«Os enfermeiros não pretendem substituir outros profissionais»

"Os enfermeiros não pretendem substituir outros profissionais, apenas querem exercer plenamente as suas competências", afirmou Luís Filipe Barreira, bastonário da Ordem dos Enfermeiros, na sessão de abertura da IV Convenção Internacional dos Enfermeiros, que decorreu no início de dezembro, em Fátima.


(Foto Nuno Fernandes)

Um dos temas em destaque na intervenção de Luís Filipe Barreira foi o da prescrição por enfermeiros, que é defendida como uma evolução natural da profissão, embora o assunto “tenha sido sempre tratado com desconfiança e como um ato de ousadia”, comentou, acrescentando:

“Não é ousadia, é bom-senso, é evolução, é resposta às necessidades concretas das pessoas. Em muitos países, a prescrição por enfermeiros é uma realidade consolidada, que permitiu acelerar o acesso aos cuidados, aumentar a eficiência dos serviços e reforçar a autonomia destes profissionais.”

Alertou ainda para o facto de a enfermagem ser uma profissão de alto risco e de desgaste rápido, lembrando que os enfermeiros trabalham em “vários contextos de risco permanente, com um esforço físico imenso, turnos prolongados e uma carga psicológica e emocional que se acumula ao longo dos anos”. “É por isso que a OE defende a criação de um regime especial de aposentação e de compensação pelo risco”, justificou.

Quanto ao combate à emigração de enfermeiros, Luís Filipe Barreira considera serem necessárias “políticas de retenção”, contemplando “condições dignas, estabilidade contratual e carreiras atrativas”, de modo a que os recém-licenciados (quase metade opta por emigrar) escolham exercer a sua atividade profissional em Portugal.

Sobre a implementação de um modelo de acompanhamento de grávidas de baixo risco por enfermeiros especialistas em Enfermagem de Saúde Materna e Obstétrica, destinado a responder à falta de vigilância de mulheres sem equipa de saúde familiar, afirmou que “o processo está prestes a ser concluído”.

“Este modelo permite reduzir intervenções desnecessárias, melhorar a experiência das mulheres e reforçar a continuidade de cuidados, já que o enfermeiro pode acompanhar todas as fases da gravidez”, acrescentou, sublinhando: “O modelo prevê a referenciação imediata em caso de complicações e inclui competências como a prescrição de exames complementares, num modelo colaborativo com a equipa de saúde.”


Luís Filipe Barreira (Foto Nuno Fernandes)

O bastonário enfatizou que “esta proposta da OE não substitui nem pretende substituir outros profissionais, os enfermeiros apenas querem exercer plenamente as suas competências e responder às necessidades das mulheres grávidas e das suas famílias”. E reforçou: “Só quem não quer fazer parte da solução e prefere que estas grávidas fiquem sem cuidados de saúde, em vez de serem seguidas pelos enfermeiros, é que acaba por criar obstáculos.”

Para concluir, disse que “o país não pode ficar preso ao passado”, considerando que “vivemos um tempo novo, em que precisamos de concentrar esforços naquilo que verdadeiramente importa e resolver o problema das pessoas”. E mais: “O que os portugueses pretendem dos governantes e dos profissionais de saúde é que atuem com sentido de responsabilidade e cooperação, colocando o interesse público acima de qualquer questão corporativa.”

Por último, Luís Filipe Barreira salientou o facto de a edição deste ano da Convenção Internacional dos Enfermeiros ter atingido “o limite máximo de 3500 inscrições”, um número recorde neste evento anual. “A Convenção cresce em dimensão e significado. Agora é tempo de organizar projetos que respondam às necessidades dos enfermeiros. O futuro não se faz com intenções, faz-se com ações”, afirmou.



(Foto Nuno Fernandes)

Entretanto, em representação da ministra da Saúde, a secretária de Estado da Saúde, Ana Povo, destacou que “os enfermeiros são a espinha dorsal do SNS” e comentou a questão das eventuais disputas entre classes profissionais:

“Nenhuma profissão consegue responder isoladamente às necessidades dos utentes. Todos os profissionais têm um papel insubstituível. O que nos fragiliza não são as diferenças, mas a falta de entendimento e de cooperação. O que nos fortalece é a capacidade de trabalhar lado a lado, colocando o interesse dos cidadãos acima de qualquer rivalidade corporativista.”

Ana Povo apelou ainda a que sejam colocadas de lado “disputas de territórios” e que se passe a agir no SNS numa “lógica de complementaridade”. Até porque “o utente não quer saber quem faz mais ou quem manda mais, quer ser cuidado com dignidade, com rapidez e, acima de tudo, com qualidade”.

Afirmou ainda: “Este Congresso prova que os enfermeiros estão prontos para liderar este caminho de cooperação. Que sejam também um exemplo para todas as profissões da Saúde.”

Não tendo tido oportunidade de comparecer presencialmente, o primeiro-ministro enviou uma mensagem na qual agradeceu, “profundamente, a todos os enfermeiros que diariamente servem os portugueses”. Luís Montenegro reforçou que “estão na primeira linha dos cuidados de saúde de qualidade”, enaltecendo o trabalho desenvolvido pela Ordem e pelo seu bastonário “na defesa do Sistema de Saúde e para responder aos desafios estruturais” que o país enfrenta”. Garantiu também que o Governo “continuará a valorizar a carreira dos enfermeiros e as suas condições de trabalho”.


A notícia pode ser lida na edição de janeiro de 2026 do Jornal Médico.

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