Recordati Portugal: «Temos um cariz exigente, mas humanista»

Na Jaba Recordati há praticamente 19 anos, quase todo esTe tempo como diretor-geral da agora Recordati Portugal, Nelson Ferreira Pires foi contratado um ano depois de a empresa italiana ter concluído o processo de aquisição da portuguesa Jaba Farmacêutica. A contar consigo, são 112 os colaboradores da companhia (62% do sexo feminino), 26 dos quais na sede e os restantes distribuídos pelo continente e ilhas.

Sem questões previamente alinhadas, a entrevista que originou este texto decorreu dia 18 de maio, na véspera do jantar do 100.º aniversário da Recordati, que foi fundada a 1 de maio de 1926. Entretanto, o gestor disse à Just News que no próximo ano, de uma forma simbólica, não deixará de ser lembrado o centenário de criação da Jaba, que aconteceu a 15 de agosto de 1927. “Ainda temos connosco alguns colegas que lá trabalharam!”, sublinha Nelson Pires.


Nelson Pires: “O ‘work-life balance’ é uma das pedras angulares da companhia, que tem tido a capacidade camaleónica de se adaptar às sucessivas gerações que vão entrando”


Nelson Ferreira Pires vivia em Lisboa desde 1998, já tinha passado por outras quatro empresas farmacêuticas e integrava a A. Menarini Portugal quando, em 2007, recebeu o convite para ser diretor comercial da Jaba Recordati, curiosamente, outra companhia italiana. O cargo abrangeria o marketing, o que era novidade para si, embora já se tivesse de alguma forma preparado, pois, havia entretanto feito duas pós-graduações nessa área, incluindo um Executive MBA.


Importa talvez recordar que a Jaba, criada há 99 anos pelo farmacêutico José António Baptista d’Almeida, tinha sido vendida em janeiro de 2005 ao empresário Joaquim
Coimbra, a quem a Recordati a adquiriu, num negócio concluído em novembro de 2006.

Ora, quando Nelson Pires iniciou funções na empresa – ainda localizada na Abrunheira, perto de Sintra –, no dia 7 de dezembro de 2007, uma das suas tarefas consistia em implementar o modelo multinacional numa companhia historicamente portuguesa.

“Quando cheguei, apesar de encontrar alguma confusão, porque havia duas culturas que se estavam a tentar juntar, e uma terceira nova, que era a da Recordati, fiquei surpreendido, porque constatei que havia muito boas práticas, muito bons profissionais e uma variável interessante, que era a ligação à fábrica que existia”, explica, prosseguindo:

“A ambição era grande em termos de lançamento de novos produtos, mas a companhia vivia muito dos licenciamentos de empresas estrangeiras e esse era um grande obstáculo... O objetivo consistia em implementar uma cultura de multinacional, que era a experiência que eu tinha e que a maioria dos colaboradores da Jaba na altura não possuía. Penso que se conseguiu!”

Nelson Pires ascenderia a diretor-geral da Jaba Recordati dois anos depois, em 2010, mas só após uma reunião que teve em Milão com os três irmãos da família Recordati, em que finalmente se chegou a consenso quanto ao facto de a sua idade – apenas 37 anos – não ser, afinal, “desadequada” para liderar a filial portuguesa.

Alguns outros desafios foram, entretanto, surgindo, como a responsabilidade de gerir os interesses da Recordati nos PALOP, que ainda mantém, ou a missão que lhe foi atribuída de coordenar a transição para uma filial maior no Reino Unido e Irlanda. Mais recentemente, nos últimos dois anos, empenhou-se na reorganização da estrutura grega, que passava por algumas dificuldades a esse nível, e que incluiu o lançamento de novos produtos.

“Neste momento, temos um diretor-geral na Grécia, que reporta a mim, tendo-se tornado numa das melhores filiais do grupo. Portanto, mais tarde ou mais cedo, vou inevitavelmente
sair porque a minha função está cumprida. Eu diria que a Recordati me vai dando alguns desafios para me manter entusiasmado e motivado, e eu vou aproveitando as oportunidades, por ser algo que me agrada”, refere.



Um modelo muito individual de “work-life balance

A marca Jaba, acrónimo do nome do seu fundador, foi sendo mantida por uma razão objetiva: “Considerámos que era um ativo que não queríamos perder, mas fizemo-lo também por respeito àquela que era a história da companhia.” No entanto, “neste momento, todas as filiais estão a fazer uma transição para a marca Recordati, que tem hoje uma dimensão global, muito para lá do espaço europeu, com escritórios em países como os EUA, o Canadá, o Brasil, a Colômbia ou o Japão”.

“Estamos a efetuar essa alteração de forma muito suave, nomeadamente aqui em Portugal, onde vamos manter a designação Jaba Recordati sob o ponto de vista legal, embora em termos de comunicação já estejamos a focar-nos na marca Recordati”, esclarece Nelson Pires.

O nosso entrevistado considera que a empresa que lidera há tanto tempo tem sabido evoluir com o passar dos anos, nomeadamente no que diz respeito a procurar o equilíbrio entre a vida pessoal e a profissional dos seus colaboradores:

“Acho que nos fomos conseguindo ajustar. Aliás, eu até diria que o ‘work-life balance’ é uma das pedras angulares da companhia, que tem tido a capacidade camaleónica de se adaptar às sucessivas gerações que vão entrando. Provavelmente, o que mais resiste até sou eu! Por exemplo, não gosto de trabalhar remotamente, pois, privilegio o contacto direto com as pessoas, mas admito que se prefira o teletrabalho. Aliás, em certos casos, até sou eu que o sugiro.”

“Criámos aqui um mecanismo de equilíbrio, de acordo com as regras internacionais da Recordati, em que há colaboradores que podem optar pelo trabalho remoto dois dias por semana. No entanto, eu prefiro a presença física, porque se consegue sentir ‘the smell of the place’, perceber mais facilmente se as coisas estão a correr bem ou não, e promover o ‘onboarding’,  fazendo com que as pessoas sintam a cultura da companhia”, afirma Nelson Pires, prosseguindo:


“Relativamente ao ‘work-life balance’, nós temos um modelo muito individual, ou seja, ligamos pouco àquilo que são os horários de entrada e de saída, permitindo uma certa mobilidade e flexibilidade. E quando percebemos que há alguma dificuldade procuramos ultrapassá-la, que foi o que fizemos ao criar uma solução de medicina curativa que facilitasse a vida às pessoas perante a necessidade de marcação de uma consulta que, infelizmente, costuma ser tão difícil de conseguir no SNS. Uma médica desloca-se regularmente às nossas instalações para atender os colaboradores que necessitam, e até os seus familiares.”


Embora se refira à prática na Recordati Portugal, Nelson Pires sublinha que a filosofia de funcionamento é comum às várias filiais: “Temos um cariz exigente, mas humanista, até porque nós sabemos bem que sem pessoas não conseguimos cumprir a nossa missão, nem atingir os nossos objetivos.”


A entrevista completa pode ser lida no Jornal Médico de junho.

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