-Lei n.º 352/2007, de 23 de Outubro), para que os relatórios por eles produzidos possam efetivamente traduzir as incapacidades que são valorizadas nessa legislação".
Na sua opinião, tanto os médicos de Medicina Geral e Familiar como os de outra especialidade "tendem a valorizar a doença em si, problema de saúde descrito às vezes ao pormenor, esquecendo quase sempre de relatar o que realmente interessa neste contexto", ou seja:
"A descrição das incapacidades definitivas que resultaram da doença, o exame anatomopatológico cuja data vai contar como início do atestado multiuso, o seu prognóstico e, finalmente, estarem informados de que o Estado dá uma incapacidade temporária a todos os doentes oncológicos, dependendo do prognóstico nos primeiros 5 ou 7 anos, a contar do diagnóstico (data em que foi elaborado o exame histológico)."
Para Teresa Sabino, esta informação é da maior relevância já que, decorridos esses anos, "a doença oncológica, se controlada, deixa de ter incapacidade e os doentes não foram beneficiados nos anos em que deveriam ter sido, o que lhes causa um enorme prejuízo". Contudo, acrescenta, "o que continuamos a constatar é que existe um grande desconhecimento desta legislação e dos seus corretos procedimentos".



