Serviços Farmacêuticos do HGO: «solução simples» evita o abandono da medicação
O Hospital de Garcia de Orta abriu portas em 1991, mas só passados alguns anos a farmácia pôde dispor de um espaço novo e com condições para cumprir a sua tarefa de fornecer medicamentos. Quem, hoje em dia, contacta com os Serviços Farmacêuticos do HGO não pode deixar de ficar impressionado com a dinâmica e funcionalidade que encontra.
O diretor, Armando Alcobia, faz questão em deixar claro um aspeto que considera importante frisar: “O que temos aqui foi conseguido depois de muita luta de toda a equipa!”
Elementos da equipa dos Serviços Farmacêuticos do Hospital Garcia de Orta
E também empregando alguma dose de originalidade… Veja-se o que sucede no processo de preparação dos medicamentos, que envolve um técnico, os componentes para realizar as combinações necessárias e uma câmara isolada. Até aqui tudo normal... A novidade surge quando, olhando com mais atenção, verificamos que esse técnico está munido de uns óculos aparentemente vulgares.
Na verdade, é bem mais do que isso. Trata-se de uma “invenção” que veio revolucionar a organização da farmácia, como explica à Just News o seu diretor:
“Introduzimos um sistema de dupla validação que deve ser aplicado quando se preparam misturas complexas que a exigem. A operação é filmada, o que possibilita que ela possa ser validada pelo farmacêutico fora do espaço de preparação. Evitamos, assim, a presença constante de dois elementos na zona de manipulação, poupando em termos de recursos humanos e mantendo a qualidade.”
Aliás, este sistema acabou por conquistar o 1.º Prémio para Melhor Poster no Congresso Europeu de Farmácia Hospitalar, em 2016, revela Armando Alcobia. E esclarece que, “embora parecendo muito complexo, foi bastante simples de implementar, com custos baixíssimos, tendo resultado de uma ideia que surgiu no decorrer de uma reunião interna.
Aprovada a sua utilização pela Comissão Nacional de Proteção de Dados, os óculos, que têm uma pequena câmara instalada, asseguram o cumprimento das Boas Práticas descritas no Manual de Preparação de Citotóxicos, da Ordem dos Farmacêuticos, que diz que deve ser implementada uma dupla verificação nas etapas críticas do processo de preparação. Refira-se que a mesma deve ser efetuada de forma independente por uma segunda pessoa ou com o auxílio de um sistema informatizado.
Além disso, afirma Armando Alcobia, a equipa mantém o processo de otimização do dispositivo de vídeo e que está a trabalhar para vir a equipar os óculos com wifi, para se poder descarregar as imagens mais facilmente.
“É evidente que, estando nós num hospital público, tudo é mais complicado de concretizar, mas não podemos baixar os braços”, acrescenta o farmacêutico. E refere que, recentemente, esteve no HGO uma especialista norte-americana, referência mundial na área da manipulação de medicamentos, que ficou realmente surpreendida com a ideia de utilizar os óculos, até pelo facto de consistir numa técnica “caseira”.
A solução é engenhosa, mas Armando Alcobia não esconde que tem entre mãos um problema mais difícil de solucionar: a escassez de recursos humanos numa área em que se exige a máxima segurança para o doente.
Uma farmácia que “chega mais longe”
Pela sua posição geográfica, o HGO é não só a unidade que serve as populações de Almada e concelhos vizinhos, mas também é referência nalgumas especialidades para toda a zona Sul do País. Em determinada altura, percebeu-se que era um problema para os doentes do Alentejo e do Algarve deslocarem-se ao HGO para recolher a sua medicação até porque, por vezes, acarretava custos insuportáveis. 
Armando Alcobia e a sua equipa perceberam isso, anteciparam que a consequência natural seria o abandono da medicação e, por isso, decidiram tomar uma posição:
“Mais uma vez, optámos por uma solução simples”, conta. “Há cerca de seis anos, coordenámos com os hospitais do Sul (Algarve, Beja, Évora e Litoral Alentejano) que toda a medicação para os doentes transplantados renais seria enviada por nós para essas unidades. Os doentes transplantados deixaram de ter de vir mensalmente ao HGO, sendo-lhes dada a possibilidade de levantar a sua medicação no hospital mais próximo da residência. O que sabemos hoje, de acordo com os inquéritos que entretanto fizemos, é que os doentes estão satisfeitíssimos.”
