Doentes com patologia dual reduzem consumo de canábis quando medicados com cariprazina
É reconhecida a complexidade que envolve a coexistência da esquizofrenia com a dependência/consumo de substâncias estupefacientes ou psicotrópicas, contexto que nos anos mais recentes passou a ser designado por patologia dual, em si mesma um fator promotor de reinternamentos e recaídas entre os doentes. As melhores abordagens para lidar com este tipo de cenário clínico difícil estiveram na base de um simpósio organizado pela Jaba Recordati no âmbito do XIX Congresso Nacional de Psiquiatria.
Néstor Szerman, investigador do Instituto de Psiquiatria e Saúde do Hospital Geral Universitário Gregorio Marañón, em Madrid, partilhou dados científicos relativos ao uso de cariprazina nos doentes esquizofrénicos que também apresentam perturbação do uso de canábis..jpg)
De acordo com várias revisões sistemáticas e meta-análises publicadas na última década, cerca de 75% dos doentes com esquizofrenia consomem substâncias estupefacientes ou psicotrópicas, no entanto, apenas uns 10% recebem tratamento para esta patologia dual(1,2). Segundo Néstor Szerman, que preside à World Association of Dual Disorders (WADD), esta realidade é tanto mais grave quanto se sabe que “os doentes englobados no espectro da patologia dual apresentam um elevado risco de mortalidade, de suicídio e de desenvolver outras doenças com significativo impacto clínico”.
Importa aqui resolver um enigma fundamental para desenhar estratégias terapêuticas de sucesso: o uso de substâncias como a canábis, uma das mais comuns entre os doentes esquizofrénicos, representa uma causa dos surtos psicóticos ou é um efeito dos mesmos? O psiquiatra espanhol apresentou dados de um estudo(3) cuja evidência sugere que a canábis, por si só, não causa psicose. “Ao invés, os dados indicam-nos que o uso precoce e intenso de canábis é mais provável em indivíduos com vulnerabilidade à psicose”, afirmou.
É ainda preocupante o efeito sinérgico negativo observado na patologia dual. O psiquiatra revelou, a este propósito, durante a sessão moderada por Gustavo Jesus, diretor do Serviço de Psiquiatria da ULS do Estuário do Tejo, que um outro estudo, publicado em 2025(4), parece indicar que “reduções na densidade sináptica do cérebro são evidentes durante estados clínicos de elevado risco para psicose e que o uso de canábis, potencialmente, acelera tais défices”.
É hoje consensual a necessidade de tratar as pessoas com patologia dual de forma focada quer no objetivo de evitar os surtos psicóticos, quer na prevenção das consequências nefastas do tetrahidrocanabinol (THC), composto presente na canábis que agrava os sintomas psicóticos. Tal meta pode ser alcançada, sobretudo, mediante a adoção de um modelo de tratamento integrado, que ofereça uma resposta simultânea para a esquizofrenia e para a perturbação do uso de canábis, num único plano terapêutico, com apoio continuado de uma equipa multidisciplinar.
Néstor Szerman
Dito isto, a escolha dos fármacos é igualmente crítica: “Antes de mais, é importante perceber como não devemos tratar estes doentes... Não podemos fazer uso da primeira geração de medicamentos antipsicóticos (antagonistas dos recetores dopaminérgicos D2), que poderiam diminuir ainda mais o nível dopaminérgico basal descrito para esta população. Tal bloqueio acrescido poderia, com alguma probabilidade, levar a um maior consumo de substâncias psicotrópicas para aliviar a anedonia e os défices cognitivos.”
A solução surge na forma dos agonistas parciais dos recetores dopaminérgicos, antipsicóticos atípicos (3.ª geração de antipsicóticos), que conseguem regular a atividade da dopamina de uma forma menos disruptiva. Entre estes agonistas parciais, Néstor Szerman considera que “a cariprazina se destaca pela sua elevada potência como antagonista em recetores serotoninérgicos e histaminérgicos e atividade agonista parcial no recetor dopaminérgico D3, um perfil farmacológico único entre os antipsicóticos conhecidos”.
“A maior densidade de recetores D3 encontra-se em áreas cerebrais que regulam as funções cognitivas e emocionais, bem como os comportamentos relacionados com a recompensa. É importante recordar que a dopamina tem maior afinidade aos recetores D3 do que aos recetores D2 e que a modulação via recetores D3 afeta a libertação de dopamina no córtex pré-frontal, influenciando a cognição e a motivação”, sublinhou o especialista espanhol.
Meta-análises mostram ainda que, quando comparada com outros antipsicóticos atípicos, como aripiprazol e brexpiprazol, a cariprazina demonstra uma afinidade de ligação muito mais elevada e preferencial para os recetores dopaminérgicos D3.
