«Internamentos sociais: dez edições e um problema que se agrava»


Xavier Barreto

Presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares (APAH)



Há dez anos que medimos. Há dez anos que alertamos. E há dez anos que o número continua a subir. A 10.ª edição do Barómetro dos Internamentos Sociais mostra-nos uma realidade que já não pode ser tratada como acessória: 2807 pessoas estavam, a 19 de março, internadas em hospitais públicos sem qualquer razão clínica para ali permanecerem. São mais 19% do que há um ano. Ocupam 13,9% das camas do SNS e custam 351 milhões de euros por ano ao Estado, mais 63 milhões do que no barómetro anterior.

Estes números têm dois rostos. O primeiro é humano. A maioria destes doentes tem mais de 65 anos e fica internada, em média, 157 dias depois de ter alta clínica.

O internamento prolongado de pessoas idosas associa-se a infeções nosocomiais, quedas, delirium e declínio funcional acelerado. Há quem entre pelos próprios pés e saia, meses depois, dependente. Há quem já não saia. O hospital de agudos é um mau lar – e quando se vê obrigado a sê-lo falha tanto enquanto hospital como enquanto lar.

O segundo rosto é sistémico. Os 439 mil dias de internamento inapropriado num só ano são camas que faltam a quem chega à Urgência ou aguarda cirurgia. A pressão concentra-se na Medicina Interna, onde 46% dos internamentos são inapropriados. Lisboa e Vale do Tejo e o Norte concentram 85% dos casos e a falta de resposta da RNCCI explica hoje 45% destas situações. O problema não está dentro do hospital: está nas alternativas que deviam existir para além do hospital e que, infelizmente, não existem.


Xavier Barreto

A primeira prioridade tem de ser permitir que estas pessoas regressem a casa. O internamento social não é, em rigor, um problema do sector da Saúde. É um problema social que pressiona os hospitais por falta de resposta a montante. A casa – e não a ERPI, nem o hospital – é o lugar onde a esmagadora maioria das pessoas idosas quer envelhecer e onde, com apoio adequado, podem envelhecer com dignidade.

Para que isso seja possível, temos de criar e qualificar, em larga escala e com cobertura nacional, serviços de apoio domiciliário com equipas multidisciplinares de saúde, social e de reabilitação. E temos, sobretudo, de apoiar quem cuida em casa: os cuidadores informais – quase sempre filhas, esposas, netas, hoje deixadas sozinhas com uma sobrecarga que destrói saúde, carreiras e laços familiares.

Isto exige um método e uma reestruturação da sociedade: formação, apoio financeiro digno, descanso do cuidador, telecuidado, adaptação habitacional, integração com os cuidados de saúde primários. Estamos a falar de garantir conforto e segurança às pessoas mais velhas precisamente no momento em que estão mais frágeis e em que mais precisam de nós.

É urgente priorizar este tema, ao contrário do que tem acontecido nos últimos anos em Portugal. É um teste ético à forma como tratamos os nossos pais e avós e que, lamentavelmente, estamos a falhar.


Nota: Este artigo de opinião de Xavier Barreto foi escrito para o Jornal Médico, com publicação na edição de maio de 2026.

Imprimir


Próximos eventos

Ver Agenda