Cuidados integrados de saúde: «O setor social tem um papel fundamental»

As tecnologias da informação e da comunicação (TIC) podem "alavancar o processo organizacional, mas não são, em si, a solução para que haja uma maior integração de cuidados em saúde”. Esta foi uma das mensagens partllhadas no Encontro Nacional de Integração de Cuidados, o primeiro grande evento organizado pela Portuguese Association for Integrated Care (PAFIC), com conjunto com o Hospital Distrital da Figueira da Foz.

O evento, que decorreu no dia 9 de maio, na Figueira da Foz, contou com a presença de vários nomes ligados a diferentes setores da sociedade, nomeadamente da saúde, que se reuniram para partilhar experiências de projetos e programas que permitem uma maior interligação.



"Não basta instalar um determinado programa"

Em declarações à Just News, Adelaide Belo, presidente da PAFIC, frisa a relevância das TIC, mas alerta: “Não basta instalar um determinado programa para que haja maior articulação. O mais importante é perceber-se que, desde que é feito o desenho de determinado serviço, temos que pensar na forma como vamos dar resposta, a diferentes níveis, às necessidades dos doentes e seus familiares.”

Como afirma ainda: “A partir do momento em que existe esta noção de integração de cuidados, tudo o resto vem por acréscimo, permitindo a universalidade e equidade nos cuidados de saúde.”


Adelaide Belo

Neste âmbito, a responsável realça a relevância de se trabalhar em conjunto entre os diferentes setores da sociedade, tendo como único objetivo o cidadão. “A integração de cuidados é uma área muito transversal, que se deve centrar nas necessidades dos doentes e seus familiares e não tanto nas das instituições.”

E reforça esta ideia: “Instituições de diferentes setores da sociedade devem entender-se e coordenar-se, de modo a que a navegação dos utentes e seus familiares no sistema seja facilitada, mais amigável e de acordo com aquilo que realmente precisam.”

Contudo, a integração de cuidados deverá ser encarada sob diferentes perspetivas e Adelaide Belo especifica o caso da literacia em saúde:

“Deve-se começar a prevenir a doença na infância, em articulação com as escolas, para se evitarem comportamentos de risco que levam a determinadas doenças. Mas também se deve apostar na capacitação dos doentes, de modo que possam autogerir a sua patologia, sabendo quando recorrer aos serviços de saúde.”



"Temos mais pessoas com vários problemas sociais graves”

A presidente da PAFIC reconhece que já existem vários exemplos de programas de integração de cuidados no terreno, mas sublinha à Just News que "ainda é preciso sair um pouco da caixa”, ou seja: “Por vezes organizamo-nos consoante os modelos tradicionais, porque são aqueles que conhecemos, mas nem sempre podemos ficar por aí.”

Adelaide Belo destaca o setor social como tendo "um papel fundamental hoje em dia". E, na sua opinião, e muito fácil perceber porquê: “O envelhecimento da população é uma realidade, o que nos leva a ter mais pessoas com múltipla patologia crónica e com vários problemas sociais graves.”

Uma ideia também expressa por Manuel Teixeira Veríssimo, presidente do Conselho de Administração do HDF durante o Encontro. O médico foi um dos intervenientes na sessão de abertura, onde realçou que “a integração de cuidados é algo tão necessário, que será o futuro da nossa população e do país”. E explicou porquê:

“A população está cada vez mais envelhecida, com problemas sociais, o que nos obriga a dar uma resposta integrada e não desfragmentada.” Um papel que cabe, acrescentou, “aos hospitais, aos centros de saúde e à comunidade em geral, nomeadamente, municípios e IPSS”.


Manuel Texeira Veríssimo

Criação de uma unidade "que integre os vários setores"

No final da sua intervenção, Manuel Teixeira Veríssimo, que é especialista de Medicina Interna, adiantou ainda que o Hospital da Figueira da Foz poderá vir a ter uma nova valência:

"O HDF tem as condições necessárias para se criar um projeto-piloto de uma unidade que integre os vários setores e que permite ir ter com os doentes para lhes dar a resposta à suas necessidades, de forma integrada, no local onde precisam.”



"É um desiderato essencial para a sustentabilidade"

Na sessão de abertura do Encontro estiveram ainda presentes Rosa Reis Marques, presidente da Administração Regional de Saúde do Centro (ARSC), e Carlos Monteiro, presidente da Câmara Municipal da Figueira da Foz.

A responsável da ARS salientou a importância da intervenção de outros setores na saúde, como as autarquias, considerando que "o Poder Local é um ator fundamental em todas as atividades que visam a saúde.”

Na sua opinião, “a integração de cuidados é um desiderato essencial para a sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde (SNS) e de todos os sistemas de saúde do mundo. É mais que uma inovação concetual e organizacional."


Manuel Teixeira Veríssimo, Carlos Monteiro, Rosa Reis Marques e Adelaide Belo

Um utente que não seja "apenas consumidor de cuidados”

Rosa Reis Marques referiu também a importância das TIC na aproximação entre os serviços de saúde e a população, nomeadamente, através da telemedicina ou da Plataforma de Dados em Saúde (PDS), e no âmbito da prevenção da doença e da promoção em saúde.



“As TIC são um poderoso instrumento de acesso a informação válida, baseada na evidência científica", referiu, acrescentando que "cidadãos informados e capacitados fazem escolhas mais saudáveis e procuram de forma mais adequada os serviços de saúde quando estão doentes".

Considerou mesmo que, desta forma, “as TIC contribuem para a transformação do doente ou utente num parceiro em saúde, ao invés de ser apenas um consumidor de cuidados”.

No que diz respeito ao Poder Local, Carlos Monteiro assegurou estar particularmente atento ao papel que as autarquias podem ter na saúde e enumerou projetos com esse objetivo. Um deles foi o “Figueira Respira”, que visa sensibilizar para a doença pulmonar obstrutiva crónica, e que foi precisamente um dos exemplos partilhados mais tarde no Encontro.



Imediatamente após a Sessão de Abertura, Rosa Valente de Matos, presidente do Conselho de Administração do Centro Hospitalar e Universitário de Lisboa Central (CHULC), moderou uma intervenção sobre "Rede de Cuidados Integrados para a Insuficiência Cardíaca na Galiza". Uma experiência partilhada por José Juanetey, diretor do Serviço de Cardiologia do Complejo Hospitalario Universitario de Santiago de Compostela.

O evento contou com o apoio da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares, da Escola Nacional de Saúde Pública da Universidade Nova de Lisboa, do Fórum Saúde Século XXI e da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna.


Direção da PAFIC, responsável pela concretização do 1.º Congresso dedicado especificamente à promoção e implementação dos Cuidados Integrados em Portugal: Cátia Gaspar, Adelaide Belo, Vera Almeida

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