Intervenção precoce na psicose «não é um custo, mas uma poupança a longo prazo»
“O Governo tem de ter noção de que a intervenção precoce na psicose não é um custo, mas uma poupança a longo prazo.” As palavras são de Peter B. Jones, presidente da IEPA Early Intervention in Mental Health, que esteve este mês em Portugal para participar no 4.º Encontro Nacional do Primeiro Episódio Psicótico.
Organizado pela Secção do Primeiro Episódio Psicótico da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental (SPPSM), o evento reuniu mais de duas centenas de especialistas na cidade do Porto. 
João Marques-Teixeira, presidente da SPPSM, e Pedro Levy, presidente da secção do Primeiro Episódio Psicótico
Intervenção precoce na psicose: que definição?
Baseando-se no modelo inglês de intervenção precoce na psicose, o responsável realçou que "existem vários estudos que demonstram o custo-efetividade deste tipo de programas, que contribuem para um melhor prognóstico dos doentes a longo prazo". Adiantou também que, nas equipas multidisciplinares, "todos foram unânimes que a intervenção precoce está associada a melhores resultados".
Mas para que este investimento possa acontecer sem prejuízos para o Estado, Peter B. Jones mencionou, com base na experiência inglesa, que se deve ter noção, "antes da sua implementação", do que se entende por intervenção precoce na psicose:
“Há mais que uma definição, mas em Inglaterra focámo-nos no acesso mais rápido a cuidados de saúde feito por profissionais especializados, quer para quem tem o primeiro episódio psicótico, como para prevenir o mesmo, tendo em atenção quem apresenta risco elevado para psicose.”
Evidência das mais-valias motivou apoio do Governo
O médico psiquiatra relembrou que, no seu País, “não existia um acesso imediato a cuidados especializados e os doentes, principalmente os jovens, tendiam a desistir do tratamento após o primeiro contacto com os médicos por recearem os efeitos secundários dos antipsicóticos”.
Face a este problema "e à existência de conhecimentos científicos que demonstravam as mais-valias da intervenção precoce", o governo inglês apoiou a implementação de serviços especializados. 
Peter B. Jones
Competências para liderar
Quanto à equipa de trabalho, Peter B. Jones salientou que "o coordenador de cuidados deve ter uma visão biopsicossocial de cada indivíduo e ter capacidade e competências para trabalhar em equipas multidisciplinares". Nesse sentido, “quem coordena pode ser de qualquer grupo profissional, mas em Inglaterra apostou-se nos enfermeiros”.
Esta equipa integra psiquiatras, psicólogos especializados em terapia cognitivo-comportamental e profissionais com competência para áreas como a família, educação e emprego.
“Todos devem ter acesso a formação e ser supervisionados, o que implica liderança, gestão da informação e ter em conta as especificidades de cada processo", considerou Peter B. Jones.
Continuidade do trabalho desenvolvido
A realização do 4.º Encontro Nacional do Primeiro Episódio Psicótico resulta de um trabalho desenvolvido pelo mesmo grupo de profissionais que organizou a reunião do ano passado. Além de Pedro Levy, presidente da secção do Primeiro Episódio Psicótico, o grupo de trabalho integra Nuno Madeira, Tiago Santos, Ricardo Coentre e Hugo Silva. 
Pedro Levy, Peter Jones, Nuno Madeira e Ricardo Coentre
Os princípios da IEPA para a psicose
Na sua intervenção em Portugal, Peter B. Jones deu a conhecer também os princípios da IEPA, apresentados na 11th International Conference on Early Intervention in Mental Health, que decorreu nos dias 7 e 10 de outubro de 2018, em Boston, EUA.
De acordo com o médico, os principais pontos são a necessidade de se agilizar a referenciação, reduzir o atraso no diagnóstico e dar enfoque aos mais jovens, especialmente na terapêutica.
Explicou ser importante "que se comece com doses mais baixas de antipsicóticos, indo aumentando gradualmente consoante as necessidades, porque será mais fácil tolerar os efeitos secundários e, por conseguinte, contribuir para a adesão à terapêutica.”
Ainda relativamente aos fármacos, Peter B. Jones realçou a imperiosidade de se identificar, “desde cedo, a resistência em cumprir o tratamento, para se evitar o comprometimento do mesmo”.
Sublinhou também que "a visão holística e o seguimento dos doentes" foram mais dois dos princípios apresentados na conferência da IEPA.
Vantagens "quer clínicas quer económicas"
O Encontro Nacional do Primeiro Episódio Psicótico deste ano fica claramente marcado pela presença de Peter B. Jones. "Trata-se de um médico psiquiatra que alia uma extensa prática clínica nesta área a uma carreira académica e científica singular", sublinha Ricardo Coentre.
Ricardo Coentre, Pedro Levy e Tiago Santos
Em declarações à Just News, o docente da Faculdade de Medicina de Lisboa e médico psiquiatra do Centro Hospitalar Universitário de Lisboa Norte - Hospital de Santa Maria, faz questão de referir que, "para a Comissão Organizadora do 4.º Encontro Nacional do Primeiro Episódio Psicótico e para a Secção do Primeiro Episódio Psicótico da SPPSM, foi uma honra ter o professor Peter Jones no nosso Encontro".
O orador convidado é uma referência mundial na área, sendo atualmente presidente da IEPA Early Intervention in Mental Health, "uma organização internacional que congrega profissionais de saúde que cuidam e têm interesse nas fases iniciais das perturbações psicóticas".
Em jeito de conclusão, Ricardo Coentre destaca a importância de dois factos expressos por Peter Jones: que a rede de intervenção precoce implementada no Reino Unido "tem hoje uma completa cobertura de todo o território" e a "evidência científica e as manifestas vantagens deste tipo de intervenção, quer clínicas, quer económicas". 
Podem ser consultadas mais fotos do Encontro na Galeria de imagens ou via facebook.


