Cardiopneumologia: «É gratificante a relação que temos com os doentes»

Paula Elisabete Rodrigues mostra-se apreensiva quando fala da “usurpação de funções” de que os seus colegas são alvo no setor privado. Reconhece mesmo que essa é a grande luta do momento da Associação Portuguesa de Cardiopneumologistas, cuja Direção atual integra, no cargo de vice-presidente. 

“Recorrendo a um exemplo comum, na eletrocardiografia, o profissional que detém competências para realizar um eletrocardiograma é um cardiopneumologista. Infelizmente, por vezes, vamos a um consultório e observamos que o mesmo é executado pela administrativa que trata das marcações…", afirma a nossa interlocutora.

Na sua opinião, não há qualquer dúvida: "Quem realiza esse exame não pode ser mero executor, deve ter a responsabilidade de o interpretar e de alertar ou encaminhar o doente”.

E sublinha: “Dizemos mesmo que é um risco para a saúde pública esses locais não terem um cardiopneumologista a executar os exames que são da sua competência”, frisa.



Segundo Paula Elisabete Rodrigues, nos hospitais públicos “também temos alguma distinção em certas áreas”, citando, como exemplo, o que se passa na área da Cardiologia de Intervenção, em que o rio Mondego serve de fronteira entre duas realidades diferentes:

“Na zona norte, a equipa de intervenção cardiovascular está direcionada a outros profissionais que não cardiopneumologistas, situação intimamente relacionada com o espírito criado quando aquela se iniciou.”

No que respeita aos hospitais do SNS geridos por entidades privadas, a realidade é idêntica. Nos hospitais de Vila Franca de Xira, Loures, Cascais e Braga, os cardiopneumologistas exercem nas diferentes áreas com autonomia e reconhecimento profissional.

Em termos de Pneumologia, “também estamos representados em todos os hospitais públicos, onde os técnicos ganharam autonomia e responsabilidade, dignificando a profissão, trabalhando em equipa com os médicos”, o mesmo sucedendo no estudo do sono e na ventilação.

“Uma área em que estamos menos representados em alguns hospitais públicos é a da ultrassonografia vascular”, sublinha Paula Elisabete Rodrigues.

"Unindo os Pontos" na Figueira da Foz

É a segunda vez em três anos que Paula Elisabete Rodrigues preside a um congresso da APTEC. Em 2016, ainda no mandato da Direção anterior, organizou a reunião na Curia, agora o palco é a Figueira da Foz, que recebe o evento entre os próximos dias 6 e 8 de abril. Explica que manteve a estrutura base da Comissão Organizadora anterior, mas tendo a preocupação de a alargar, procurando “gente nova, outras ideias, diferentes formas de trabalhar”. 


“Tínhamos tantas ideias escritas em papel que dissemos: temos de unir os pontos!”, revela a nossa interlocutora. E foi assim que surgiu o tema do Congresso: “Unindo os Pontos”.



Se há dois anos o encontro tinha sido direcionado à multidisciplinaridade da Cardiopneumologia, “tentámos agora fazer a ligação, a união da nossa profissão nas várias áreas de intervenção, unindo os pontos entre elas”. Foi esta a filosofia que norteou a construção do programa científico.

Há vários projetos em curso, destacando-se os cuidados de saúde primários, que serão abordados no Congresso, no fundo, “para aferir como nos posicionamos nos programas que estão a ser instituídos”.

Paula Elisabete Rodrigues apresenta, como exemplo, o das doenças cerebrocardiovasculares, que envolve a ARS de Lisboa e Vale do Tejo e o Hospital de Santa Marta (CHLC), ou o programa de telemedicina, que o Hospital Geral (CHUC) implementou, em ligação com unidades de CSP da sua zona de influência.

Destaca igualmente o programa das doenças pulmonares obstrutivas crónicas e o da reabilitação cardíaca, em que Miguel Mendes, presidente cessante da Sociedade Portuguesa de Cardiologia, está a trabalhar e que será um dos palestrantes na Figueira da Foz.



“Fundamentalmente, queremos avaliar qual o contributo que a Cardiopneumologia poderá ter na aplicação de todos estes programas, para podermos ser reconhecidos junto da comunidade e dos CSP e estarmos presentes a nível nacional, com uma distribuição uniforme dos profissionais”, explica Paula Elisabete Rodrigues.

Entretanto, "do estrangeiro virão alguns colegas que, tendo concluído a licenciatura numa das cinco escolas em Portugal que a concedem, desenvolvem a sua atividade profissional lá fora". A ouvir o que têm para transmitir estará uma assistência da ordem dos 350 participantes, ao nível dos congressos anteriores.

"Após 30 anos de profissão, já sou tia-avó!"

Paula Elisabete Rodrigues, que integra o Serviço de Cardiologia B do CHUC, instalado no Hospital Geral (Covões), com outros 16 colegas cardiopneumologistas, garante que “veste a camisola” da arritmologia e reconhece que “é gratificante a relação que se estabelece com os doentes, com os quais há um contacto periódico”.

“Criamos uma ligação afetiva muito grande com eles. Chegamos a implantar dispositivos em crianças com 15 dias, que depois crescem connosco. Após 30 anos de profissão, já sou tia-avó!”, exclama, recordando que esteve menos de dois anos ligada ao Hospital de Viseu, antes de se mudar para Coimbra.

É com satisfação que confirma que, à semelhança do que sucede principalmente nos hospitais centrais, os cardiologistas lhes “entregam” os doentes, que terão de ser acompanhados após ser feita a implantação de um dispositivo.

“Embora todas as questões do âmbito clínico sejam da responsabilidade do médico, executamos a consulta de follow-up autonomamente.

Esta confiança e este sentido de responsabilidade que fomos conquistando resulta do esforço de todos nós, cardiopneumologistas, que quisemos vencer na profissão e mostrar que somos uma mais-valia nesta rede de cuidados de saúde que prestamos aos doentes”, salienta Paula Elisabete Rodrigues.

"Exportação" de cardiopneumologistas

Ao longo da entrevista, que pode ser lida no Hospital Público, Paula Elisabete Rodrigues partilha alguns dados relevantes sobre os cardiopneumologistas portugueses, nomeadamente, o facto de serem "tornado apetecíveis" para unidades de saúde de uma série de países europeus, como a Suíça, a Alemanha, a Finlândia e a Holanda, e até países dos Emiratos Árabes, como o Dubai. 

Contudo, refere que é o Reino Unido que mais procura os técnicos nacionais, “porque temos uma formação base muito abrangente, com uma componente prática evidente”, apesar de, entretanto, ter sido alterada a estrutura de formação.

Cardiopneumologista e professora



Além de ser a responsável técnica do setor de Arritmologia e Pacing do Serviço de Cardiologia B do CHUC (Covões), o que implica fazer a gestão de materiais e logística inerente ao setor, Paula Elisabete Rodrigues é professora titular da cadeira de Eletrofisiologia e Pacing na Escola Superior de Saúde Dr. Lopes Dias de Castelo Branco. É ainda professora das aulas práticas da mesma cadeira na Escola Superior de Tecnologia da Saúde de Coimbra.




A reportagem completa pode ser lida na edição de março do Hospital Público.

Distribuído, de forma transversal, em cada unidade hospitalar do SNS, o jornal Hospital Público promove a partilha de boas práticas, processos de melhoria contínua, projetos inovadores e iniciativas implementadas por profissionais dos hospitais públicos. 

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