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Aneurisma da aorta torácica: investigações no CHULN podem originar novas recomendações

A aorta torácica tem sido o foco de vários estudos impulsionados por Ryan Gouveia e Melo e o próprio explica as motivações à Just News: “A aorta torácica, nomeadamente o segmento descendente, é difícil de estudar pela sua localização, e havia várias perguntas que queríamos ver respondidas.” Os estudos foram sendo gerados progressivamente, fruto das conclusões de investigações anteriores.

“Primeiro, começámos por tentar perceber qual era a incidência e a prevalência do aneurisma da aorta torácica. Através de um estudo seguinte, concluímos que uma das formas que tínhamos de identificar estes doentes consistia na avaliação de dados da investigação de doentes com aneurismas noutras localizações. Recentemente, temos também focado a nossa atenção nas dissecções da aorta”, esclarece.

Apesar de já haver alguns estudos que apontavam para a ligação entre os aneurismas da aorta abdominal e torácica, “a informação estava dispersa, pelo que o trabalho inicial consistiu na revisão sistemática com meta-análise desses estudos, e logo se percebeu que havia uma prevalência muito maior do que aquela que se suspeitava inicialmente”.

Olhando para a dinâmica clínica, “era intuitivo pedir uma TAC de corpo inteiro quando se assistia um doente com aneurisma, apesar de não existir uma recomendação clara nesse sentido”, reforça.


Ryan Gouveia e Melo


A interação entre a Cardiologia e a Cirurgia Vascular, neste contexto, trouxe “sinergismos, unindo perspetivas gerais das doenças cardiovasculares e fatores de risco, com um conhecimento mais específico do campo vascular”.

Esse conhecimento, conjugado com a aplicação de métodos de agregação de dados, permite sintetizar a evidência disponível na literatura. Desta forma, “obtêm-se resultados robustos, que nos permitem tirar conclusões mais globais sobre determinada questão e estar num registo de simbiose entre aquilo que são as perguntas de quem está no campo e a utilização de uma metodologia que se apoia em perguntas globais”.

"Uma doença que passa, naturalmente, mais despercebida"

Agregando a evidência clínica que existia, concluiu-se, num estudo publicado no Journal of the American Heart Association, em 2020, que “1 em cada 5 doentes com aneurisma da aorta abdominal tem também aneurisma da aorta torácica, o que é um número bastante relevante”.

Ao passo que o diagnóstico do aneurisma da aorta abdominal é feito, muitas vezes, “graças à realização de ecografias para controlo de outras patologias, como as doenças da próstata, no caso do aneurisma da aorta torácica (em particular o segmento descendente), a sua localização exige que a sua avaliação se faça apenas através de angio-TAC ou de angiorressonância, pelo que é uma doença que passa, naturalmente, mais despercebida”.

Estes resultados vieram “abrir espaço para novas investigações, desde logo, para se pereber se faz sentido que haja um rastreio sistemático dos doentes com aneurisma da aorta abdominal ao aneurisma da aorta torácica, e se esta prevalência é ou não clinicamente relevante, consoante a dimensão dos aneurismas”. De forma sintetizada, esclarece:


“Para já, conseguimos responder de forma mais sintetizada que a prevalência é significativa. Quanto à necessidade de tratamento e validade de um rastreio, trata-se de uma área de futuro interesse”. Simultaneamente, identificaram que as mulheres apresentam o dobro da tendência para ter este tipo de aneurisma, comparativamente aos homens.

Este é um dado que Ryan Gouveia e Melo admite que deva ser estudado, uma vez que outras investigações já demonstraram que “o comportamento da doença aneurismática nas mulheres é ligeiramente diferente, revelando-se menos prevalente, mas mais agressivo, sistémico e com piores resultados, tanto no tratamento como no risco de rutura”.

No entanto, “tal como na área cardiovascular, este grupo acaba por ser subestudado, o que leva a que as conclusões retiradas dos estudos não sejam completamente extrapoláveis ao sexo feminino”.

Produção de artigos clinicamente relevantes


Daniel Caldeira, cardiologista do CHULN, considera que estas conclusões “levarão, no mínimo, à equação de novos estudos, porque há questões como a relevância clínica e a dimensão dos aneurismas, que exigem alguma reflexão sobre a possibilidade de rastrear, pelo menos oportunisticamente, este tipo de aneurisma”.

Naturalmente que “esta ação precisa de ser alicerçada através de estudos que suportem as regras subjacentes ao processo de rastreio”.

Em declarações à Just News, não poupa nos elogios a Ryan Gouveia e Melo: "Tem sido um interno muito produtivo, tanto do ponto de vista de ter ideias como de as executar, com qualidade e rapidez, o que tem gerado a produção de uma sequência de artigos clinicamente relevantes." 

Daniel Caldeira: "Há questões que exigem alguma reflexão sobre a possibilidade de rastrear, pelo menos oportunisticamente, este tipo de aneurisma"

Estes estudos têm vindo a ser publicados em revistas e apresentados em congressos, sob a forma de e-posters ou comunicações orais. O futuro cirurgião vascular tem realizado ainda estudos clínicos com doentes do próprio CHULN, que também têm vindo a ser apresentados em reuniões nacionais e internacionais.

Ryan Gouveia e Melo encontra-se a finalizar o internato da especialidade e a realizar o doutoramento, cuja tese incide sobre a área da epidemiologia das doenças da aorta torácica, sob a orientação de Luís Mendes Pedro, diretor do Serviço de Cirurgia Vascular, e coorientação de Daniel Caldeira.

Daniel Caldeira valoriza o interesse de “um futuro cirurgião num tema que não é, pelo menos em primeira instância, necessariamente cirúrgico” e destaca que “o volume de produção demonstra a capacidade de identificar questões que necessitam de respostas com base científica para esta que se trata da maior artéria do corpo humano – a artéria aorta”.

“O desenvolvimento da atividade científica tem um impacto positivo na atividade clínica”

Para Luís Mendes Pedro, diretor do Serviço de Cirurgia Vascular do CHULN, “é crucial que os internos desenvolvam uma atividade científica significativa e a mudança tem de ser feita neste sentido”.

Na sua ótica, “tipicamente, a assimetria é grande, e enquanto há internos com uma atividade científica de topo ou média, outros desenvolvem-na apenas de forma residual, porque aquilo que é mais valorizado é a atividade ligada ao tratamento dos doentes, do ponto de vista clínico”.


Ryan Gouveia e Melo, Luís Mendes Pedro e Daniel Caldeira

No entanto, reconhece que “cada vez mais se valoriza, a nível global, a capacidade de desenvolvimento de projetos durante os internatos”, existindo países que permitem que os internos suspendam a sua formação, ou que esta seja mesmo uma obrigação, para que invistam na atividade científica.

“Essa é uma componente importante, pois, permite o desenvolvimento de características que terão um impacto positivo no tratamento dos doentes, de tal maneira que, de forma geral, o desenvolvimento da atividade científica tem um impacto positivo na atividade clínica”.

Neste contexto, Ryan Gouveia e Melo merece o seu reconhecimento pela “importante atividade científica desenvolvida, que tem trazido nova informação sobre a epidemiologia das doenças da aorta torácica”.



A reportagem pode ser lida na mais recente edição da revista Coração e Vasos, editada pela Just News.

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