Médicos de família em «posição privilegiada para apostar na prevenção a todos os níveis»
O acesso a informação não científica é um dos principais desafios dos médicos e enfermeiros de família quando se trata de prevenção, como explicou Paula Atalaia, coordenadora da Unidade de Saúde Familiar (USF) do Parque, em Lisboa.
“É muito difícil lidar com toda a desinformação que há hoje em dia e que baralha as pessoas, levando-as a adotar dietas ou cuidados que não são científicos.” A responsável falou com a Just News à margem das 6.as Jornadas da USF do Parque, cujo tema foi “Prevenir é cuidar – Prevenção em MGF (Medicina Geral e Familiar)”, e que decorreram há dias no Infarmed, em Lisboa.
Paula Atalaia realçou que, com base em informações “nada fidedignas”, as pessoas pedem mais exames e optam por estilos de vida que podem não ser os mais adequados. “Nalguns casos podem até ser prejudiciais”, alertou..jpg)
Face a esta realidade, e focando-se na sua prática clínica, a coordenadora defendeu uma permanente atualização dos especialistas em MGF face ao papel que têm em termos de promoção da saúde. “Como conhecedores do indivíduo e da sua família estamos numa posição privilegiada para apostar na prevenção a todos os níveis – primordial, primária, secundária, terciária, quaternária e quinquenária”, relembrou.
Ainda neste âmbito, a médica apontou outro desafio. “A prevenção quaternária é muito importante, porque, com o aumento da esperança média de vida da população, é necessário não se sobrediagnosticar nem se sobretratar”, observou.
Paula Atalaia não deixou também de enfatizar a necessidade que existe da prevenção quinquenária para evitar o burn-out e outras complicações de saúde dos profissionais, que "estão sobrecarregados de trabalho assistencial e burocrático, em exaustão”..jpg)
Elementos da Comissão Organizadora das 6.as Jornadas
Médico de família há 40 anos
Quem marcou presença na sessão de abertura foi Luís Rebelo, médico de família da USF Parque e o anterior coordenador da USF. Perante uma plateia de muitos profissionais de saúde jovens, deixou algumas ideias-chave que o têm ajudado ao longo da sua carreira de 40 anos.
Como começou por dizer, “a nossa arma é a palavra, esta nunca pode ser abdicada por mais que nos proponham tecnologias”. O especialista frisou que o diagnóstico exige sempre a história clínica e o recurso ao conhecimento da pessoa e da sua família. E deixou uma chamada de atenção: “A comunicação com o doente já não pode ser paternalista, mas cooperativa.”
Desta forma, como continuou, “o médico de família está bem apetrechado para promover a mudança de comportamentos, sendo para isso necessário estabelecer uma relação pessoal”.
Luís Rebelo defendeu ainda que o especialista em MGF deve ser “provedor dos seus doentes”, aconselhando-os com base nas informações mais atualizadas.
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Dando especial relevância à humanização de cuidados falou ainda da importância de se dar esperança. “Devemos ser treinados para dar más notícias, mas nunca devemos deixar de transmitir uma esperança realista.”
Por fim, deixou como principal mensagem a passagem de testemunho entre colegas. “Aprendemos fazendo, por isso é preciso investir no ensino ombro a ombro, que tem um valor insubstituível”. .jpg)
Paula Atalaia, Manuela Peleteiro e Luís Rebelo
Na mesa da sessão de abertura também esteve Manuela Peleteiro, diretora executiva do ACES Lisboa Norte, que, como enalteceu, “a prevenção é o core business da Medicina Geral e Familiar, começando pela prevenção primordial”. 


