A intervenção precoce na psicose «não pode depender apenas do entusiasmo de alguns profissionais»

No entender do psiquiatra Miguel Bajouco, para agir de forma atempada quando ocorre, por exemplo, um primeiro episódio psicótico, “é necessário que essa intervenção possa ser progressivamente integrada, com uma resposta estruturada, acessível e sustentável no SNS”.


Miguel Bajouco

Miguel Bajouco dirigia-se aos participantes no 11.º Encontro Nacional de Intervenção Precoce na Psicose, organizado pela Secção a que preside e que integra a Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental (SPPSM), de cuja Direção, aliás, aquele psiquiatra da ULS de Coimbra também faz parte. A seu lado, na sessão de abertura, encontrava-se Miguel Xavier, que lidera a Coordenação Nacional das Políticas de Saúde Mental, e Vítor Marques, presidente da Câmara Municipal das Caldas da Rainha, cidade em cujo Centro Cultural e de Congressos se realizou o evento.


Miguel Xavier, Miguel Bajouco e Vítor Marques

O facto de a Secção de Intervenção Precoce na Psicose (SIPP), que celebra em 2026 o 10.º aniversário da sua criação, ser uma das maiores e mais dinâmicas da SPPSM “reflete a relevância crescente desta área no panorama da Psiquiatria e Saúde Mental em Portugal”, afirmou Miguel Bajouco. E não deixou de sublinhar que a escolha do local para a realização do Encontro “simboliza a importância de descentralizar a discussão científica e de aproximar a Saúde Mental dos territórios, das comunidades e das pessoas”.

“A intervenção precoce na psicose parte de uma ideia simples, mas profundamente transformadora, pois, o momento em que intervimos pode mudar trajetórias”, frisou, justificando:

“O primeiro episódio psicótico não é apenas uma crise clínica, é muitas vezes um momento de ruptura numa fase decisiva da vida académica, profissional, familiar, relacional e identitária de uma pessoa. É um período de grande vulnerabilidade, mas também de enorme oportunidade terapêutica.”



Daí que intervir cedo signifique reduzir sofrimento, prevenir recaídas, envolver famílias, proteger percursos escolares e profissionais, evitar o isolamento e promover a recuperação funcional, enumerou, deixando claro um aspeto: “Mais do que tratar sintomas, trata-se de preservar as possibilidades de um futuro!”

É por isso que, para Miguel Bajouco, a intervenção precoce “exige uma abordagem abrangente, acesso rápido aos cuidados, avaliação clínica cuidadosa, tratamento individualizado, psicoeducação, apoio psicológico, envolvimento familiar, reabilitação psicossocial e articulação com os recursos comunitários”.


Presidentes da Secção: Miguel Bajouco (2026-2028), Joaquim Gago (2023-2025) e Pedro Lévy (2017-2019). Ausente na foto: Nuno Madeira (2020-2022)

Inquérito pretende identificar e caracterizar as equipas de intervenção precoce na psicose

O psiquiatra considera que, relativamente à intervenção precoce na psicose, em Portugal, “temos boas experiências locais, equipas motivadas e profissionais altamente empenhados”. No entanto, logo destaca as desigualdades regionais, os recursos limitados, a ausência de equipas dedicadas em muitos contextos e a dificuldade em garantir uma cobertura nacional homogénea. E um desafio muito particular: “É preciso evitar que a intervenção precoce dependa apenas do entusiasmo de alguns profissionais e equipas.”

Mas Miguel Bajouco disse ver como algo bastante positivo o reforço das equipas comunitárias de saúde mental. E explicou porquê: “Abre espaço para pensar a intervenção precoce como aquilo que ela deve ser, uma resposta essencialmente ambulatória, comunitária, próxima das pessoas e articulada, envolvendo os serviços hospitalares, os CSP, as escolas, as famílias, as autarquias e os recursos locais”.



Referindo não se dever defender necessariamente um modelo único de intervenção, “rígido ou desligado da realidade de cada serviço”, valorizou a garantia de continuidade, a questão da integração de cuidados e a acessibilidade, “respeitando os recursos disponíveis e a orientação de cada contexto assistencial”.

E adiantou que a Secção da SPPSM a que preside quer reforçar a formação, promover recomendações, estimular a investigação colaborativa, aproximar as equipas existentes e contribuir para “uma rede nacional mais forte”. É nesse âmbito que em breve será enviado um questionário a todos os serviços de Psiquiatria com o objetivo de identificar e caracterizar as equipas de intervenção precoce na psicose atualmente existentes, bem como conhecer melhor as suas necessidades, dificuldades e prioridades. Aliás, esse levantamento servirá de base ao 2.º Fórum das Equipas de IPP, programado para a primeira semana de novembro.


Mas Miguel Bajouco não terminaria a sua intervenção sem manifestar a vontade de promover a aproximação aos utentes e suas famílias, até porque “nenhuma resposta em saúde mental pode ser verdadeiramente completa se não escutar aqueles que vivem a experiência da doença, da recuperação e do cuidado”.

“Investir cedo é mais humano, mais eficaz e provavelmente mais sustentável. É responder quando a pessoa e a família mais precisam. É reduzir sofrimento. É promover recuperação. É abrir possibilidades no momento em que tudo parece ameaçado”, afirmou.


Órgãos Sociais da SIPP-SPPSM 2026-2028 – (à frente) Direção: Miguel Bajouco, presid., Celeste Silveira, vice-presid., Patrícia Frade, secret.; (atrás) Mesa da AG: Daniel Esteves de Sousa, secret., Ana Marques, presid.

Miguel Xavier: diferenciar as equipas comunitárias de SM e apostar nos CRI

Ao usar da palavra, o responsável pela Coordenação Nacional das Políticas de Saúde Mental, órgão estratégico do Ministério da Saúde, sublinhou o “esforço enorme” que tem estado a ser feito com vista à “formação e solidificação” de equipas comunitárias de saúde mental. Sendo certo que, enquanto as que foram constituídas ao abrigo do Plano de Recuperação e Resiliência, “com 7 a 8 elementos, o que não é brilhante, mas é suficiente para começarem a dar passos seguros”, já havia equipas a funcionar, embora nalguns casos estejam incompletas, havendo mesmo as que “enfrentam muitas dificuldades”.


Miguel Xavier afirmou que, “daqui para a frente, aquilo que é crucial é a diferenciação, o que não tem que ver com a implementação de um programa rígido, mas sim com as necessidades da população e também com os critérios de gosto dos próprios profissionais, não podendo haver contradição entre os dois, embora possa haver alguma flexibilidade”.


Miguel Xavier

Aquele responsável referiu-se também ao projeto-piloto que envolveu a criação de Centros de Responsabilidade Integrados de Saúde Mental (CRI-SM) em serviços de Psiquiatria de adultos em 15 ULS, que entretanto terminou e cujo relatório final estará concluído em breve.

Miguel Xavier deixou clara a posição relativamente aos CRI-SM, desde logo considerando ser “impensável voltar atrás” no que se refere à dezena e meia de serviços incluídos no projeto. Para além disso, a sua vontade é alargar este modelo de gestão a outras ULS, embora, como ressalva, tal dependa da vontade de cada Conselho de Administração. Por outro lado, defende que a implementação dos CRI abranja igualmente a Psiquiatria da Infância e da Adolescência.

Imprimir


Próximos eventos

Ver Agenda