2026 é ano de aposentação para as duas médicas que foram coordenadoras da USF Coimbra Sul
Com início de atividade a 20 de outubro de 2014 e passagem a modelo B concretizada em dezembro de 2019, a USF Coimbra Sul teve na sua origem um conjunto de profissionais do Centro de Saúde de Santa Clara, mais concretamente da UCSP que ali continuou a funcionar após a criação, dois anos antes, da USF Rainha Santa Isabel, tendo as duas sede no mesmo edifício.
A médica de família Conceição Nunes Vicente foi a sua 1.ª coordenadora, tendo-lhe sucedido nessa tarefa a colega Isabel Carvalho, que mantém a sua base de atividade em Marco dos Pereiros, que acolhe aquela que é a única extensão da USF Coimbra Sul. Ali passam a maior parte do seu tempo duas das seis microequipas (médico + enfermeiro) e um dos quatro elementos do Secretariado Clínico. Integram também esta Unidade da ULS de Coimbra a médica Liliane Carvalho e as enfermeiras Milena Alexandre, Ana Moura e Ana Antunes.

Isabel Carvalho, que coordena a USF Coimbra Sul há uma década, afirma que com a extensão do horário de funcionamento estabelecido para o polo de Marco dos Pereiros, se consegue “um muito melhor aproveitamento dos recursos humanos, sem que o atendimento prestado à nossa população seja prejudicado, antes pelo contrário”.
Aliás, a flexibilidade e o cuidado que existem no atendimento dos casos agudos, isto é, dos utentes que necessitam de recorrer à Consulta Aberta, são notórios. Isto apesar da recomendação oficial para que qualquer utente nessa situação contacte prioritariamente o SNS 24.
“É evidente que fomos obrigados a criar tempos de consulta para o próprio SNS 24 poder agendar diretamente para a Unidade, mas procuramos, sempre que possível, facilitar a vida aos nossos utentes, contactando pelo telefone os do polo de Marco de Pereiros, até tendo em consideração o facto de encerrarmos ao final da manhã”, refere a coordenadora.
Isabel Carvalho
A USF Coimbra Sul serve uma população manifestamente urbana e outra suburbana e com características mais rurais. “As patologias acabam por ser transversais, mas o nível de vida é melhor aqui do que na cidade, tanto que é em Santa Clara que temos os casos sociais graves, seja de abandono e isolamento de idosos como de toxicodependência, por exemplo”, indica a coordenadora, prosseguindo:
“Nesta zona de Marco dos Pereiros e arredores, por outro lado, há centros de dia que entregam a alimentação em casa e fazem a higiene dos idosos e depois estes também têm mais facilmente o apoio de familiares e vizinhos. Ao mesmo tempo, há cada vez mais gente que trabalha na cidade, mas optou por vir residir para estes lados, nomeadamente, comprando um terreno e construindo uma casa.”
“Eu gosto mesmo é da consulta, de conversar com o utente, sobretudo de o ouvir”
“Eu nunca me senti atraída pelo ambiente hospitalar”, reconhece Conceição Nunes Vicente, 69 anos de idade celebrados a 18 de outubro último, assegurando que jamais se imaginou a exercer como médica num hospital. De qualquer forma, se dúvidas tivesse relativamente ao seu futuro percurso profissional elas seriam afastadas depois da “experiência muito boa” que teve a oportunidade de viver quando foi cumprir o denominado serviço médico na periferia.
“Estive um ano em Santa Comba Dão, numa ligação muito direta com as pessoas daquele meio rural, naquela que foi a fase inicial do SNS, quando os medicamentos e os meios de diagnóstico eram bastante mais restritos do que são hoje. Aprendi imenso! Ainda recentemente disse às nossas internas que não eram raras as vezes em que acontecia irmos para casa estudar e no dia seguinte voltávamos a chamar o doente!”, conta.
