A necessidade de um SNS não subfinanciado «ficou demonstrada à exaustão»

Para João Araújo Correia, presidente da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna (SPMI), apesar de estarmos ainda em plena pandemia, é evidente uma das conclusões que "pode e deve" ser já retirada:

"A covid-19 veio demonstrar à exaustão que é necessário ter um Serviço Nacional de Saúde (SNS) estruturado, não subfinanciado ou reduzido, na expectativa de contar com a capacidade instalada dos privados.”

Em declarações à Just News, o médico, que também é diretor do Serviço de Medicina Interna do Centro Hospitalar Universitário do Porto (CHUP), considera que "é preciso repensar o SNS para enfrentar situações graves e inesperadas como a que se vive atualmente".

Na sua opinião, “só com ‘alguma folga’, sem estar estrangulado nos meios materiais e humanos de que dispõe, o SNS pode responder numa fase de embate inicial [da pandemia], em que o fator surpresa está sempre presente.”

"A comunicação fluida entre hospitais e centros de saúde nunca foi tão importante"

De acordo com João Araújo Correia, a realidade dos últimos dois meses "deixou também bem evidente que o tratamento hospitalar tem de ser reservado aos casos mais graves e que os cuidados de saúde primários não podem deixar de assumir os doentes menos graves, como tenho referido várias vezes.”

O responsável realça mesmo que “nunca como agora foi tão importante a existência de uma comunicação fluida entre os hospitais e os centros de saúde".

Desta forma, "os doentes têm de ir passando duma estrutura para a outra, de acordo com os scores de gravidade, para que não ocorra o colapso de nenhuma delas”.


João Araújo Correia

“A maior parte dos doentes internados são tratados nas enfermarias por internistas”

Outro aspeto que o especialista de Medicina Interna destaca neste tempo de crise é o papel “basilar” da Medicina Interna (MI) no SNS:

“Sendo a especialidade médica mais numerosa no hospital, e aquela que suporta a área médica dos serviços de Urgência, implicou o empenhamento total de muitos internistas no combate à COVID-19, que trabalham sem descanso!"

João Araújo Correia faz mesmo questão de reforçar este facto, sublinhando que, "independentemente de quem vai ocupando os palcos televisivos, a maior parte dos doentes internados são tratados nas enfermarias por internistas e nas Unidades Intensivas por intensivistas, muitos deles também especialistas de Medicina Interna”.

O médico explica que, "infelizmente, esta doença terrível, que se abateu sobre nós de forma tão brutal, escolheu os doentes da Medicina Interna como alvo preferencial".

E quem são esses doentes? "São os velhos, hipertensos, diabéticos ou portadores doutras enfermidades. São esses que mais são atingidos. É neste grupo que mais vidas são ceifadas, com pneumonias brutais, em que o sofrimento nem sequer pode ser partilhado…”



"Tratamos mal os idosos"

O presidente da SPMI não deixa de fazer uma alusão particular à maneira como os mais velhos são tratados no País. “Como 5.º País mais velho do mundo, tratamos mal os idosos, estando muitos, sozinhos em casa, com cuidadores caritativos e reformas miseráveis. “

Uma realidade que acaba por agudizar a falta de camas nos hospitais. “Mesmo que não tenham indicação de internamento por causa da covid-19, não podem voltar a casa porque não está lá ninguém!", indica João Araújo Correia.

Por outro lado, "outros idosos amontoam-se em lares, cujo contágio é tão inevitável como previsível.”

O internista conclui ainda que a pandemia trouxe à tona outro conceito de saúde, que não deve ser esquecido: “Trata-se da saúde num plano global. Cada um de nós, precisa que o outro cumpra as normas, para que possamos sair deste pesadelo. Cada País, só ultrapassa a crise, se proteger os novos e os velhos, os pobres e os ricos.”

E acrescenta: “Talvez tenhamos aprendido alguma coisa útil, no meio de tanta desgraça.”



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