Cuidados Continuados: «Não queremos que a RNCCI seja o parente pobre da saúde»

João de Castro, diretor técnico da Unidade de Cuidados Continuados WeCare Saúde, na Póvoa de Varzim, é o autor de uma carta enviada à coordenação da Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados (RNCCI), na qual alerta para o que considera serem “graves problemas” na Rede.

“Apenas queremos que a RNCCI não seja vista como o parente pobre da saúde e não seja usada como ‘Hospital Low-Cost’", afirma o enfermeiro, acrescentando:

“O acesso a materiais de proteção individual não é fácil por causa dos elevados preços e também perdemos recursos humanos que fugiram para os hospitais à procura de menos horas de trabalho e de melhores condições financeiras.”

O responsável está assim preocupado com o futuro das instituições dos CCI, sobretudo do setor privado, mesmo que sejam convencionadas. “Neste período pandémico, não tivemos quaisquer ajudas extra e nem sequer nos podemos candidatar a apoios, apesar de trabalharmos unicamente para o Estado. Mesmo máscaras, só se conseguiram cerca de duas mil de uma unidade privada.”

Todos estes contratempos já se sentiam de alguma forma antes da pandemia, mas atualmente o enfermeiro admite que aumentou o sentimento de “desespero, tristeza e abandono”. Como faz questão de salientar, não são apenas os profissionais e as instituições que mais sofrem com esta situação. “Os doentes são os mais prejudicados, sobretudo se não tiverem alternativa.”


João de Castro

Os problemas financeiros dos CCI tornam-se ainda mais significativos por haver utentes que não conseguem pagar a parte que lhe cabe a si e pela aquisição de medicação exclusiva, que leva ao desperdício. “Temos transferências de outras unidades por 10 dias ou menos e, muitas vezes, é preciso suportar o custo desses medicamentos.”

No caso de feridas, “apenas quem vem do hospital tem direito a comparticipação do tratamento de úlceras por pressão e somente por 6 meses da tipologia longa duração e manutenção”.

Outros pontos dizem respeito ao “desvirtuamento do processo de referenciação, muitas vezes criado por pressão hospitalar para vagar camas” e também pelo “desconhecimento dos profissionais do hospital e dos cuidados de saúde primários em relação ao funcionamento da RNCCI”.

Acrescem os problemas dos sistemas de informação e a “burocracia excessiva, que leva a duplicação de registos”. “É preciso falar sobre estes e muitos outros assuntos, porque a sustentabilidade – ou até a sobrevivência - das instituições da RNCCI está a curto-médio prazo posta em causa.”

Apesar do cenário, João Castro acredita que o apoio aos doentes ainda se vai mantendo por “determinação” dos gestores, coordenadores e outros profissionais, que, diz, “lutam por uma Rede com qualidade, que dê resposta às necessidades da população”.


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