Conceição Nunes Vicente
A médica recorda que foi há um pouco mais de quatro décadas que chegou ao CS de Santa Clara, estava este então instalado “num edifício muito mau, um prédio de habitação, com escadas até ao 3.º piso, que eu até me pergunto hoje como é que as mães com os seus bebés, as grávidas e os idosos subiam aqueles andares...”
“Mas fazia-se tudo! Era uma medicina diferente porque nós tínhamos apoio de especialistas de várias áreas que tinham contrato com o SNS: pediatras, cirurgiões, cardiologistas... Que iam realizar lá as consultas e, por isso, os hospitais não enchiam tanto como hoje”, sublinha. 
Elementos do polo de Santa Clara
Conceição Nunes Vicente esteve diretamente empenhada na criação da USF Coimbra Sul e diz que “até foi mais ou menos fácil formar a equipa, embora tivéssemos tido um pouco de dificuldade relativamente ao pessoal administrativo. Mas depois foi tranquilo e tem sido um projeto muito positivo”. Tendo assumido a coordenação
da Unidade no início, a médica acabou por ficar nessa função apenas cerca de um ano. E explica porquê:
“Cheguei à conclusão de que não tinha perfil para desempenhar uma tarefa que exige ‘pulso duro’ e que tem uma componente de burocracia muito grande. Devo dizer, a esse respeito, que a Dr.ª Isabel Carvalho tem feito um trabalho espetacular. Por outro lado, eu gosto mesmo é da consulta, de conversar com o utente, sobretudo de o ouvir.”

Elementos do polo de Marco dos Pereiros com a diretora clínica da área dos CSP da ULS de Coimbra
«Havia a necessidade de delinear um projeto de verdadeira integração de cuidados»
Dois anos depois da extinção, a nível nacional, dos Agrupamentos de Centros de Saúde (ACES) e da implementação generalizada do modelo Unidade Local de Saúde, a diretora clínica para a Área dos Cuidados de Saúde Primários da então criada ULS de Coimbra lembra que “a mudança nas organizações é sempre um processo que causa alguma sensação de incerteza e de receio relativamente ao futuro”.
Em declarações à Just News, no âmbito da reportagem realizada na USF Coimbra Sul, Almerinda Rodrigues reconhece que na adaptação à nova realidade “houve dificuldades que impactaram negativamente naquilo que deve ser a missão desta Direção Clínica”. E justifica:
“No início, havia a necessidade de delinear um projeto de verdadeira integração de cuidados mas era igualmente indispensável lidar com as carências e as dificuldades do dia-a-dia, como gerir a falta de médicos e os pedidos de mobilidade, ou, por exemplo, garantir o pagamento dos vencimentos de forma adequada aos profissionais das USF, um processo completamente desconhecido para o Serviço de Recursos Humanos, que conseguiu concluí-lo em tempo recorde.”
Almerinda Rodrigues
“Começámos pelo diagnóstico da situação, percebendo qual a realidade da nossa população e as prioridades em saúde. Entretanto, definimos seis Comunidades de Saúde, constituindo-se cada uma como um conjunto de concelhos próximos, com características geodemográficas semelhantes. Esta divisão permite uma governação de proximidade, com a existência de um Conselho Clínico em cada uma delas”, explica a responsável, acrescentando:
“Tencionamos concluir este processo, que ainda não está fechado. Estamos neste momento em condições de mobilizar os colegas médicos de família para colaborarem connosco nesta área de gestão.”
De qualquer forma, “ultrapassadas as dificuldades iniciais, de ordem logística, e implementados os projetos”, Almerinda Rodrigues diz que “este é o momento da consolidação do trabalho realizado e de dar início a outros projetos, nomeadamente em diversas vertentes clínicas, assente num sólido trabalho de equipa e numa fase de maior confiança no modelo ULS por parte dos profissionais e da população que servimos”.
A reportagem completa pode ser lida na edição de janeiro de 2026 do Jornal Médico.


