«Relatório PaRIS confirma: o SNS precisa de mais Enfermagem nos Cuidados de Saúde Primários»
Luís Filipe Barreira
Bastonário da Ordem dos Enfermeiros
O relatório PaRIS (Patient-Reported Indicator Surveys) da OCDE, recentemente divulgado, é um documento que merece ser lido com a máxima atenção, pois, demonstra que não é possível continuar a adiar decisões estruturais. Pela primeira vez, dispomos de um retrato sobre o que os utentes pensam dos cuidados de saúde primários em Portugal, sobretudo aqueles que vivem com doença crónica e que mais dependem da resposta pública.
Em Portugal, o estudo envolveu 11.744 utentes com 45 ou mais anos e 91 unidades de CSP. O retrato que resulta desta análise demonstra que o país está consistentemente abaixo da média internacional nos resultados em saúde reportados pelos utentes e mantém fragilidades sérias na experiência com os cuidados, em especial na coordenação e na continuidade da assistência.
Os números não deixam margem para quaisquer dúvidas. Entre as pessoas com doença crónica em Portugal, apenas 57% referem ter uma boa saúde física, um valor inferior à média da OCDE no PaRIS (70%) e 25 pontos percentuais abaixo do país com melhor desempenho. No domínio da saúde mental, o cenário é ainda mais gritante: Portugal apresenta o valor mais baixo de todos os países participantes.
A experiência com o Serviço Nacional de Saúde (SNS) também revela lacunas profundas. Apenas 42% dos doentes crónicos em Portugal consideram ter um bom estado de saúde geral, contra os 66% da média da OCDE. No que toca à coordenação de cuidados, menos de metade dos utentes (49%) classifica-a como “boa”, o que representa uma distância de 10 pontos face à média internacional (59%) e de 32 pontos face ao país com melhores resultados. Além disso, a confiança no sistema de saúde fixa-se nos 54%, abaixo dos 62% registados na média da OCDE.
Embora não seja, formalmente, um relatório sobre Enfermagem, este é um documento que interpela a profissão. O estudo identifica com precisão as áreas onde os enfermeiros
podem e devem ter um papel mais forte e visível: coordenação de cuidados, acompanhamento longitudinal, apoio à autogestão, planos individuais de cuidados e literacia em saúde.
Luís Filipe Barreira
As conclusões do PaRIS evidenciam ainda a necessidade de cuidados de saúde mais integrados e centrados nas pessoas, sobretudo tendo em conta que 80% dos utentes dos CSP com 45 ou mais anos vivem com pelo menos uma doença crónica. Torna-se, por isso, fundamental implementar políticas direcionadas para reduzir desigualdades, reforçar a coordenação dos
cuidados e aumentar a confiança nos sistemas de saúde.
Promover a participação ativa dos doentes nas decisões sobre os seus cuidados, bem como fortalecer a relação com os profissionais de saúde, pode traduzir-se em melhores resultados clínicos, maior confiança no sistema e maior capacidade de autogestão da saúde. Paralelamente, é crucial assegurar um sistema de saúde dotado de profissionais qualificados em número adequado e com unidades de cuidados primários organizadas de acordo com as necessidades da população, de forma a melhorar tanto os resultados como a experiência dos doentes.
Se o sistema reconhece que cada utente deve ter um gestor de cuidados e se admite que o apoio à autogestão é insuficiente – apenas 49% dos utentes sentem ter apoio suficiente
para gerir a própria saúde –, então não se pode continuar a olhar para os enfermeiros como um recurso acessório. Aliás, embora o relatório não foque os enfermeiros (uma das lacunas que aponto a este documento), o mesmo sugere que estes desempenham um papel importante na melhoria da prestação de cuidados de saúde a pessoas com várias doenças crónicas.
O futuro dos CSP depende, portanto, da capacidade de acompanhar doentes crónicos ao longo do tempo, de reduzir desigualdades e de garantir que alguém assume a responsabilidade pela gestão do caso. Portugal precisa de reorganizar a prestação de cuidados centrados na pessoa, algo que implica dar aos enfermeiros autonomia na gestão de caso, integrá-los plenamente nos planos de cuidados e valorizar o seu impacto na literacia em saúde e na prevenção da doença.
Nota: Este artigo de opinião foi escrito para a edição de maio 2026 do Jornal Médico, no âmbito da colaboração bimestral de Luís Filipe Barreira.


