Opinião
«Um diálogo de coconstrução entre o Social e a Saúde»
Docentes e Alunos da Pós-Graduação em Serviço Social na Saúde (IPPS-Iscte)
A crescente complexidade dos problemas de saúde com que hoje nos confrontamos já não permite respostas centradas exclusivamente na dimensão clínica. Esta foi uma das mensagens centrais do seminário “Serviço Social na Saúde: Um Diálogo de Co-construção entre o Social e a Saúde”, realizado no dia 3 de junho, promovido pelo IPPS-Iscte, no âmbito da Pós-Graduação em Serviço Social na Saúde.
Mais do que um encontro académico, tratou-se de um espaço de reflexão crítica sobre um desafio urgente: ultrapassar a fragmentação entre setores e construir modelos de intervenção verdadeiramente integrados. Importa ainda destacar que este seminário refletiu uma prática pedagógica consolidada desta pós-graduação, onde os estudantes assumem um papel ativo na comissão organizadora, na construção dos conteúdos e na dinamização das mesas, constituindo uma componente fundamental para o desenvolvimento de competências técnicas, críticas e de participação profissional.
Num contexto marcado pelo envelhecimento demográfico, pelo aumento da doença crónica e pela ampliação das desigualdades sociais, torna-se evidente que a saúde não pode ser entendida apenas como ausência de doença. Os percursos de saúde e doença são profundamente influenciados por determinantes sociais, como o rendimento, a habitação, as redes de suporte ou o acesso a serviços, que condicionam a capacidade de resposta dos indivíduos e das famílias. Ignorar esta realidade é perpetuar soluções incompletas.
A intervenção do Enfermeiro Hugo Mendonça foi particularmente esclarecedora ao evidenciar que a gestão da doença crónica exige uma abordagem integrada entre cuidados de saúde, território e respostas sociais. Num país com um envelhecimento particularmente acentuado, onde muitas pessoas vivem com multimorbilidade, os percursos continuam frequentemente marcados pela fragmentação e pela falta de articulação entre serviços.
A resposta a esta realidade não passa por mais consultas ou mais exames. Passa por transformar o modelo, reorganizando os cuidados em torno das necessidades das pessoas, das famílias e das comunidades, com equipas articuladas, novas competências profissionais, coordenação efetiva e integração real entre saúde e social. Como ficou claro, o problema não reside nas pessoas, mas na forma como o sistema está organizado.
Um dos sinais mais evidentes desta transformação é a crescente centralidade do domicílio como espaço de cuidado. A casa deixou de ser apenas o local de recuperação para passar a ser, cada vez mais, o lugar onde o cuidado acontece. Contudo, esta mudança traz desafios significativos: garantir condições sociais, familiares e institucionais adequadas e assegurar que a alta clínica corresponde, de facto, a uma alta segura.
Na mesa-redonda dedicada aos cuidados no domicílio, moderada pelo Professor Jorge Ferreira, foi possível aprofundar os desafios e potencialidades da integração de cuidados em contexto de proximidade. A partir de diferentes perspetivas, ficou evidente que o domicílio se afirma como um espaço central de cuidado, exigindo respostas articuladas, flexíveis e sustentadas em rede.
Inês Espírito Santo destacou a problemática dos internamentos sociais e dos internamentos inapropriados, evidenciando as dificuldades persistentes entre a alta clínica e a inexistência ou inadequação de respostas sociais.
Esta realidade traduz-se frequentemente no protelamento de altas, expondo fragilidades estruturais do sistema: quando as respostas sociais são insuficientes ou desajustadas, os hospitais transformam-se em espaços de permanência indevida, comprometendo a qualidade dos cuidados e pressionando o sistema. Este bloqueio tem consequências diretas no tempo de oportunidade e no acesso aos cuidados de saúde, limitando a disponibilidade de camas para quem aguarda procedimentos ou cirurgias durante meses e agravando a permanência de doentes nos serviços de urgência, à espera de internamento. Trata-se, assim, de um problema estrutural que exige políticas públicas articuladas e investimento consistente em respostas comunitárias.
Neste contexto, Cláudia Garcia sublinhou o papel fundamental das IPSS na prestação de cuidados no domicílio e no apoio às famílias, assumindo-se como parceiros essenciais na continuidade de cuidados, ainda que frequentemente confrontadas com limitações ao nível de recursos humanos, financiamento e capacidade de resposta, o que condiciona a sua atuação face à crescente complexidade das necessidades.
A intervenção de Marta Mendes e Catarina Correia evidenciou a experiência das Equipas de Cuidados Continuados Integrados, demonstrando a mais-valia do trabalho interdisciplinar na promoção de respostas articuladas e centradas na pessoa. É neste trabalho em rede, envolvendo profissionais de saúde, assistentes sociais e estruturas comunitárias, que se constrói a verdadeira continuidade de cuidados.
A dimensão comunitária foi reforçada por Maria João Xavier, ao destacar a importância da proximidade e da comunitarização do cuidado, sublinhando a necessidade de respostas que valorizem as redes locais e garantam acompanhamento contínuo no domicílio. Este trabalho revela-se essencial para promover vínculos de confiança, assegurar maior continuidade de cuidados e responder de forma mais ajustada às necessidades reais das pessoas, sobretudo em contextos de maior vulnerabilidade. 
