Após 24 anos, está atualizada a rede de referenciação hospitalar em Obstetrícia e Ginecologia
Diogo Ayres Campos considera que a imposição da pré-triagem telefónica no acesso à Urgência de Obstetrícia e Ginecologia “foi a medida recente mais importante para fazer face às dificuldades de resposta das urgências obstétricas e ginecológicas, que afetam sobretudo a região de Lisboa e Vale do Tejo”.
Em declarações à Just News, o diretor do Departamento de Obstetrícia, Ginecologia e Medicina da Reprodução do Hospital de Santa Maria, ULS de Santa Maria, refere que “os atendimentos desnecessários na Urgência desgastam muito as equipas médicas e condicionam um número elevado de clínicos em presença física”.
Recorda ainda que, tendo sido implementada inicialmente na região de Lisboa e Vale do Tejo, a medida está agora a generalizar-se a todo o país. Estima-se que cerca de um terço das situações sejam, assim, encaminhadas para consultas abertas nos CSP e nos hospitais.
Membro da Comissão Nacional da Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente, órgão consultivo criado pela ministra da Saúde em 2024, o médico afirma ter estado a trabalhar na revisão do algoritmo da linha SNS24, “tornando ainda mais discriminativo o acesso à Urgência, depois de numa fase inicial termos sido mais cautelosos”. Esse novo algoritmo entrou agora mesmo em funcionamento, dia 23 de fevereiro.
Rede de referenciação hospitalar em Obstetrícia e Ginecologia
A atualização da rede de referenciação hospitalar em Obstetrícia e Ginecologia, que não acontecia há 24 anos e que está agora concluída, à espera de publicação, define as situações obstétricas e ginecológicas a serem tratadas em cada um dos três níveis em que os hospitais estão classificados.
“É um aspeto crucial para a organização dos cuidados de saúde hospitalares não-agudos em qualquer país”, refere Diogo Ayres de Campos. “Há certas patologias que são raras e cujo tratamento é complexo e, como tal, necessitam de ser concentradas nalguns hospitais, criando aí a experiência e as condições técnicas necessárias para que se ofereçam as melhores soluções terapêuticas”, sublinha.
O especialista aplaude igualmente a decisão de criar, em regime experimental, a figura dos Centros de Elevado Desempenho, que diz respeito a unidades onde a produtividade e o atingimento de metas nos indicadores de qualidade se traduzem em incentivos financeiros para todos os elementos da equipa.
“Acho que têm potencial para melhorar os cuidados de saúde prestados e promover a fixação de profissionais no SNS, desde que sejam implementadas de uma forma cuidadosa e equilibrada”, afirma.

"Uma medida imprescindível para garantir previsibilidade no atendimento urgente.”
“Esperando sinceramente que seja uma medida apenas temporária, a concentração de urgências de Obstetrícia e Ginecologia entre duas ULS é, neste momento, uma medida imprescindível para garantir previsibilidade no atendimento urgente”, considera Diogo Ayres de Campos, esclarecendo:
“Esta medida não implica alterar a atividade clínica programada dos serviços envolvidos, mantendo-se inclusivamente a realização de cesarianas e de partos programados. Desta forma, os Blocos de Partos mantêm-se abertos em dias fixos da semana e espera-se que isso constitua uma motivação para que as equipas se venham a ‘reconstruir’ no futuro.”
Outra decisão que destaca, e que foi tomada com o apoio das ordens dos Médicos e dos Enfermeiros, diz respeito à possibilidade dos enfermeiros especialistas em Saúde Materna e Obstétrica fazerem a vigilância de grávidas de baixo risco nas unidades onde não existe capacidade de resposta dos médicos de Medicina Geral e Familiar.
“É necessário dar uma solução a essas grávidas. Não podemos aceitar que voltem a existir gestações não vigiadas no nosso país, com todos os riscos materno-fetais que isso comporta. A vigilância da gravidez de baixo risco por enfermeiros especialistas, de acordo com as orientações da Direção-Geral da Saúde, é uma solução necessária e que já deu provas de segurança e satisfação em muitos outros países europeus”, sublinha Diogo Ayres de Campos.
Por fim, realça “a necessidade de regularização das condições contratuais dos médicos prestadores de serviços, com uma revisão estratégica cuidadosa e equilibrada, feita de forma a motivar o reingresso no Serviço Nacional de Saúde, mas sem pôr em causa esta solução, que se tornou numa ‘tábua de salvação’ para muitos serviços de Obstetrícia e de Ginecologia”.
“É importante que a Obstetrícia e Ginecologia nacional retome rapidamente os níveis de excelência que já alcançou no passado e que tornou Portugal num modelo organizativo de referência para vários outros países europeus”, conclui.
A entrevista completa com Diogo Ayres Campos pode ser lida na edição de março do Jornal Médico.


