CHEDV já tem hospitalização domiciliária: preparação demorou um ano

Doentes que reúnam um determinado conjunto de critérios clínicos, sociais e geográficos podem agora ser internados no domicílio, sob a responsabilidade dos profissionais de saúde que constituem a Unidade de Hospitalização Domiciliária (UHD) do Centro Hospitalar de Entre o Douro e Vouga (CHEDV), com a sua concordância e da família.

Numa fase inicial, o projeto, coordenado por José Pedro Tadeu, assistente hospitalar de Medicina Interna, restringe-se a cinco doentes num raio de 30 minutos ou 30 quilómetros, de modo a garantir acessibilidade e resposta em tempo útil.

A equipa que lhe dá vida é composta por dois médicos (um dos quais o próprio coordenador), cinco enfermeiros (incluindo a coordenadora de Enfermagem do projeto, Maria José Monteiro), um farmacêutico e um assistente social.



Em declarações à Just News, José Pedro Tadeu, de 34 anos, indica que a unidade foi inaugurada em novembro de 2018 e que "o objetivo é que o projeto cresça gradualmente, à semelhança do que aconteceu no Hospital Garcia de Orta, em Almada, que serviu de referência". Mediante integração de mais profissionais, no futuro, "poderá expandir-se a 15 doentes".

Diariamente, é feita uma visita domiciliária por uma equipa constituída por um médico e um enfermeiro "e mais uma ou duas visitas apenas pelo segundo, dependendo da patologia ou das necessidades terapêuticas".

Entre as vantagens da hospitalização domiciliária, o médico aponta “a menor probabilidade de traumatismo emocional, a redução do risco de complicações pós-cirúrgicas, bem como do número de casos de reinternamento hospitalar e da taxa de infeção hospitalar”.

Por outro lado, o internamento em casa proporciona também uma “melhor gestão clínica das camas disponíveis para internamento no hospital” e consequente agilização da resposta aos casos em lista de espera para intervenção cirúrgica.


Alguns dos elementos da equipa da UHD, que integra médicos (M) e enfermeiros (E): Marta Perez (E), Nilton Silva (E), Susana Pereira (E), João Duarte (E), Joana Malheiro (M), José Pedro Tadeu (M) e Maria José Monteiro (E)

Critérios para internamento em casa

José Pedro Tadeu explica que é candidato ao internamento em casa o doente que responda a um conjunto de critérios, entre os quais um diagnóstico de doença aguda ou crónica agudizada (como infeções respiratórias ou do trato urinário, insuficiência cardíaca descompensada ou erisipelas); comorbilidades controláveis no domicílio e necessidade de cuidados hospitalares (um doente que tem critérios de alta clínica não é admitido em hospitalização domiciliária).

Refere também a necessidade de ausência de contraindicações (como alcoolismo, instabilidade hemodinâmica ou patologia psiquiátrica), do apoio de um cuidador, de telefone disponível e de condições da habitação (existência de água, luz e sistema de saneamento básico).

O coordenador do projeto não se dedica em exclusivo à Unidade de Hospitalização Domiciliária. Para além de trabalhar no Serviço de Medicina Interna do CHEDV desde 2016, desenvolve atividade na Urgência e na Consulta Externa.

O internista entende que “só a Medicina Interna tem capacidade científica para ter a segurança necessária para que o doente saído do ambiente hospitalar com critérios apropriados possa ser internado em casa”.



Trabalho de preparação demorou um ano

José Pedro Tadeu lembra que o projeto começou a ser planeado há cerca de um ano, "numa altura em que não existiam, a nível nacional, normas de orientação clínica na área da hospitalização domiciliária".

“Quando começámos, tivemos de nos focar na criação de regulamentos internos e externos e de critérios de admissão e de áreas de referência, porque não havia orientação dos serviços centrais do Ministério da Saúde que nos permitisse ter uma base para desenvolvermos o projeto”, conta.

Foi necessário, depois, “definir a tipologia de doentes que seria admitida, criar inquéritos, registos de ocorrência, fichas de sinais vitais, folhas de quilometragem da viatura a utilizar”.



Os enfermeiros da equipa da UHD deslocaram-se ao HGO para acompanhar de perto o trabalho desenvolvido por aquela unidade hospitalar na área da hospitalização domiciliária, o que, refere, “foi uma experiência muito produtiva”.

O Conselho de Administração do CHEDV acompanhou e apoiou todo este processo, tendo sido necessário, do ponto de vista financeiro, abrir um centro de custos, adquirir equipamentos, como monitores, desfibrilhadores, mochilas para a terapêutica, entre outros.

Quando foi publicado em Diário da República o decreto-lei 9323A-2018, a 3 de outubro, que determina a estratégia de implementação de Unidades de Hospitalização Domiciliária no SNS, o projeto do CHEDV já tinha todos os formulários concluídos e foi possível iniciar o trabalho a 1 de novembro.

De notar que o citado documento referia que “as entidades hospitalares do SNS que tiveram financiamento para constituição de UHD, no âmbito do programa de incentivos à integração de cuidados e à valorização do percurso do utente no SNS, devem assegurar que a respetiva atividade assistencial se iniciasse até 31 de março de 2019”.



O carro utilizado, nos primeiros dois meses, para as deslocações a casa dos doentes tinha cerca de 20 anos, mas desde o dia 4 de janeiro que a equipa tem à sua disposição uma nova viatura, oferecida pela Liga dos Amigos do Hospital de S. Sebastião, com o apoio de empresários da região.

Enfermagem: "ensinos ao cuidador ou ao próprio doente"

A enfermeira Marta Perez está ligada ao projeto desde o início, tendo sido uma das profissionais que acompanharam no terreno a experiência do HGO. Em declarações à Just News, conta que, no início do dia, antes das visitas domiciliárias, cabe ao enfermeiro verificar a terapêutica dos doentes e preparar aquela que será necessária durante o dia.


Marta Perez

“Temos de ter a precaução de ter medicação extra sempre que surgir algum imprevisto”, conta a enfermeira, natural do país vizinho.

No domicílio, os enfermeiros administram a terapêutica prescrita "e fazem os ensinos relativamente à medicação ao cuidador ou ao próprio doente, se o mesmo for íntegro".

A maior parte dos doentes tem cateteres endovenosos que são testados pelos enfermeiros. "Quando há necessidade, faz-se a colheita para a realização de análises". A profissional salienta ainda que o tempo que passa em casa com o doente acaba por “beneficiar a relação estabelecida, permitindo que os ensinos sejam feitos com mais qualidade”.



A reportagem pode ser lida no Hospital Público de março/abril 2019.

Distribuído em serviços e departamentos de todos os hospitais públicos, o jornal Hospital Público promove uma partilha transversal de boas práticas entre pares, contribuindo para valorizar o Serviço Nacional de Saúde e os seus profissionais.

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