Primeiras médicas portuguesas a concluir exame europeu de Ginecologia/Obstetrícia

Verónica São Pedro e Anabela Serranito são as primeiras médicas nacionais a obter uma certificação europeia na área da Ginecologia/Obstetrícia. Concluíram, assim, com êxito um exame cuja parte prática se realizou há dias em Lisboa, sob a coordenação de um especialista português, Diogo Ayres de Campos.

“Avaliar as competências clínicas em cenários simulados” é, de acordo com aquele médico, diretor do Serviço de Obstetrícia do Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte (CHULN), o que se pretende com a realização da componente prática do exame promovido pelo European Board & College of Obstetrics and Gynaecology (EBCOG).


Ioannis Messinis e Diogo Ayres de Campos

Há uma década que Diogo Ayres de Campos, que é secretário-geral da Federação das Sociedades Portuguesas de Obstetrícia e Ginecologia, representa a FSPOG naquela organização europeia, que agrega como membros sociedades médicas e colégios da especialidade de 37 países.

E desde o lançamento do exame, há 4 anos, que tem a responsabilidade de coordenar a 2.ª parte do mesmo. Depois de Norwich, em Inglaterra (2016) e de Amesterdão, na Holanda (2017 e 2018), Lisboa recebeu, no passado dia 16 de novembro, os 44 candidatos que lograram ultrapassar a 1.ª fase (parte teórica), realizada em Varsóvia, na Polónia, em junho.



“Valorização profissional” e “complementar o currículo”

Verónica São Pedro, que entretanto fez 33 anos por estes dias, frequentou a Faculdade de Medicina de Lisboa e termina no final de dezembro o internato de Ginecologia/Obstetrícia que está a fazer em Coimbra. O exame, em março, abrir-lhe-á a porta de acesso à especialidade.

Resolveu procurar esta certificação europeia do EBCOG por uma questão de “valorização profissional”. Recorda a prova teórica “muito extensa” e considera “uma mais-valia” a avaliação de competências clínicas obtida com a parte prática do exame.

Quanto a esta última, sublinha a relevância que se dá “à forma como nós falamos com a paciente e lhe explicamos as coisas, mais do que aos conhecimentos que temos”. Na sua opinião, “é extremamente importante o contacto com a doente, que acaba por condicionar depois a relação terapêutica”.


Ioannis Messinis, Anabela Serranito, Diogo Ayres de Campos e Verónica São Pedro

Anabela Serranito, 42 anos, emigrou para a República da Irlanda, vai fazer exatamente dois anos a 28 de dezembro, porque quis acompanhar o marido, engenheiro de profissão. Essa circunstância fez com que decidisse “complementar o currículo” com um exame de âmbito europeu, pois, nas entrevistas de emprego tem sido sucessivamente questionada sobre se tem alguma certificação de outro país, para além da especialização que obteve em Portugal há 7 anos.

O internato levou-a a passar pelo Hospital Garcia de Orta, mas o curso de Medicina foi feito em Santa Maria, tal como o exame da especialidade, acabando por regressar agora a Lisboa para concluir o exame do EBCOG. Considerou a parte teórica “acessível” e, tal como a sua colega Verónica, sublinha o facto de a componente prática “privilegiar a comunicação com a doente, ajudando-nos a perceber que devemos passar a informação à pessoa que está à nossa frente de uma forma simplificada, acessível”.

As duas médicas integram agora uma lista muito reduzida de profissionais portugueses reconhecidos como fellows do EBCOG, o primeiro dos quais foi Emídio Vale Fernandes, a exercer no Centro Materno-Infantil do Norte, que obteve a certificação em 2016.



O exame de 2017 não teve participação portuguesa, mas em 2018 foram dois os médicos nacionais a obter o diploma europeu: Pedro Figueiredo, ginecologista/obstetra do Centro Hospitalar Póvoa de Varzim, e Pedro Brandão, desde agosto no Hospital da Senhora da Oliveira, em Guimarães.

Verónica e Anabela vão ter de esperar até maio de 2020 para receberem o certificado, em cerimónia que terá lugar durante o Congresso do EBCOG, em Bergen, na Noruega.

Candidatos portugueses com “um nível muito bom, de alta qualidade”

O francês Jacky Nizard é o atual presidente do European Board & College of Obstetrics and Gynaecology e acompanhou, ao longo de todo o dia do exame prático, um sábado, a evolução do mesmo, no edifício Egas Moniz da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.

Em declarações à Just News, explica que o modelo de exame tem sido o mesmo ao longo destes quatro anos, com a primeira parte a servir para “avaliar o nível de conhecimento dos candidatos” e a segunda “a testar as capacidades práticas de dar uma má notícia, de proceder à extração de um bebé, ou de lidar com uma emergência na sala de partos, mas também ler um trabalho científico e analisá-lo”.