Inês Espírito Santo & Jorge Ferreira, docentes e diretores da Pós-Graduação em Serviço Social na Saúde (IPPS-Iscte) e estudantes da Pós-Graduação em Serviço Social na Saúde (Joana Pereira;Filipa Froes; Emilia Antunes; Sara Correia; Inês Conceição;Carina Coelho; Margarida Teixeira; Tânia Fernandes; Catarina Fazenda; Ana Rita Ruel)
É na proximidade e na articulação com a comunidade que se constroem respostas mais sustentáveis, humanas e eficazes. Neste contexto, Pedro Vaz de Carvalho apresentou o projeto-piloto SAD + Saúde como um exemplo de inovação na articulação entre o Serviço de Apoio Domiciliário e os cuidados de saúde, evidenciando caminhos possíveis para respostas mais integradas e ajustadas às necessidades da população.
Mas esta centralidade da pessoa exige um passo adicional, muitas vezes negligenciado: ouvir o cidadão. A sua experiência, o seu conhecimento, as suas expectativas e os seus recursos devem ser considerados como elementos estruturantes da intervenção. Só assim é possível construir planos de cuidados personalizados, ajustados e sustentáveis. Cuidar não é apenas decidir por; é decidir com.
Importa ainda reconhecer, como sublinhou Estêvão Pape, Presidente da Sociedade Portuguesa de Diabetologia, que a doença crónica tem impactos que extravasam largamente a dimensão biomédica, afetando de forma significativa a autonomia, os projetos de vida e as dinâmicas familiares. Esta realidade exige respostas que integrem dimensões sociais, psicológicas e comunitárias, numa abordagem verdadeiramente centrada na pessoa.
A discussão na mesa-redonda “Para Lá do Clínico: pensar em conjunto para modelar o futuro”, moderada por Sara Correia e comentada por Joana Pereira, estudantes da Pós-Graduação em Serviço Social na Saúde,
trouxe contributos fundamentais para compreender os desafios atuais da integração em saúde. Patrícia Pinto destacou o peso determinante dos fatores sociais na saúde, evidenciando de forma clara como estes moldam significativamente os resultados em saúde e as trajetórias de vida das pessoas.
Sublinhou, por isso, não só a importância da avaliação rigorosa e da identificação atempada dos riscos sociais como ponto de partida para a intervenção, mas também a urgência de ultrapassar uma lógica meramente diagnóstica, centrada nessa identificação, para avançar para uma ação efetiva, integrada e intencional, capaz de responder às desigualdades existentes e transformar condições de vulnerabilidade em oportunidades de intervenção estruturada e sustentada.
Júlia Cardoso trouxe para o debate a prescrição social enquanto conceito em construção, sublinhando a importância de clarificar papéis, responsabilidades e áreas de atuação. Neste âmbito, destacou-se que aquilo que hoje é frequentemente designado como “prescrição social” se aproxima, na prática, do que o Serviço Social tradicionalmente desenvolve — avaliação, orientação, mediação e acompanhamento social, assente num processo participativo, centrado na pessoa e na sua autodeterminação.
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Neste sentido, a questão central desloca-se de “quem prescreve?” para a reflexão sobre a utilização de uma linguagem de prescrição para descrever um processo que, por natureza, deve ser co-construído com o cidadão. O modelo não é novo no Serviço Social, mas a designação levanta desafios conceptuais, uma vez que o assistente social não prescreve: avalia, informa, aconselha e apoia na tomada de decisão, respeitando sempre a participação ativa da pessoa no seu percurso.
Cátia Sousa evidenciou, por sua vez, o papel central dos cuidados de saúde primários, enquanto espaço privilegiado de proximidade, prevenção e acompanhamento, particularmente na gestão da doença crónica e de situações de elevada complexidade. A moderação e comentário assegurados pelas estudantes reforçaram a dimensão participativa e formativa deste encontro, evidenciando o contributo ativo dos futuros profissionais na reflexão crítica sobre os desafios da saúde.
Neste enquadramento, torna-se evidente que a integração não significa diluição de funções, mas sim articulação estratégica entre diferentes saberes. Para isso, é fundamental reconhecer o Serviço Social como um pilar indispensável no sistema de saúde, particularmente na identificação de riscos sociais, na mobilização de recursos e na coordenação de respostas em contextos complexos.
Importa, contudo, esclarecer que as competências do assistente social passam por identificar, diagnosticar, avaliar e propor respostas, sempre em estreita sintonia com o cidadão. Ao contrário do que por vezes é sugerido no debate em torno da prescrição social, o Serviço Social não prescreve. A sua ação centra-se na orientação, na adaptação das respostas e no acompanhamento contínuo, promovendo a capacitação e a participação ativa do cidadão, um foco que há muito estrutura e distingue a prática da profissão.
O seminário do IPPS-Iscte veio reforçar uma ideia que não pode continuar a ser adiada: sem integração, não há sustentabilidade. E sem ouvir verdadeiramente as pessoas, não há cuidado de qualidade. Mais do que articular respostas, importa construir em conjunto — entre profissionais, setores e cidadãos — soluções que reflitam a complexidade real das necessidades em saúde.
Num momento em que se discutem reformas estruturais no sistema de saúde, talvez a pergunta mais relevante não seja “como tratamos melhor?”, mas sim “como cuidamos melhor?”. A resposta passa, inevitavelmente, por afirmar a coconstrução como princípio orientador, reconhecendo que é no diálogo contínuo entre o clínico, o social e a voz do cidadão que se constrói uma saúde mais justa, mais eficaz e mais humana.


