Opinião

Fratura do fémur no idoso requer «abordagem multidisciplinar para a reabilitação funcional imediata»


Rafaela Veríssimo

Internista, Unidade de Ortogeriatria do CH Vila Nova de Gaia/Espinho. Membro do Secretariado do NEGERMI - Núcleo de Estudos de Geriatria da Sociedade Portuguesa da Medicina Interna.



Com o aumento da esperança média de vida, a fratura do fémur proximal adquire um significante impacto epidemiológico.

As fraturas da extremidade proximal do fémur predominam no idoso, com incidência acima dos 85 anos, sendo ocasionadas por traumatismos mínimos ou moderados de quedas espontâneas da própria altura, derivadas da funcionalidade diminuída ou consequência da osteoporose e da perda de massa óssea associada ao envelhecimento.

É mais comum em mulheres do que em homens (3:1), provavelmente como resultado de vários fatores, como as mulheres terem a pélvis mais larga, serem menos ativas, sofrerem precocemente de osteoporose e viverem mais tempo que os homens.

São responsáveis por mais de 70% de todas as cirurgias por fraturas em idosos e correspondem à 4.ª causa de morte mais comum entre idosos. Aos 90 anos, 32% das mulheres e 17% dos homens terão sofrido este tipo de fratura. O principal objetivo do tratamento é o rápido retorno do idoso ao seu nível de funcionalidade anterior, embora nem sempre o indivíduo recupere o mesmo grau de capacidade funcional.

A fratura do fémur não é apenas uma tragédia para quem a sofre, mas também para a família ou as pessoas que rodeiam o idoso, pois, muitas vezes uma pessoa independente passa de um momento para o outro a ser passiva e dependente de outras pessoas. Por isso, embora a idade seja um factor clínico importante, não é tão determinante como o grau funcional de dependência.


Rafaela Veríssimo

Embora o prognóstico nos países desenvolvidos seja mais favorável devido à assistência médica pré-hospitalar, bem como ao desenvolvimento das técnicas cirúrgicas e anestésicas, as fraturas apresentam ainda taxas de mortalidade e morbilidade muito significativas nesta faixa etária.

O risco de morte aumenta nos primeiros 6 a 12 meses após a fratura, a taxa de morbilidade após um ano varia de 14 a 36%, estando o aumento de morbilidade associado a pessoas idosas institucionalizadas, com problemas psiquiátricos, cirurgias sem otimização das condições médicas coexistentes e complicações cirúrgicas.

Cerca de 10% dos doentes morrem no hospital, ao fim de um ano 1/3 e apenas metade dos indivíduos regressam ao seu nível prévio de independência.

O tratamento é sempre cirúrgico. Mesmo com o sucesso da cirurgia, estão sujeitos a complicações como: tromboembolismo venoso, infeções secundárias e recuperação parcial da mobilidade. É, por isso, necessária uma abordagem multidisciplinar para a reabilitação funcional imediata, gestão das comorbilidades, prevenção das fraturas secundárias e das quedas.

As unidades de Ortogeriatria são unidades de reabilitação formadas por equipas multidisciplinares que tratam os doentes que tenham uma fratura do fémur, de modo a reinseri-los o melhor possível na sua comunidade.


Unidade de Ortogeriatria do CHVNG/E (coordenada por Rafaela Veríssimo e Agripino Oliveira) reduziu internamentos, mortalidade e complicações pós-cirurgia

Desde os anos 50, estas unidades introduziram melhorias no tratamento destes doentes geriátricos, reduzindo a demora média hospitalar, o número de complicações, a mortalidade intra-hospitalar e a mortalidade a médio prazo após a alta clínica.


É fundamental a avaliação geriátrica global para detetar outros problemas não reconhecidos que tenham impacto na qualidade de vida do doente, como as síndromes geriátricas e a otimização da terapêutica e a resolução de problemas agudos que o descompensem.

O ideal será o regresso do doente ao seu domicílio, no entanto, muitas vezes é necessária a referenciação a unidade de cuidados continuados ou inserção em lar, quando o idoso vive só e não tem quem o assista no domicílio.



Artigo publicado na edição de outubro do Jornal Médico dos cuidados de saúde primários, no âmbito de um Especial dedicado à 4.ª Reunião do Grupo de Estudos de Geriatria.
Jornal distribuído em todas as unidades de cuidados primários do SNS. 
Porque as boas práticas merecem uma ampla partilha entre profissionais!

 

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