Jacky Nizard justifica a existência do exame, desde logo, com o facto de na Europa existir “livre circulação de profissionais e de doentes, podendo estes ser tratados em qualquer lugar e os médicos exercer nos vários países. O exame do EBCOG certifica que o detentor da certificação possui uma formação de nível europeu, independentemente do diploma inicial obtido no respetivo país”.


Jacky Nizard, Diogo Ayres de Campos e Ioannis Messinis

O grego Ionannis Messinis, que preside à Comissão de Examinação, esclarece que surgem muitos candidatos de fora da Europa interessados em obter o reconhecimento do EBCOG. “Temos gente do Egito, da Arábia Saudita, do Paquistão… até da Índia!”, diz.

A opinião que tem dos examinandos portugueses é positiva: “Penso que são de um nível muito bom, de alta qualidade, com um programa de formação nacional consistente com o do EBCOG. Verificámos isso mesmo este ano, mas os candidatos de outras edições estiveram igualmente muito bem.”


A equipa envolvida no exame prático do EBCOG, incluindo os examinadores e as atrizes que assumiram o papel de doentes e grávidas

Atrizes portuguesas e simuladores

Diogo Ayres de Campos reconhece que foi sobretudo a dificuldade em identificar atrizes portuguesas que falassem bem inglês -- “porque se as fosse trazer de fora ficaria caríssimo…” – que fez com que só agora tenha avançado com a proposta de realizar a parte prática do exame europeu de Obstetrícia e Ginecologia em Portugal.

A circunstância de o Centro de Simulação Avançada Multidisciplinar do CHULN “estar prestes a arrancar” também foi importante para que o secretário-geral da FSPOG tivesse considerado que estavam reunidas as condições para sugerir Lisboa: “Temos os simuladores, o que é fundamental, pois, sem eles nada feito."



O convite para coordenar esta parte do exame foi-lhe feito pelo anterior presidente do EBCOG, um colega inglês. “O que se pretende é avaliar as competências clínicas dos candidatos em cenários simulados”, frisa. O número de participantes -- mais de 40 – duplicou no espaço de 4 anos. É necessário elaborar esses cenários, de acordo com as denominadas “estações”, e preparar o grupo de examinadores -- alguns são portugueses --, uma parte dos quais é permanente, de ano para ano.

Diogo Ayres de Campos explica que este exame começou pelas 8.30 h., prolongando-se até cerca das 18.30 h. Cada candidato permaneceu 12 minutos em cada “estação”, 1 para ler as instruções e 11 para resolver o problema que lhe foi colocado. Percorridas as 10 “estações”, duas horas depois, entrou outro grupo de 10 candidatos, e assim sucessivamente.

Na edição de 2019, foram introduzidas duas situações novas, numa das quais se pretendeu “avaliar como o candidato lida com uma doente, ou uma grávida, que não esteja positiva em relação à forma como está a ser tratada, com uma atitude excessiva ou aborrecida com a situação”.



A outra “estação” técnica com um “figurino” novo permitiu ao examinador “verificar a capacidade de o médico explicar a um colega mais novo, ou a um estudante de Medicina, de uma forma construtiva e motivadora, um determinado aspeto técnico da especialidade”.

“Desde 2016 que existem as 10 ‘estações’. Embora a experiência de cada candidato seja decisiva para a forma como lida com as várias cenas simuladas, podemos dizer que as mais complicadas são a ‘estação’ técnica complexa, a situação aguda e, por vezes, a interpretação de evidência científica”, refere Diogo Ayres de Campos.

Com uma taxa de sucesso no exame prático que ronda os 60%, o resultado global, incluindo a parte teórica, é seguramente inferior, o que revela o grau de exigência da certificação atribuída pelo EBCOG. O nosso interlocutor arrisca mesmo afirmar não haver outra prova do género com uma componente prática com estas características, ou seja, utilizando simuladores ou doentes simulados.



“Acho importante avaliarmos este tipo de competências. Como se trata de um processo caro e complexo de se montar, eventualmente, poderíamos aproveitar o exame europeu para os nossos internos e integrá-lo como parte do exame de saída do internato. Mas, obviamente, é ao Colégio da Especialidade de Ginecologia/Obstetrícia da Ordem dos Médicos que compete decidir quais os critérios para atribuir o grau de especialista”, refere Diogo Ayres de Campos, concluindo:

“Este tipo de avaliação, hoje em dia, é muito importante. Os países com uma grande dimensão adaptaram-se a esta nova realidade e avaliam estas competências.”


A reportagem pode ser lida na revista Women’s Medicine de janeiro 2020.

A revista de referência da Ginecologia/Obstetrícia portuguesa.

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