Formação em Geriatria já pode ser feita nos Cuidados de Saúde Primários
Manuel Viana está visivelmente agradado com o facto de a formação prática em Geriatria poder ser agora realizada nos cuidados de saúde primários por “ajudar a promover a especialização na área”. Até porque, no seu entender, “em cada USF devia haver, pelo menos, um médico de família com a competência de Geriatria”.
Médico de família com a competência de Geriatria, Manuel Viana sabe do que fala ao sublinhar: “Os sinais e sintomas dos processos patológicos sobrepõem-se aos do envelhecimento. Coexistem frequentemente várias doenças crónicas que interagem entre si e que levam a perda da funcionalidade, causando dependência e penalizando a qualidade de vida. Não existem doenças específicas dos idosos, mas sim formas de apresentação diferentes e, por vezes, atípicas – as síndromes geriátricas.”
E enumera uma série dessas síndromes, frisando que “o idoso que manifeste alguma delas deve ser estudado, para se determinar de que doença padece, já que pode ser qualquer uma”:
Os exemplos seguintes mostram que a lista não é pequena: as quedas, a imobilidade, a incontinência urinária, os quadros de delirium, a deterioração cognitiva, a depressão, a desidratação, a obstipação, as úlceras de pressão, a malnutrição, a privação sensorial (má visão e audição) ou a hipotermia, não esquecendo a iatrogenia, ou seja, as doenças provocadas pelo ato médico, com destaque para o excesso de medicação e as interações entre fármacos.
Manuel Viana
Mas, para Manuel Viana, “a síndrome de fragilidade é a expressão mais problemática do envelhecimento da população”. Trata-se de “um estado de declínio fisiológico progressivo em múltiplos
sistemas orgânicos, com redução da resposta homeostática a stressores minor, levando a uma alteração desproporcionada no estado de saúde e a vulnerabilidade aumentada a quedas, incapacidade, institucionalização e morte”.
Na abordagem às várias patologias que os doentes mais velhos podem apresentar, o nosso entrevistado frisa ser fundamental considerar o seguinte: “Mais importante do que a idade cronológica, interessa avaliar a idade biológica do utente que temos à nossa frente, se é robusto (FIT) ou, pelo contrário, se é frágil.”
E é muito claro quando alerta para o facto de que, no caso dos doentes frágeis, “a aplicação das múltiplas guidelines de uma doença específica pode não ser apropriada ou até revelar-se mesmo perversa”, justificando: “Os idosos mais frágeis e com multimorbilidades estão sub-representados ou foram excluídos dos ensaios clínicos e meta-análises, não devendo, por isso, os resultados dos estudos ser extrapolados para esta população.”
Competência de Geriatria: A 1.ª USF a proporcionar formação prática
Por indicação do respetivo Colégio, a Ordem dos Médicos alterou recentemente os critérios de acesso à competência de Geriatria, nomeadamente aquele que contempla a formação prática. Esta deixou de ser realizada apenas e exclusivamente numa unidade de Geriatria, nacional ou estrangeira, com idoneidade reconhecida pelo Colégio.
Com efeito, o estágio ou trabalho clínico de pelo menos 300 horas pode agora ser cumprido numa unidade, serviço ou estabelecimento com atendimento a idosos dos cuidados de saúde primários ou secundários, desde que tutelado por um médico com competência de Geriatria pela OM. Para além de que o mesmo pode ser feito em mais do que um local, desde que pelo menos num dos casos decorra em dias consecutivos e com um mínimo de 100 horas.
Manuel Viana e Sofia Tavares Almeida
A USF São João do Porto, que integra a ULS de Santo António, acabou por ser a primeira unidade de CSP a proporcionar formação prática para obtenção da competência de Geriatria, ao receber, no passado mês de setembro, a interna de MGF Sofia Tavares Almeida. Esta teve como orientador Manuel Viana, médico de família daquela USF que há muito se interessa particularmente pelo utente geriátrico.
Aliás, ambos tiveram oportunidade de partilhar esta experiência inédita na última edição do Congresso Português de Geriatria e Gerontologia, que se realizou no final de novembro, em Lisboa. Foram os protagonistas da sessão intitulada “A Competência e a Formação em Geriatria”, que teve como moderador Álvaro Ferreira da Silva, membro da Direção do Colégio da Competência
de Geriatria, e que foi presidida pelo cardiologista Manuel Carrageta e pelo médico de família José Augusto Simões, respetivamente, presidente e vogal da Sociedade Portuguesa de Geriatria e Gerontologia.
O balanço final do estágio realizado por Sofia Tavares Almeida na USF São João do Porto, sob a tutoria do médico de família Manuel Viana, revela-se, pelos vistos, muito positivo: “Tive uma ótima experiência, e os próprios utentes a quem realizei uma Avaliação Geriátrica Global, que, infelizmente, não seria possível numa consulta normal, não só colaboraram como se mostraram agradecidos.”

A notícia completa pode ser lida na edição de janeiro 2026 do Jornal Médico.


