Risco cardiovascular: Esclarecer médicos de família sobre «Dúvidas do Corredor»
A pouco mais de um mês da próxima edição das Jornadas presididas pelos cardiologistas Carlos Ramalhão e Maria Júlia Maciel, 1500 médicos de família preparam-se para dois dias e meio de reunião. Metade é do Norte, mas chegam de todas as regiões de Portugal para participar nas Jornadas de Actualização Cardiológica do Norte para a MGF, que continuam a realizar-se no centro da cidade do Porto.
Carlos Ramalhão diz que, para já, não tenciona abandonar o Hotel Sheraton, porque considera que oferece todas as condições para acolher as suas Jornadas.
Terá apenas um senão, o facto de não permitir ultrapassar o número de inscritos, que voltou a atingir o milhar e meio. As estatísticas dizem que mais de 50% são oriundos de unidades de cuidados de saúde primários do Norte, uns 20% vêm do Centro, outros tantos da zona Sul e o restantes da Madeira e dos Açores.
“Principalmente entre a geração mais nova de especialistas de Medicina Geral e Familiar, observa-se que vêm com uma avidez de aprender e absorver rapidamente conhecimentos que possam ser úteis no seu dia-a-dia”, comenta o presidente das Jornadas.
Até porque, no seu entender, em especial os médicos de família do interior, “estão muito descobertos de consultores de Cardiologia, precisam de alguém que lhes dê opiniões”. Carlos Ramalhão está, aliás, permanentemente disponível para responder a dúvidas dos seus colegas de MGF. Continua a ser contactado com regularidade nesse sentido e mantém todo o interesse em esclarecer quem o procura.

Carlos Ramalhão e Maria Júlia Maciel
Há um aspeto que o especialista do Porto diz ser de importância fundamental: “O MF não pode deixar de se preocupar com os fatores de risco cardiovascular dos seus utentes, quando os recebe no consultório. A questão do tabaco, do exercício físico, da dislipidemia, o problema do consumo de bebidas alcoólicas, a diabetes… Mesmo tendo pouco tempo para o fazer!”
“Uma consulta bem conduzida deve durar entre 15 a 20 minutos, com uma conversa inicial para colher as queixas do doente e depois o exame físico na cadeira ou na marquesa, com a medição da tensão arterial, a valoração das análises que ele leva e depois dando-lhe conselhos terapêuticos, para além da eventual prescrição que se justificar”, aconselha, concluindo que “o computador veio baralhar muito isto, pois, o médico tem de escrever tudo e enquanto o faz não pode falar com o doente.”
O grande interesse e adesão dos participantes é uma marca do evento
Duas sessões de “Dúvidas do Corredor”
Nos primeiros anos em que as Jornadas tiveram lugar, “falávamos só de temas atuais da Cardiologia”, lembra Carlos Ramalhão, esclarecendo que agora “procuramos introduzir uma fatia do diagnóstico, uma fatia relacionada com as inovações no tratamento, outra de novidades terapêuticas e uma última fatia de educação e prevenção da doença e promoção da saúde”.
Daí que se tenha passado a dar mais relevo aos casos clínicos apresentados e às chamadas “Dúvidas do Corredor”, tema obrigatório no programa das Jornadas e que agora acontece em duas ocasiões, no primeiro dia e no último. As questões são colocadas aos membros da mesa, por escrito ou oralmente, que a elas respondem.
“Os casos clínicos que vamos apresentar são extremamente didáticos, para que os colegas de MGF possam perceber determinadas situações de que, por vezes, já não se lembram. Sobretudo no que respeita ao pedido de meios de diagnóstico complementares, que são limitados na quantidade que podem solicitar, mas que devem ser adequados às necessidades de cada doente”, adverte.

“Este ano, vamos também relembrar o conceito de eletrocardiografia na doença coronária. Acontece ser o primeiro exame que o doente faz quando chega ao hospital, mas, por vezes, não mostra nada e clinicamente ele tem um enfarte.
Noutras ocasiões, o resultado do ECG é suficientemente claro para que o doente seja rapidamente encaminhado para o Laboratório de Hemodinâmica”, salienta Carlos Ramalhão.
Situações tão comuns como a insuficiência cardíaca não podiam deixar de ser abordadas nas Jornadas, neste caso, com plena justificação, porque “quando a IC aparece e é grave tem uma mortalidade quase igual à do cancro, associando-se muitas vezes a comorbilidades como a DPOC, a diabetes, a anemia, a apneia do sono, a fibrilhação auricular ou a insuficiência renal”.
“Vamos ouvir falar da patologia da válvula aórtica, que hoje em dia é extremamente frequente nos idosos porque vivem mais tempo, aumentando a probabilidade de calcificação da válvula”, refere o nosso entrevistado. E revela que, respondendo aos pedidos apresentados através dos inquéritos que são sempre feitos no final de cada edição das Jornadas, vai ser feita a interpretação de um relatório de HOLTER, uma vez que tal não é tarefa muito fácil para o médico de família.

Cartoon de Carlos Ramalhão, publicado na edição Especial do Jornal Médico (janeiro 2014), que assinalou as 25.as Jornadas de Actualização Cardiológica do Norte para a MGF.
Carlos Ramalhão informa ainda que se vai ouvir falar de arritmias (“uma das queixas mais frequentes dos doentes”), do fígado gordo como fator de risco cardiovascular e “das doenças que se criam nos doentes quando, por exemplo, se usam demasiados meios complementares de diagnóstico”.
Os novos anticoagulantes orais foram igualmente incluídos no programa das Jornadas, até porque estão associados à existência de fibrilhação auricular, que surge cada vez mais na população, consequência do aumento da esperança média de vida.
“Há uma coisa que podemos fazer”, diz o cardiologista, “que é prevenir antes que os problemas apareçam, ou seja, se formos vigiando o doente mais de perto, em determinadas situações, ele pode nem vir a precisar de ser operado”. O médico de família “tem que acompanhar um caso de patologia da válvula aórtica clinicamente, com a análise dos sintomas e o exame físico, recorrendo ao eletrocardiograma e à ecografia se achar necessário, de tempos a tempos, conforme a gravidade da situação”.
Homenagem a Fernando de Pádua
Na entrevista que deu à Just News, Carlos Ramalhão insistiu várias vezes na sua vontade de deixar registada “uma palavra de homenagem ao Prof. Fernando de Pádua”, que considera “o grande paladino da promoção da saúde em Portugal, através da educação para a saúde”.
“É preciso dar condições às pessoas para que possam fazer o que lhes é recomendado, por exemplo, exercício físico”, diz. “E quando se fala em prevenção não se pode pensar apenas nas doenças cardiovasculares, mas também em todas as outras que apresentam fatores de risco comuns”, acrescenta.



