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«O risco de doenças cardiovasculares na mulher continua a ser inadequadamente identificado»


Patrícia Vasconcelos

Especialista de Medicina Interna, Hospital Prof. Doutor Fernando Fonseca



A aterosclerose, doença multifatorial das artérias elásticas (de grande e médio calibre) e das artérias musculares, pode apresentar manifestações clínicas diversas consoante o território arterial afetado (doença cardíaca isquémica, doença cerebrovascular isquémica e doença arterial periférica) e constitui o processo fisiopatológico mais comum subjacente às doenças cardiovasculares (DCV)(1). Estas persistem como a principal causa de morte a nível mundial(2), na Europa(3) e em Portugal (28% do total de óbitos em 2022)(4).

São também as DCV a principal causa de morbilidade e mortalidade nas mulheres em todo o mundo, estimando-se que 1 em cada 3 morra de DCV(5-6). Segundo dados da Fundação Portuguesa de Cardiologia, anualmente, as DCV são responsáveis por mais de 20 mil vítimas entre as mulheres, um número superior ao do universo masculino(7).

Todos os anos, em Portugal, há cerca de mais 4 mil mulheres do que homens a morrer de DCV, constituindo estas, ao contrário do que se pensa, a principal causa de morte. A título de exemplo, saliento que morrem, todos os anos, 9 vezes mais mulheres por DCV do que por cancro da mama. Tem-se também verificado, de forma preocupante, um aumento da mortalidade por DCV e uma maior incidência de enfarte agudo do miocárdio em mulheres jovens(7).

Apesar destes números, o risco de DCV na mulher continua a ser inadequadamente identificado, subvalorizado e pouco estudado. Entre as principais razões estão(8):

– Falta de consciencialização do problema pelas mulheres, pela comunidade médica e científica e pela sociedade.

– Sub-representação das mulheres em pesquisas e ensaios clínicos, o que causa uma lacuna de conhecimento sobre o impacto das doenças cardíacas neste grupo especial, quais os medicamentos mais recomendados e em que doses.

– Dificuldades de diagnóstico da população feminina, uma vez que os sintomas são menos explícitos do que nos homens.

– Especificidades dos fatores de risco cardiovascular clássicos na mulher.

– Condições clínicas exclusivas da mulher associadas a um aumento e, por vezes, ao início precoce do risco de DCV

– Menor assiduidade no recurso aos cuidados de saúde em mulheres, bem como uma menor adesão ao tratamento.


Patrícia Vasconcelos (foto cedida pela médica)

Devemos considerar 2 grupos de fatores de risco (FR)(8):

– Os FR tradicionais/clássicos (hipertensão arterial; dislipidemia (colesterol alto); sedentarismo; tabagismo; diabetes mellitus; obesidade), que apresentam prevalência e “peso” diferente nas mulheres. Há maior prevalência de obesidade e sedentarismo e as mulheres fumadoras e diabéticas têm risco CV maior em comparação com os homens.

– Os FR específicos/exclusivos do sexo feminino: hormonais (menopausa precoce, terapêutica hormonal de substituição, síndrome do ovário poliquístico); condições associadas à gravidez (eclampsia, diabetes gestacional, parto pré-termo, interrupção da gravidez e restrição do crescimento intrauterino); doenças autoimunes (lúpus eritematoso sistémico e artrite reumatoide); terapêuticas associadas ao cancro da mama (radiação da parede torácica e cardiotoxicidade associada à quimioterapia) e fatores psicossociais (por exemplo, a depressão).

De salientar que a transição para a menopausa constitui um tempo de risco CV acelerado, associado a dislipidemia aterogénica (isto é, conjunto de alterações lipídicas que aceleram o processo de aterosclerose e causam DCV), que se caracteriza por LDL relativamente normal, porém, com moléculas pequenas e densas, HDL baixo e triglicéridos altos(8).

Ao longo dos anos, vários estudos têm demonstrado, de forma inequívoca, a associação entre a alteração do colesterol LDL e o risco de DCV. Ainda assim, mais de metade da população portuguesa desconhece os seus níveis de colesterol e 63% apresentam valores acima do alvo pretendido(9). Como o colesterol elevado não apresenta sintomas evidentes, sendo apenas identificado aquando da realização de avaliação analítica, é considerado um inimigo silencioso.

Para contrariar esta realidade, é necessário apostar na prevenção, assim como aprender a identificar e interpretar precocemente os sintomas destas doenças nas mulheres. A identificação criteriosa dos FR específicos da mulher é fundamental para uma correta estratificação de risco CV, no sentido de implementar estratégias de modificação do estilo de vida e controlo agressivo dos FR, sempre que necessário, com recurso à terapêutica farmacológica(8).

Na minha opinião, deveriam ser implementadas estratégias de prevenção CV adaptadas às mulheres e fazer da sua saúde uma prioridade de saúde pública.


Bibliografia:
1. M. Mello e Silva. Aterosclerose: Doença sistémica com manifestações focais em territórios e manifestações clínicas. Rev Factores Risco., 6 (2007), pp. 40-45.
2. Global Health Estimates 2019: Deaths by Cause, Age, Sex, by Country and by Region, 2000-2019. Geneva: World Health Organization; 2020.
3. Timmis A.,Vardas P., Townsend N. et al. European Society of Cardiology: cardiovascular disease statistics 2021, European Heart Journal, Volume 43, Issue 8, 21 February 2022, Pages 716–799.
4. Instituto Nacional de Estatística IP (INE). Principais causas de morte 2022. [dados atualizados a 25/07/2022].Disponível em: https://
www.pordata.pt/publicacoes/infografias/causas+de+morte-289.
5. Benjamin EJ, Muntner, Alonso A, et al., American Heart Association Council on Epidemiology and Prevention Statistics Committee and Stroke Statistics Subcommittee. Heart disease and stroke statistics 2019 update; a report from the American Heart Association. Circulation 2019;139:e56-528.
6. Arora S, Stouffer GA, Kucharska-Newton AM, et al. Twenty Year Trends and Sex Differences in
Young Adults Hospitalized With Acute Myocardial Infarction. Circulation 2019;139:1047-56.
7. http://www.fpcardiologia.pt.
8- Manual de Lípidos da Sociedade Portuguesa de Aterosclerose. Cultura Editora, novembro de 2021. isbn: 9789899039940.
9- https://www.sns.gov.pt/wp-content/uploads/2018/04/RETRATO-DA-SAUDE_2018_compressed.pdf.

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