«É preciso generalizar a intervenção precoce no 1.º episódio psicótico»

Embora já haja, no nosso país, alguns serviços de Psiquiatria que dispõem de uma consulta específica para lidar com os casos de primeiro episódio psicótico, agregando profissionais de várias áreas, Miguel Bajouco diz ser necessário generalizar este tipo de resposta. E adianta que estimular que isso aconteça é precisamente o grande objetivo da Secção Especializada de Intervenção Precoce na Psicose, grupo que integra a Sociedade Portuguesa de Psiquiatra e Saúde Mental (SPPSM).


Reconhecendo que depende também da vontade dos próprios serviços e das instituições hospitalares em que estão inseridos a formação dessas equipas multidisciplinares, o psiquiatra esclarece que a Secção a que preside desde o início do ano tem procurado, nomeadamente, através do seu Encontro Nacional, “estimular os colegas em formação e os recém-especialistas para esta realidade”.

E acrescenta: “São muitas vezes eles que, altamente motivados, acabam por ser o motor da implementação deste modelo de intervenção.”

“Sabe-se que quando uma pessoa sofre um primeiro episódio psicótico entra num chamado ‘período crítico’, que compreende os 2 a 5 anos iniciais, fruto de observações que demonstram que a deterioração clínica e funcional ocorre sobretudo no período próximo e anterior ao aparecimento dos primeiros sintomas psicóticos (o chamado pródromo psicótico) e no período imediatamente a seguir. Neste sentido, existe uma janela de oportunidade para se obterem melhores resultados com a nossa intervenção do que se atuarmos mais tardiamente”, explica Miguel Bajouco, 45 anos, professor e investigador na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra e coordenador da Unidade de Psicose do Centro de Responsabilidade Integrado de Psiquiatria e Saúde Mental da ULS de Coimbra.

“As perturbações psicóticas ocorrem frequentemente numa fase muito crítica do próprio desenvolvimento da pessoa, entre o fim da adolescência e o início da vida adulta. É a altura em que estabelece relações afetivas mais duradouras, está a estudar, a começar a trabalhar... Perante um episódio psicótico, torna-se prioritário reduzir ao máximo o tempo em que os sintomas estão presentes e depois conseguir prevenir um novo episódio”, explica.

Sendo esta intervenção efetuada em ambulatório, o especialista considera que, “estando nós numa fase de implementação mais marcada das equipas comunitárias de saúde mental, será também de aproveitar a oportunidade para atuar igualmente neste âmbito”.

No seu entender, “é indiferente a opção pelo modelo hospitalocêntrico, que é o mais prevalente em Portugal, ou pelo de índole comunitária, mais difundido a nível internacional. Importa é que esteja de acordo com os recursos disponíveis e o tipo de funcionamento de cada Serviço de Psiquiatria”.


“São muitas vezes os colegas em formação e os recém-especialistas o motor da implementação deste modelo de intervenção”, observa Miguel Bajouco

“As perturbações psicóticas, como a esquizofrenia, integram o grupo das doenças mentais consideradas mais graves e são uma das principais causas de incapacidade devido a doença. Têm um enorme impacto para o doente e para os que o rodeiam, mas também, de forma indireta, para a própria sociedade, pois aquele deixa de estudar ou de trabalhar, para além do custo acrescido para o sistema de saúde, por obrigar a intervenções mais específicas”, sublinha Miguel Bajouco, prosseguindo:

“Há desde logo todo um trabalho que tem de ser feito no sentido de identificar o mais precocemente estas situações e tratar os sintomas de modo a conseguir que a pessoa entre em remissão, porque a persistência dos mesmos acarreta danos, uma vez que isso significa que o cérebro está num estado em que começa a sofrer deterioração. Pretende-se também devolver a esperança a essa pessoa, estabelecendo um projeto de vida adequado àquela que é a sua realidade após o episódio.”


Entretanto, para além de procurar fomentar a intervenção precoce na psicose, a Secção da SPPSM presidida pelo psiquiatra de Coimbra quer contribuir para que “as equipas que a ela se dedicam e já estão no terreno a funcionar sejam o mais fiéis possível ao modelo que está estabelecido pela evidência científica”.



11.º Encontro Nacional nas Caldas da Rainha

Vai decorrer a 21 e 22 de maio, no Centro de Congressos das Caldas da Rainha, o 11.º Encontro Nacional de Intervenção Precoce na Psicose. A manhã do primeiro dia é preenchida com dois workshops, um dos quais se debruça sobre a forma como os profissionais podem ajudar as famílias a lidar com as fases iniciais da psicose.

O segundo, intitulado “Princípios e organização de um programa de intervenção precoce na psicose”, visa a partilha de procedimentos por parte de quem já tem uma implementação mais firme no terreno, no sentido de promover uma uniformização de atuação entre as várias equipas.

Ainda no primeiro dia, de destacar a sessão para discussão de casos clínicos classificados de “desafiantes/complexos”, um momento formativo que foi estreado no Encontro do ano passado.

“Psicopatologia nas fases iniciais da psicose” e “Patologia dual: desafios na intervenção precoce na psicose” são os temas das mesas-redondas que dominam a manhã do segundo dia.

“A intervenção precoce na psicose na era digital: recursos, desafios e oportunidades” será outra temática abordada. Finalmente, vai acontecer um debate intitulado “Caminhos precoces, futuros possíveis: o desafio da deteção precoce na psicose”.


A notícia completa pode ser lida na edição de abril do Jornal Médico.

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