Supervisão clínica e atração de enfermeiros: uma relação de desenvolvimento

Luís Carvalho
Prof. coord. na Escola Superior de Enfermagem da Univ. do Porto. Cocoordenador do livro Supervisão Clínica em Enfermagem (LIDEL Editora)

Falar hoje em atração de enfermeiros é falar, inevitavelmente, do fenómeno da emigração de profissionais e sobre aquilo que as organizações de saúde têm para oferecer a quem nelas trabalha. Num contexto marcado pela escassez de profissionais, pela crescente complexidade dos cuidados e pela necessidade de ambientes de trabalho mais saudáveis, é tempo de olhar para a supervisão clínica para além da sua função tradicional de acompanhamento e desenvolvimento profissional.

A supervisão clínica pode constituir uma importante dimensão da proposta de valor de uma organização de saúde. Uma organização que supervisiona os seus enfermeiros transmite uma mensagem clara: valoriza o desenvolvimento profissional, reconhece a complexidade da prática clínica e cuida de quem cuida.

Esta mensagem pode começar ainda antes da entrada na organização. Para um enfermeiro, particularmente no início do percurso profissional, saber que encontrará um contexto onde existe acompanhamento, reflexão sobre a prática, feedback e oportunidades de aprendizagem pode ser um fator diferenciador.

Não será, porém, naturalmente, o único elemento determinante na escolha de um local de trabalho. A remuneração, as condições contratuais, os horários, a progressão profissional e o reconhecimento continuam a ser dimensões fundamentais e a necessitar de intervenção política para o reconhecimento da profissão.

É precisamente aqui que a supervisão clínica pode assumir um papel estratégico. Não apenas porque contribui para o desenvolvimento de competências, mas porque pode transformar a experiência profissional quotidiana numa oportunidade de aprendizagem, reflexão e crescimento, contribuindo para reforçar a autonomia, a confiança e o sentido de competência profissional.


E é neste ponto que atração e retenção deixam de ser conceitos separados.

Não basta atrair enfermeiros. É necessário criar condições para que queiram permanecer. Uma organização pode ser suficientemente atrativa para conseguir recrutar, mas não necessariamente suficientemente boa para conseguir reter. A verdadeira questão está, por isso, na capacidade de transformar a entrada numa experiência profissional positiva e sustentável, influenciando positivamente a satisfação profissional, o bem-estar e o compromisso com a organização.

Não significa, evidentemente, que a supervisão seja uma solução isolada para a atração e retenção de enfermeiros. Seria redutor e cientificamente pouco sustentado afirmar tal relação de forma direta. A permanência dos enfermeiros resulta de múltiplos fatores individuais, profissionais e organizacionais.

Mas é precisamente por ser uma dimensão que as organizações podem estruturar e desenvolver que a supervisão clínica merece ser considerada na estratégia de gestão das pessoas.


A resposta poderá passar, entre outras dimensões, pela supervisão clínica, tema esse abordado em Supervisão Clínica em Enfermagem (LIDEL Editora), que clarifica a importância da disciplina e profissão para a segurança e qualidade dos cuidados e para a satisfação profissional.



Artigo de opinião originalmente publicado no Jornal Médico n.º 151 (nov./2026).

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