A USF Berço abre as portas aos médicos do Hospital de Guimarães para ali realizarem consultas
Uma equipa completa, estável e predominantemente feminina, com apenas um elemento do sexo masculino, em que 7 médicas, 7 enfermeiras e 5 secretários clínicos servem uma população de praticamente 12.000 utentes. Eis a Unidade de Saúde Familiar Berço, coordenada pela médica de família Joana Nuno e cujos profissionais transitaram todos da UCSP Amorosa, que se mantém no mesmo imóvel de dois andares ainda hoje conhecido em Guimarães como o “Edifício da Amorosa”.
Fazer nascer esta USF não foi tarefa fácil, mas valeu a persistência daquela que é a sua médica com mais idade e que não pensa em deixar de trabalhar enquanto considerar que pode ser útil. De sublinhar que a estratégia de aproximar os dois níveis de cuidados abrange todas as unidades de CSP da ULS do Alto Ave, sendo o abrir de portas da USF Berço aos especialistas hospitalares apenas um exemplo do que se passa na área de influência daquela Unidade Local de Saúde.
Uma vez feito o exame final do internato médico, em março de 2020, Joana Nuno ainda esteve uns meses na USF Gualtar, em Braga, antes de começar a trabalhar em Guimarães, em outubro desse ano, para integrar a Unidade de Cuidados de Saúde Partilhados Amorosa, tendo ficado com a lista de uma médica que se aposentara. “Uma lista antiga, já muito bem trabalhada”, sublinha.
Consciente de que teria que conquistar a confiança de utentes há tanto tempo acompanhados pela mesma médica, Joana Nuno, então com apenas 30 anos acabados de fazer, sabia que tinha de fazer uso de três armas para si essenciais: a competência, a empatia e a humanidade.
Recorda que a sua lista de utentes “era mesmo muito envelhecida, com natural complexidade em termos de morbilidade, multipatologia e necessidade de ajuste frequente da terapêutica”. Mas o tempo passou e agora… “já os conheço bastante bem, a eles e às famílias, o que torna muito mais fácil definir a intervenção adequada a cada situação”..jpg)
Joana Nuno
Passados 6 anos, e como se compreenderá, os utentes de Joana Nuno continuaram a envelhecer. Daí que a uma lista mais pequena do que o habitual (1560 pessoas) acabem por corresponder muitas unidades ponderadas e também a necessidade de se fazerem mais domicílios. Deve dizer-se que foi apenas à terceira tentativa que o processo de criação da USF Berço teve um final feliz, com a apresentação da candidatura no início de setembro de 2024, umas duas semanas antes de aquela que viria a ser a coordenadora da Unidade regressar da sua licença de maternidade.
Joana Nuno lembra que estava fisicamente ausente da UCSP quando lhe ligaram a perguntar se “alinhava” no projeto e lhe disseram quem formava a equipa. E nem sequer viria a estar presente na reunião em que foi eleita coordenadora.
“Houve pessoas que votaram em mim sem me conhecerem e, por isso, a primeira coisa que fiz quando regressei ao trabalho foi, naturalmente, agradecer o voto de confiança que me tinham dado para desempenhar uma tarefa que é tão desafiante. Mas senti que estava aqui um grupo muito coeso e com vontade de trabalhar em função dos nossos utentes”, afirma.
Note-se que todos os médicos, enfermeiros e secretários clínicos da USF Berço transitaram da UCSP Amorosa, incluindo Fátima Albuquerque, que a coordenava, embora três das médicas de família fossem aquisições recentes, tendo iniciado funções quando Joana Nuno não estava presente.
A equipa da UCSP, incluindo os dois médicos que se mantiveram nessa estrutura, mudou-se entretanto para o piso inferior do edifício quando a USF Berço iniciou atividade.
Segundo a coordenadora, as instalações são adequadas às necessidades da Unidade, apesar de no mesmo edifício funcionarem, para além de duas valências da URAP - Unidade de Recursos Assistenciais Partilhados (Podologia e Medicina Dentária), a USF Amorosa XXI, com início de atividade em outubro de 2014, e a USF São Nicolau, criada em julho de 2008, cada uma delas com uma estrutura de profissionais ligeiramente superior à da USF Berço.
“Ganhei um gosto muito especial em lidar com idosos”
Joana Nuno reconhece que a escolha da MGF teve muito que ver com a “transversalidade” desta especialidade, ou seja, “a possibilidade de ver igualmente grávidas e crianças e de poder acompanhar as pessoas ao longo da vida”. No entanto, devido à particularidade da sua lista de utentes, acabou por “ganhar um gosto muito especial em lidar com idosos”, que, no seu entender, “constituem um desafio diário”.
E mais: “Fiz algumas formações na área da Geriatria e, hoje em dia, sinto-me bastante mais interessada no seguimento da população mais velha! Para além de reconhecer que estes utentes nos dão um feedback indescritível, porque ficam muito agradecidos quando veem que a nossa intervenção lhes fez bem.”
O tempo disponível para consulta é que parece nunca ser suficiente, lamenta a médica: “Atraso-me sempre, sempre! É um problema crónico! O que tento fazer é ter algumas consultas um pouco mais longas, de meia hora, destinadas precisamente aos idosos mais frágeis, mas, mesmo assim, atraso-me!”
Descentralização de Consultas Hospitalares
Relativamente ao projeto denominado “Descentralização de Consultas Hospitalares para os CSP”, implementado pela ULS do Alto Ave e que no caso da USF Berço estão envolvidas as especialidades de Urologia e de Pediatria, a coordenadora aplaude a iniciativa. Desde logo por, ao realizarem-se consultas hospitalares fisicamente em unidades de CSP, “tal promove a proximidade entre os profissionais dos dois níveis de cuidados“.
Quando esta reportagem foi realizada, o urologista José Preza Fernandes atendia os doentes que estavam agendados para esse dia num gabinete da USF Berço e não no Hospital Senhora da Oliveira. Joana Nuno aproveitou para o interpelar pessoalmente e, “em 5 minutos, tirar uma dúvida relacionada com um utente que até já era seguido na Urologia e conseguir assim orientá-lo rapidamente”.
Joana Nuno e José Preza Fernandes
Deve acrescentar-se que, na sequência deste projeto, surgiu posteriormente um outro – intitulado “Equipas Multidisciplinares de Integração de Cuidados” – que visa exatamente a discussão de casos em que, explica a coordenadora, “achamos que não se justifica a referenciação para o hospital, mas, contudo, ficamos na dúvida sobre qual a melhor forma de abordar o problema”.
“Há uma calendarização já estabelecida até ao final do ano, envolvendo as especialidades de Medicina Interna, Cirurgia, Ortopedia, Ginecologia/ Obstetrícia, Pediatria e Medicina Física e de Reabilitação, com dias definidos para deslocação à nossa Unidade de um colega de cada uma dessas áreas. O que não quer dizer que, tendo nós já um certo número de casos de uma determinada especialidade que gostaríamos de discutir, não se agende uma reunião fora do plano existente”, esclarece a médica.
A reportagem completa pode ser lida na edição de maio do Jornal Médico.