A ideia parecia simples e concretizá-la foi ainda mais fácil do que Armando Alcobia perspetivava. Na verdade, em articulação com os colegas farmacêuticos dos outros hospitais localizados a Sul, bastou aproveitar a “boleia” de uma viatura que já cumpria o percurso Algarve-Lisboa-Algarve semanalmente e que assim passou a fazer um ligeiro desvio pelo HGO.
No entanto, não se pense que o projeto parou por aqui. Encontrada esta solução para os doentes mais distantes, rapidamente se percebeu que também “à porta de casa” existiam situações semelhantes, pessoas para quem a deslocação ao hospital era difícil, por razões económicas e sociais.
Assegurar que "não interrompam a medicação"
São cerca de 6000 os doentes a quem os Serviços Farmacêuticos do HGO prestam assistência em ambulatório. A média diária ultrapassa, assim, as duas centenas e Sónia Domingos Camões, responsável pela Secção de Ambulatório, admite que coordenar esse volume de fornecimento de medicamentos com as outras tarefas que tem entre mãos acaba por ser o mais exigente.
Sónia Domingos Camões
Mas mostra-se satisfeita com os resultados obtidos, sobretudo no que respeita aos doentes que usufruem dos programas de acessibilidade. “A nossa preocupação é que não interrompam a medicação. Por isso, temos de assegurar o controlo da adesão, fazer a ligação com os hospitais e enviar a terapêutica”, refere, acrescentando que também já é enviada medicação para Santarém, Barreiro e Abrantes.
“O mais importante é saber que o doente não deixa de aderir ao tratamento por questões económicas”, conclui.
Vídeo trouxe outra dinâmica
Margarida Pereira é uma das responsáveis pelo Departamento de Misturas Estéreis, onde os cuidados de segurança e higiene, desinfeção e esterilização são naturalmente redobrados.
Margarida Pereira
A ajudar nesta tarefa, a utilização do vídeo trouxe outra dinâmica ao seu trabalho: “Permite-nos trabalhar só com um operador no interior das câmaras de preparação, sendo possível fazer uma validação dupla e garantir a qualidade do medicamento antes de ele seguir o seu circuito.”
Outra potencialidade desta ferramenta prende-se com a possibilidade de armazenar os dados, o que em caso de alguma reação adversa permite fazer rapidamente o despiste de todos os componentes utilizados.
"Erguemos uma estrutura nova"
Armando Alcobia tem consciência de que, normalmente, a farmácia não está no topo das prioridades quando se projeta a construção de um hospital. E recorda o que sucedeu em 1994, quando chegou ao HGO, três anos depois da sua inauguração.
A falta de espaço obrigou-o a ocupar “selvaticamente” um corredor de acesso à urgência de Obstetrícia, para ali se proceder à receção dos medicamentos… Ainda assim, apesar das limitações, sublinha que se fazia tudo: farmacotécnica, manipulação, preparação de quimioterapia...
Recorda que por várias vezes pediu o fecho da farmácia, para que se encontrasse uma solução. Até que surgiu um programa de financiamento lançado pelo Ministério da Saúde dirigido às farmácias hospitalares que, entre outros aspetos, veio permitir o alocar de verbas para infraestruturas.
“Depois de uma grande luta, conseguimos finalmente a disponibilização do espaço de que precisávamos. A construção demorou 2 anos, tendo sido possível fazer a mudança da farmácia sem nunca interromper a prestação de quaisquer serviços. Foi notável a forma como a minha equipa agarrou a oportunidade e literalmente pegou em todo o equipamento e o transferiu para o novo espaço. Foi uma vitória, pois, erguemos uma estrutura nova e à nossa medida”, conclui Armando Alcobia.
A reportagem completa pode ser lida na edição de setembro do Hospital Público.


