Opinião

«Sou internista. Acredito no hospital em casa!»

Olga Gonçalves

Coordenadora médica da Unidade de Hospitalização Domiciliária (UHD) do Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia/Espinho (CHVNG/E). Assistente hospitalar graduada de Medicina Interna.

A quem de entre nós não assaltaram já dúvidas, pelo menos em uma ocasião, aquando da alta de um doente, sobre o custo/benefício do internamento hospitalar e/ou sobre a eficácia do plano terapêutico elaborado para o ambulatório? Quem nunca experimentou o desconforto de entabular diálogo com um doente que, após uma noite de agitação, conseguiu adormecer apenas no raiar da aurora e está agora “prostrado”?

Quem já foi realmente capaz de imaginar, ao pormenor, como é tentar que a noite e os seus fantasmas transcorram rápidos, como é fechar os olhos para sentir o sabor de casa numa refeição pouco apelativa ou como é reprimir a saudade do nosso espaço ou do silêncio benfazejo do nosso quarto, quando nos foi recomendada calma para melhorarmos mais depressa? Reflexões recorrentes que, somadas às dificuldades na logística hospitalar, determinam, desde há quase oitenta anos, a busca por uma outra solução de internamento.

Teve início em 1945, em Nova Iorque, a primeira experiência de hospitalização domiciliária. Desde então até agora, outros centros, na Europa inclusive, ensaiaram esta forma de prestação de cuidados de elevada complexidade, em situação aguda ou de cronicidade agudizada de doença. As conclusões são inequívocas quanto a um saldo amplamente positivo, tal como reporta a meta-análise levada a cabo em 2012, em que se registou um decréscimo de 38% da taxa de mortalidade destes doentes aos 6 meses, em comparação com os do internamento convencional.

Desafiada a aderir a um projeto para implementação do internamento domiciliário no Centro Hospitalar de Vila Nova Gaia/Espinho, revi nesta atividade assistencial tudo o que define um internista – atenção ao doente, exigência da anamnese e do exame físico cuidados, capacidade de síntese diagnóstica, sábia articulação do plano terapêutico com o paciente, o(s) cuidador(es), o médico e o enfermeiro de família.

Previ, passando a estar na casa do doente, uma melhor aproximação aos seus reais hábitos de vida e um melhor conhecimento das suas dificuldades quotidianas. Sonhei com mais e melhor tempo para acompanhar a evolução, para integrar a família nos cuidados e para prevenir tudo o que de potencialmente nefasto uma estadia no hospital pode acarretar.



Alguns meses volvidos sobre o dia 1 desta Unidade, a convicção robustece-se e a motivação é diariamente acrescida. O esforço por uma eficiente triagem do doente passível de admissão – verdadeira chave do sucesso do internamento em casa – é amplamente ressarcido pela gratificação dos objetivos alcançados: doentes mais confortáveis, melhor humorados, mais colaborativos, mais predispostos às necessárias mudanças de estilo de vida, famílias com elevado índice de satisfação e envolvimento no bem-estar do hospitalizado.

Claro que a conversão de mentalidades, mormente dos clínicos a quem o resguardo do edifício hospitalar não parece prescindível, é uma das necessidades mais prementes. É certo que a convergência de esforços em torno desta “novidade” assistencial não é de geração espontânea e obriga a postura resiliente e esperançosa, mas não é esse o distintivo de quem luta por uma Medicina Interna de Alto Valor, na tão feliz designação dos colegas espanhóis?

A manutenção do afinco e da qualidade do trabalho da equipa multidisciplinar que integro vão permitir, ao longo do tempo, que se atinjam os indicadores preconizados e que seja uma vez mais comprovado o benefício financeiro desta modalidade de internamento, à semelhança do que já acontece nas Instituições onde o hospital em casa foi ativado.

Tal como Bruce Leff, do Johns Hopkins Hospital, acredito que o tratamento pode sair para fora do hospital e concordo, em absoluto, que é tempo de nos levantarmos e de nos pormos a mexer (in “Why I believe in Hospital at Home”, NEJM Catalyst)

Sou internista e acredito no Hospital em casa!



O artigo pode ser lido na revista LIVE Medicina Interna de maio.

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