Colaboração entre serviços viabiliza cirurgia do aneurisma da aorta toracoabdominal

“Abre as portas”, mas não só. No Centro Hospitalar Universitário de Lisboa Norte (CHULN), os cirurgiões do Serviço de Cirurgia Vascular sobem os quatro pisos que os separam do Bloco da Cirurgia Cardiotorácica, no lado norte do edifício de Santa Maria, e têm à sua espera pelo menos dois colegas cirurgiões, entre os quais o próprio diretor do Serviço, Ângelo Nobre.


Nuno Carvalho Guerra, Luís Mendes Pedro, Ângelo Nobre e Carlos Martins

Mas também uma bateria de enfermeiros e assistentes operacionais, dois anestesiologistas, outros tantos perfusionistas e uns quantos médicos internos e técnicos em formação daquele Serviço. A eles se juntam profissionais da Pneumologia e da Neurologia, ou até da Urologia, por exemplo.

Nesta reportagem, publicada na mais recente edição de Coração e Vasos, dá-se um especial destaque ao papel da anestesiologia e da perfusão e à utilização dos potenciais evocados numa tarefa que consiste, como alguém disse, “em substituir a aorta por um tubo de plástico”.


Uma das cirurgias acompanhadas pela Just News

Uma cirurgia aberta para resolver um aneurisma da aorta toracoabdominal chega a juntar, numa das duas salas do Bloco Operatório do Serviço de Cirurgia Cardiotorácica reservada para o efeito, praticamente duas dezenas de pessoas.

A movimentação num dos lados da mesa onde está deitado o doente torna-se, aliás, praticamente impossível, devido ao equipamento de perfusão que ali foi colocado – indispensável para assegurar a circulação extracorporal –, monitorizado por dois perfusionistas, que podem estar ainda acompanhados de um colega em formação.



Departamento de Coração e Vasos potencia "modelo de colaboração entre serviços"

A Just News testemunhou as duas intervenções do género realizadas no passado mês de outubro (dias 2 e 30). Luís Mendes Pedro, que dirige o Serviço de Cirurgia Vascular do CHULN há 3 anos, mas que a ele está ligado há 30, desde os tempos do internato, prefere não falar em números.

Mas sempre vai dizendo que deverão ser operados “uns 20 a 30 toracoabdominais por ano”, dos quais cerca de dois terços dos doentes são submetidos a cirurgia endovascular”.


Luís Mendes Pedro

“A circulação extracorporal é uma técnica própria da Cirurgia Cardiotorácica, portanto, aqui, no nosso hospital, desenvolvemos um modelo de colaboração entre os dois serviços, uma vez que funcionamos muito bem em termos do Departamento de Coração e Vasos. Fazemos isto em conjunto”, afirma Luís Mendes Pedro.

“Os cirurgiões torácicos abordam o tórax, que é o seu território, e nós tratamos da parte abdominal, que é o nosso terreno preferencial.

Eles têm os perfusionistas e o know-how já completamente apurado para lidar com as máquinas de circulação extracorporal. Nós não temos, por isso, em vez de desenvolvermos curvas de aprendizagem nessa matéria, preferimos trabalhar em colaboração”, explica.



“Uma Big One!”

Luís Mendes Pedro diz que esta cirurgia já chegou a ser feita no Bloco do seu Serviço, mas a verdade é que, “embora sendo uma patologia da área da cirurgia vascular, logisticamente, faz mais sentido fazer estas intervenções no Bloco da Cardiotorácica”. Principalmente por causa do equipamento que permite a circulação extracorporal, que assim não precisa de ser deslocado.

Não fugindo, aliás, ao que é habitual, um dos doentes intervencionados em outubro com aneurisma toracoabdominal e antecedentes de “reparação” de uma dissecção aórtica (2003) e posterior substituição de uma válvula cardíaca (2015) ficou internado nos Cuidados Intensivos do Serviço de Cirurgia Cardiotorácica, onde deu entrada já ao final da tarde, mais de 8 horas depois de ter sido induzida a anestesia.

Programada, neste caso, cerca de um mês antes de ser realizada, esta cirurgia – “Uma Big One!”, como lhe chamaria uma das enfermeiras que nela participou – é tão invasiva que não é aconselhável em pessoas com mais idade ou com patologias que as fragilizam profundamente.



Pouco comum, "inclusive, a nível europeu"

Trata-se também de uma cirurgia com uma complexidade tão grande que não é nada comum, "inclusive, a nível europeu". Luís Mendes Pedro diz que esta abordagem aberta do aneurisma da aorta toracoabdominal se faz, fundamentalmente, em dois grandes centros na Europa: Maastricht (Holanda) e Milão (Itália).

Os doentes chegam ao CHULN vindos de Viseu, do Porto, de Coimbra, de Guimarães… “São aneurismas complexos, cujo tratamento implica uma tecnologia também muito complexa”, comenta Luís Mendes Pedro, esclarecendo que “já há uma longa tradição de referenciação destes casos difíceis para o Hospital de Santa Maria”, desde que era diretor do Serviço de Cirurgia Vascular Dinis da Gama.



Fernandes e Fernandes, que lhe sucedeu, tendo ocupado o cargo até se aposentar, em dezembro de 2016, “foi o impulsionador, a partir de 2012, deste tipo de abordagem, em que se assegura a proteção dos órgãos através de uma perfusão externa, por uma circulação extracorporal, bem como da estreita colaboração que existe com o Serviço de Cirurgia Cardiotorácica.

Luís Mendes Pedro sublinha o papel do seu antecessor “na realização dos primeiros casos, na ultrapassagem das primeiras dificuldades, na organização da equipa…”  E frisa: “Tivemos uma curva de aprendizagem cirúrgica, anestésica, dos perfusionistas, das enfermeiras…”

Atualmente, a cirurgia aberta do aneurisma toracoabdominal é realizada por Luís Mendes Pedro e Ângelo Nobre, com a ajuda de um ou dois cirurgiões de cada um dos serviços.



A intervenção mobiliza dois ou mais anestesiologistas, “porque implica imensas monitorizações”; um número elevado de enfermeiros (de anestesia, instrumentistas e circulantes); a Pneumologia “para, através de uma broncoscopia, verificar a correta colocação da entubação pulmonar seletiva”; o Serviço de Sangue, “uma colaboração decisiva, muito importante”; a Neurologia, “para a monitorização dos potenciais evocados”…

Resta acrescentar que a cirurgia de 30 de outubro envolveu um doente do sexo feminino, também na casa dos 50 anos, e que permitiu resolver mais um caso de aneurisma toracoabdominal pós-dissecção aórtica.
 

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