Doença VIH implica «relação próxima com os cuidados de saúde primários»

A doença VIH obriga a uma intervenção conjunta de várias especialidades e áreas médicas, mas o envolvimento dos cuidados de saúde primários “é algo extremamente importante”, bem como a disponibilização de outro tipo de apoios, lembrou Fausto Roxo, internista do Hospital Distrital de Santarém (HDS).

Segundo aquele médico, que coordena o Hospital de Dia das Doenças Infeciosas do HDS, "tem sido evidente a interação entre os internistas que tratam a doença VIH e colegas de outras especialidades e também internistas dedicados a outras áreas e que têm alguma ligação com a patologia VIH”.


Fausto Roxo

Mas a essa interdisciplinaridade, há que acrescentar, no seu entender, a necessidade de manter uma "relação próxima com os cuidados de saúde primários" e de recorrer a apoios vários: sociais, familiares e na ligação com outro tipo de patologias. Isto porque, “realmente, estes doentes envelhecem cada vez mais”.

E ainda reforçou: “Há 20 anos tínhamos uma sala de espera cheia de jovens, hoje está cheia de pessoas de meia-idade e com múltiplas patologias.”



Fausto Roxo abria, assim, a 4.ª reunião temática de um ciclo que o Núcleo de Estudos da Doença VIH (NEDVIH) da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna (SPMI) está a promover e que desta vez juntou umas largas dezenas de participantes em Santarém.

Na organização do evento, que aconteceu dia 1 de junho e foi subordinado ao tema “Patologia metabólica”, estiveram particularmente envolvidos os profissionais ligados ao Hospital de Dia das Doenças Infeciosas do Hospital Distrital de Santarém (HDS) e à Consulta de Imunodepressão da Unidade das Caldas da Rainha do Centro Hospitalar do Oeste (CHO).


Equipa do HDS: Fausto Roxo com as médicas Diana Vital e Sandra António, os enfermeiros Pedro Malaca e Saudade Ivo e a médica Graça Amaro (ausente na foto, a médica Nildelema Dalaba)

Cristina Teotónio, responsável daquela Consulta e que, à semelhança de Fausto Roxo, integra o Secretariado do NEDVIH-SPMI, usou da palavra, na sessão de abertura, para informar que também se deslocou a Santarém com a tarefa de representar na reunião o diretor clínico do CHO, Francisco San Martin. Não deixou de reforçar que, efetivamente, “os nossos doentes estão mais idosos e, portanto, têm comorbilidades e fatores de risco associados que é necessário tratar”.

Entretanto, Paulo Sintra, presente na reunião na qualidade de diretor clínico do HDS, mas muito ligado à cirurgia bariátrica, acabaria por comentar que, tendo em conta o caráter crónico da sida, “com toda a sua amplitude, acaba por entroncar naquela que é a minha área de intervenção, a obesidade”.



Por seu turno, Marília Boavida da Silva, presidente do Conselho Clínico e de Saúde do Agrupamento de Centros de Saúde Lezíria, não deixaria de se referir à necessária “articulação dos profissionais nos diferentes níveis de cuidados, como primários e secundários e considerando ainda que alguns destes doentes vão precisar de cuidados continuados”.

Das várias comunicações apresentadas, aqui ficam, por exemplo, alguns números deixados por Ana Marques, internista da Unidade Integrada de Diabetes do Centro Hospitalar do Oeste: que a população com a doença VIH tem um risco 2 a 3 vezes maior de desenvolver diabetes; que cerca de 14% dos doentes VIH poderão ter diabetes; que em termos de pré-diabetes essa percentagem situar-se-á entre os 18,5 e os 23%.


Equipa do CHO: Cristina Teotónio (ao centro) com Rafael Oliveira, Ana Canoso, Mauro Santos e Miguel Falcão, internos que colaboram na Consulta de Imunodepressão, que integra ainda os médicos Ana Margarida Faria, Ana Filipa e San Martin

“O reconhecimento da necessidade de uma nova visão”

José Vera, o atual coordenador do NEDVIH-SPMI, justificou, de alguma forma, em Santarém, a decisão de realizar o ciclo de reuniões temáticas “VIH e doença de órgão – O desafio a longo prazo” com o “reconhecimento da necessidade de uma nova visão” relativamente à infeção por VIH.

“Nós ultrapassámos a fase de controlo da infeção e entrámos, de facto, numa nova era, por um lado, muito facilitada pela investigação científica e, por outro, porque a indústria farmacêutica nos possibilitou ter à mão medicação cada vez mais eficaz. Tal permite-nos ter uma grande segurança do ponto de vista do controlo da infeção, proporcionando uma grande sobrevida dos doentes”, afirmou o especialista de Medicina Interna.



E lembrou que “temos, neste momento, menos de 2% das infeções oriundas do grupo da toxicodependência, que era o que nos dava doentes com idades mais jovens, e passámos a ter sobretudo uma transmissão por via sexual, com um grupo etário mais velho e com mais comorbilidades”.

Essa circunstância, aliada ao facto de mais de metade dos casos diagnosticados serem-no tarde de mais, faz com que José Vera alerte para a “necessidade de existir uma boa dinâmica de trabalho dentro das instituições, nomeadamente a nível hospitalar”.

Para além disso, “é preciso atuar, fora do hospital, em colaboração estreita com os cuidados de saúde primários e com todas as organizações de apoio aos doentes, porque isso será cada vez mais necessário”.


José Vera, Cristina Teotónio, Teresa Branco (presidente da Associação Portuguesa para o Estudo Clínico da SIDA) e Fausto Roxo

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