Produção hospitalar: «obter melhores resultados classificando eficazmente os doentes»

Depois de 7 anos no Pulido Valente, em Lisboa, primeiro na área dos Serviços Hoteleiros e posteriormente no Serviço de Aprovisionamento, Cláudia Medeiros Borges trabalha desde 2003 no Departamento de Gestão e Financiamento de Prestações de Saúde da Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS), sendo a responsável pela área de Sistemas de Classificação de Doentes.

Em entrevista à Just News, explica que “a possibilidade de obter uma visão mais global e integrada é aliciante e o facto de ter trabalhado ‘no terreno’ trouxe a vantagem de conseguir fazer a ponte entre as necessidades do hospital e aquilo que em termos centrais podemos fazer para as conseguirmos suprir”.

Um dos seus principais focos são os denominados grupos de diagnósticos homogéneos, que constituem um sistema de classificação de casos agudos internados em hospitais que junta doentes em grupos semelhantes do ponto de vista clínico e do consumo de recursos.

“Obter um número total de doentes saídos per se, por exemplo, diz-nos pouco, mas esta classificação faz com que a informação dispersa se transforme em dados agregados, servindo sobretudo para caracterizar a produção hospitalar, mas também para financiar os cuidados de saúde em hospital”, avança a administradora, frisando ser “possível obter melhores resultados classificando eficazmente os doentes”.

“Esta metodologia foi criada nos EUA, nos anos 70, e Portugal foi o primeiro país a importá-la, com colegas meus da altura que foram absolutamente visionários, adaptando-a à nossa realidade. Cumpre-nos manter e desenvolver essa herança de algo que foi, e é, decisivo para a gestão da produção em saúde em Portugal”, salienta.



Cláudia Medeiros Borges e a sua equipa procuram a melhor forma de construir informação útil para a gestão e que permita obter um retrato fiel do que se passa nos hospitais em termos de produção, caracterizando toda a área da morbilidade hospitalar em internamento.

Este trabalho é feito em parceria com os Serviços Partilhados do Ministério da Saúde (SPMS), que tem a responsabilidade de desenvolver os respetivos sistemas de informação, cabendo à ACSS a gestão funcional. Encontram-se identificadas áreas de interesse e de melhoria sobre as quais ainda não há informação sistematizada.

Para que essa informação esteja menos dispersa, é essencial o contributo das instituições na sua recolha e normalização e sensibilizá-las para esse cenário é outra importante tarefa de Cláudia Medeiros Borges. “São processos que interferem com a atividade do dia-a-dia do prestador e temos de explicar-lhe a sua utilidade, dando o retorno desse trabalho com brevidade”, sublinha.

A nossa entrevistada dá o exemplo de uma situação recente, em que foi efetuado pela ACSS, em colaboração com as unidades hospitalares, um trabalho vasto sobre a normalização da nomenclatura das especialidades.

Esse esforço dos próprios hospitais tem agora como retorno receberem informação, por exemplo, sobre diagnósticos e doentes internados, o que lhes permite fazer a comparação da sua produção, por especialidade, com outras instituições.

Aposta na relação com as pessoas

Cláudia Medeiros Borges procura manter sempre uma ligação estreita com os hospitais e lembra que, quando trabalhou no Pulido Valente, algo que lhe agradava era a sensação de que no organismo central existiam pessoas “reais” que comunicavam consigo, transmitindo-lhe o sentimento de pertença a uma instituição maior. “Estamos a trabalhar para um sistema de saúde nacional e fazemos todos parte do mesmo, sendo muito importante para ambos os lados perceber as limitações e possibilidades, e isso só o conseguimos no terreno”, observa.



Neste contexto, esta socióloga de formação tenta deslocar-se às instituições e conhecer outras equipas, como é o caso das unidades de cirurgia ambulatória (CA). A sua maior proximidade com esta área surgiu em 2007, ano em que foi nomeada para integrar a Comissão Nacional de Desenvolvimento de CA.

“Desde então, tenho estado sempre muito ligada à cirurgia ambulatória, que teve um crescimento relevante em Portugal e que precisa de continuar a ser potenciada. Tem muitas vantagens e podemos dar uma grande ajuda, nomeadamente, com a caracterização dos utentes, a determinação de indicadores que possam servir para a contratualização e mesmo
no que se refere ao financiamento, ou seja, também aqui o modelo escolhido pode ser um driver para o incentivo de determinadas práticas”, afirma.

"É quase como se estivéssemos numa trincheira"

Questionada sobre o seu dia-a-dia, Cláudia Medeiros Borges recorda as palavras utilizadas por um anterior membro do Conselho Diretivo da ACSS, que comparava a atividade de um organismo central como aquele com um avião, que todos os dias tem de descolar, com segurança, e cumprir o objetivo de colocar os passageiros no seu destino.

“Haja tempestade ou não”, sublinha, entre risos, utilizando outra metáfora para tentar partilhar aquilo que sente em relação ao seu trabalho. “É quase como se estivéssemos numa trincheira, entre a Tutela e os prestadores de serviços. Temos de encontrar um equilíbrio entre os dois lados e acomodar toda a atividade diária que temos com os imprevistos”, remata.


Há quase dois anos que Cláudia Medeiros Borges trocou o metropolitano pela bicicleta e está satisfeita com a sua decisão. Todos os dias sai da zona da Alameda rumo ao seu gabinete, na Avenida do Brasil, e vai também a diversas reuniões desta forma.

Business intelligence para a morbilidade hospitalar

Desde março deste ano que se encontra disponibilizado a todas as instituições hospitalares e centrais do SNS o Business Intelligence de Morbilidade Hospitalar (BIMH). Esta ferramenta confere aos utilizadores – depois de previamente formados para tal – a possibilidade de acederem aos seus dados codificados em termos de morbilidade e compará-los com os de outras instituições.

Apesar de estes dados já terem sido disponibilizados no passado, por intermédio de uma análise enviada em PDF, “desta forma, ficam acessíveis a todos e, embora existam dashboards customizados, cada utilizador pode explorá-los e cruzá-los conforme quiser”, comenta Cláudia Medeiros Borges. Até à data, segundo esta responsável, o feedback é extremamente positivo.




A notícia pode ser lida no Hospital Público de setembro.

Distribuído em todos os hospitais do Serviço Nacional de Saúde, o jornal Hospital Público promove uma partilha transversal de boas práticas e de iniciativas desenvolvidas por profissionais dos hospitais públicos.

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