Diogo Ayres de Campos: A reconstrução da equipa de Obstetrícia e Ginecologia «não foi tarefa fácil»

Tendo deixado a direção do Departamento de Obstetrícia, Ginecologia e Medicina da Reprodução do então Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte um ano e meio antes, Diogo Ayres de Campos retomou o cargo exatamente a 1 de novembro de 2024, já no contexto de ULS de Santa Maria. 

Em entrevista à 
Just News, recorda os “tempos difíceis” que se viveram nessa altura e nos meses seguintes, perante a realidade de uma equipa médica profundamente depauperada, sobretudo no que dizia respeito ao Serviço de Obstetrícia. Membro da Comissão Nacional da Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescentecriada em julho de 2024, o médico destaca também uma série de medidas que têm vindo a ser tomadas e que poderão contribuir, na sua opinião, para que “a Obstetrícia e Ginecologia nacional retome rapidamente os níveis de excelência que já alcançou no passado”. 



"Não foi uma tarefa fácil”

A “reconstrução” da equipa de médicos do Departamento de Obstetrícia, Ginecologia e Medicina da Reprodução, agora novamente dirigido por Diogo Ayres de Campos, prolongou-se por 2025 e “não foi uma tarefa fácil”, reconhece aquele responsável. Até porque, “como se sabe, as condições financeiras que o SNS oferece não são famosas para atrair profissionais”. No entanto, uma das especialistas que regressou a Santa Maria, logo em novembro de 2024, foi Luísa Pinto, que viria reassumir formalmente a direção do Serviço de Obstetrícia. 

Importa recordar que não foi por vontade própria que o médico e professor catedrático, que manteve a ligação à Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa durante esse período, deixou de ser diretor do Departamento que agrega os Serviços de Ginecologia e de Obstetrícia. Saída que aconteceu em junho de 2023, pouco antes do início das obras que, até ao final do verão do ano seguinte, condicionaram umredução drástica da atividade obstétrica no Departamento, onde praticamente só se fizeram cesarianas programadas. 

A realidade que Diogo Ayres de Campos encontrou em novembro de 2024 era dramática. Embora houvesse alguns médicos prestadores de serviços a quem se podia recorrer, a Ginecologia tinha pouco mais de uma dúzia de médicos no quadro e a Obstetrícia estava bem pior, reduzida a somente quatro especialistas do quadro hospitalar. 



Diogo Ayres de Campos: “Só obstetras haviam saído nove e vários outros elementos já tinham anunciado que iam também deixar o Santa Maria”


"Recrumos 16 pessoas, algumas das quais fomos buscar fora do país”

Só obstetras haviam saído nove e vários outros elementos já tinham anunciado que iam também deixar Santa Maria. Foi necessário proceder à ‘reconstrução’ da equipa, sobretudo da área da Obstetrícia. No total, incluindo os diversos tipos de colaboraçãorecrumos 16 pessoas, algumas das quais fomos buscar fora do país”, conta Diogo Ayres de Campos, exemplificando:
 


Contratámos uma médica portuguesa que tinha feito a especialidade em Inglaterra, onde estava a trabalhar, um colega também português que fez o curso na Alemanha e se encontrava na Suíça, um médico brasileiro, uma especialista italiana, que fez toda a sua formação na Argentina… Entretanto, boa parte dos profissionais que tinham ido embora voltou e fomos tambébuscar alguns colegas a outros hospitais ou à medicina privada. Foi desta forma, médico a médico, que conseguimos ir ‘reconstruindo’ a equipa, recuperando a quase totalidade da resposta assistencial que tínhamos tido no passado.” 

Clarifica que a primeira prioridade do Departamento é que a Urgência de Obstetrícia e Ginecologia e o Bloco de Partos estejam sempre abertosde forma a dar segurança às grávidas e mulheres com doenças ginecológicas da nossa área de influência. Afirma que foi isso que sucedeu a partir de novembro de 2024, embora tivesse havido diversos períodos de contingência nBloco de Partos. O que só deixou de acontecer a partir de julho de 2025, com a Urgência e o Bloco de Partos “a funcionarem a 100%”. 

No ano passado registámos 16.553 atendimentos na Urgência. Não atingimos os 17.468 de 2022, o último ano completo de atividade, porque na Região de Lisboa e Vale do Tejo se implementou a pré-triagem telefónica no acesso à Urgência de Obstetrícia e Ginecologia”, refere Diogo Ayres de Campos. 


Diogo Ayres de Campos com Luísa Pinto, diretora do Serviço de Obstetrícia

Recorde de 2699 partos em 2025 

Já relativamente aos partos, tendo em conta o encerramento do Bloco de Partos na 2.ª metade de 2023 e em grande parte de 2024, passou-se de 579 partos, em 2024, para 2699 partos, em 2025. Ora, este número traduz um aumento recorde, tendo em consideração que desde o início do presente século oscilou sempre entre os 2100 e os 2500. 

“Também aqui recebemos muitas grávidas que não nasceram em Portugal, numa percentagem que se aproxima dos 50%”, informa o diretor do Departamento. 

“Embora a nossa enfermaria do pós-parto não seja, do ponto de vista hoteleiro, muito atrativa, o facto é que as novas instalações do Bloco de Partos fizeram com que houvesse maior vontade da população em ter os seus filhos aqui em Santa Maria. Mas tivemos igualmente muitos partos de utentes que não eram da nossa área de influência, oriundas, por exemplo, do Barreiro e de Almada, onde os Blocos de Partos estiveram frequentemente encerrados durante 2025”, salienta, acrescentando: 

“Tal como se observa noutros centros urbanos do país, também aqui recebemos muitas grávidas que não nasceram em Portugal, numa percentagem que se aproxima dos 50%. Cerca de 25% das grávidas estrangeiras são naturais do Brasil, a seguir temos os países africanos de expressão portuguesa, também muito representados, e depois a Ásia Meridional: ÍndiaPaquistão, Nepal, Bangladesh. O número de partos realizados anualmente no nosso país andou muitos anos entre os 80.000 e os 85.000mas em 2025 subiu para cerca de 89.000, e isto tem uma influência grande da população estrangeira a residir cá.” 


O diretor do Departamento de Obstetrícia, Ginecologia e Medicina da Reprodução faz questão de referir que há outros motivos para que as grávidas procurem o Hospital de Santa Maria: “Nós somos centro de referência para várias doenças da gravidez, o que faz com que grávidas de outros locais do sul do país sejam encaminhadas para aqui. Um exemplo são as situações de acretismo placentário, em que a placenta invade anormalmente a parede do útero materno, que nos chegam de toda a região sul. 


A entrevista completa com Diogo Ayres Campos pode ser lida na edição de março do Jornal Médico.

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