Gustavo Jesus e Néstor Szerman
Néstor Szerman apresentou também um estudo observacional envolvendo casos de esquizofrenia associada a perturbação do uso de canábis, com a duração de seis meses, desenvolvido por uma equipa de investigação por si liderada e cujos resultados foram publicados, em 2025, na International Clinical Psychopharmacology(5).
“O endpoint primário consistia em descrever o efeito antipsicótico da cariprazina em 58 doentes com esquizofrenia e perturbação do uso de canábis em prática clínica de rotina e contexto real, em três momentos (linha de base e três e seis meses após o início do tratamento). Já os endpoints secundários passavam por perceber as características sociodemográficas e clínicas desses doentes e avaliar o efeito do tratamento com cariprazina na perturbação do consumo de canábis e também de outras substâncias (tabaco, álcool, cocaína ou outros comportamentos aditivos)”, esclareceu.
De notar que 62% dos doentes incluídos na amostra do estudo já haviam conhecido múltiplos surtos psicóticos e, no que respeita às práticas de consumo, 48,3% apresentavam perturbação do uso de canábis classificada como moderada e 37,9% como grave. Dos resultados desta investigação foi possível concluir que a cariprazina revela elevada taxa de eficácia no tratamento da patologia dual, como contextualizou Néstor Szerman:
“Como esperávamos, a toma de cariprazina melhorou o estado dos doentes ao nível dos sintomas psicóticos e surgiu ainda associada à redução do consumo de canábis e ao desagravamento da perturbação do seu uso. A melhoria dos sintomas negativos e positivos verificou-se aos três e seis meses do estudo, com medições realizadas através das escalas de avaliação clínica PANSS e CGI-SC.”
E ainda: “No que respeita à perturbação do uso de canábis, registou-se uma redução estatisticamente significativa nos scores do CAST (Cannabis Abuse Screening Test), observada após três e seis meses de tratamento (11,3 ± 5,4 e 8,4 ± 6,5, respetivamente, em comparação com 15,4 ± 3,3 no início do estudo). A gravidade da perturbação do uso de canábis, de acordo com a Escala de Gravidade da Dependência (SDS), também foi reduzida (p < 0,001). Após seis meses de tratamento, a percentagem de doentes que usavam canábis diminuiu de 82,8 para 48,3%”.
O consumo de outras substâncias causadoras de dependência também baixou na amostra, caindo de 27,6 para 10,3%, no caso do álcool, de 15,5 para 1,7%, no que respeita à cocaína e de 5,2 para 3,4%, nas benzodiazepinas.
Na sua ótica, as conclusões a retirar são inequívocas: “O presente estudo suporta a eficácia da cariprazina na gestão de sintomas psicóticos em doentes com patologia dual, ou seja, diagnosticados com esquizofrenia e perturbação do uso de canábis. Os resultados corroboram ainda o potencial benefício da cariprazina na redução da gravidade dessa perturbação, bem como de outras por uso de substâncias em pacientes em tratamento para a esquizofrenia.”
Face a esta evidência e a toda a sua experiência neste campo, Néstor Szerman deixou alguns conselhos: “Nos doentes com fenótipo de patologia dual devemos recomendar uma abordagem abrangente, em que a pessoa é tratada para os seus diversos problemas por uma só equipa de saúde e de acordo com um plano terapêutico único.” E ainda: “O tratamento deve priorizar os antipsicóticos agonistas parciais, sendo a cariprazina uma das melhores opções, em conjunção com intervenções psicossociais.”
Referências:
1. Alsuhaibani, R., Smith, D.C., Lowrie, R. et al. Scope, quality and inclusivity of international clinical guidelines on mental health and substance abuse in relation to dual diagnosis, social and community outcomes: a systematic review. BMC Psychiatry 21, 209 (2021).
2. Hunt GE et al. Prevalence of comorbid substance use in schizophrenia spectrum disorders in community and clinical settings, 1990-2017: Systematic review and meta-analysis. Drug Alcohol Depend. 2018 Oct 1;191:234-258.
3. Ksir C, Hart CL. Cannabis and Psychosis: a Critical Overview of the Relationship. Curr Psychiatry Rep. 2016 Feb;18 [2]:12.
4. Blasco MB et al., Synaptic Density in Early Stages of Psychosis and Clinical High Risk, JAMA Psychiatry. 2025 Feb 1;82 [2]:171-180.
5. Szerman N et al, Cariprazine as a maintenance treatment in dual schizophrenia: a 6-month observational study in patients with schizophrenia and cannabis use disorder. Int Clin Psychopharmacol. 2025 May 1;40 [3]:167-175.

A notícia pode ser lida na edição de janeiro de 2026 do Jornal Médico.


