Défice auditivo no idoso: «Uma prótese adequada pode diminuir o isolamento e a depressão»


Marco Ribeiro Narciso

Internista, Centro Hospitalar e Universitário de Lisboa Norte - Hospital Pulido Valente. Membro do Secretariado do NEGERMI



Neste contexto de pandemia, o conceito de isolamento é conhecido de todos. Embora habitualmente utilizado com uma conotação de distanciamento físico e assumido como “higiénico” e “protetor”, sabemos já que o distanciamento “social” está associado a sofrimento psicológico.

Isolados do mundo, temos todos, agora, um resquício do que será a realidade do idoso com défice auditivo ou de qualquer uma das cerca de 538 milhões de pessoas que a OMS estima viverem com esta condição. Sabe-se que a prevalência é crescente com a idade, atingindo 43% dos indivíduos entre os 65 e os 84 anos, pelo que será ubíqua nos cuidados primários, mas provavelmente subvalorizada.

A presbiacusia é a causa mais frequente de perda auditiva (60-70% acima dos 75 anos). Manifesta-se habitualmente por uma perda progressiva e simétrica da audição, mais marcada para altas frequências, habitualmente ao longo de vários anos, no idoso.

Uma das queixas mais frequentes é a redução da capacidade de compreensão do discurso, particularmente em ambientes ruidosos, visto que os tons de frequências mais altas correspondem habitualmente às consoantes – elementos geralmente mais discriminativos no discurso. A perda auditiva pode também ser acompanhada de acufenos, vertigem e desequilíbrio.

Estudos iniciais de correlação audioanatomopatológica identificaram padrões de doença associados a lesão específica de estruturas do ouvido interno, com a consequente classificação em três grandes grupos – sensorial, neural e metabólica (Schuknecht, em 1969), entretanto modificados.


Marco Ribeiro Narciso

De uma forma simplista, a presbiacusia sensorial estaria relacionada com degenerescência do órgão espiral de Corti e lesão das células ciliadas externas ao nível da base da cóclea, condicionando um défice auditivo predominantemente para altas frequências; a metabólica com a atrofia da estria vascular e do ligamento espiral, condicionando uma curva aplanada com atingimento de frequências graves na audiometria e a neuronal caracterizada por perda neuronal (nomeadamente aferências), com tradução audiométrica numa curva gradualmente descendente e atingimento importante da discriminação auditiva.

Esta classificação é hoje contestada pela sua rigidez numa entidade com grande variabilidade clínica e sobreposição de mecanismos patofisiológicos, mas ajuda, no entanto, a compreender as principais queixas dos doentes e diferentes potenciais de reabilitação – um doente com hipoacusia severa mas boa capacidade de reconhecimento verbal no audiograma poderá ter, previsivelmente, uma melhor resposta à amplificação do som, por oposição a alguém com maior afetação da compreensão.

Sabe-se que a utilização de uma prótese auditiva adequada poderá diminuir o isolamento, a depressão e o impacto emocional associados à hipoacusia e melhorar a qualidade de vida. No entanto, estima-se que apenas 10 a 20% dos adultos com hipoacusia possuem estes aparelhos e, destes, 20 a 40% não os utilizam corretamente.

Falamos de uma entidade que pode afetar grandemente a qualidade de vida, levando a baixa autoestima, isolamento e depressão. Uma análise de 605 indivíduos idosos revelou ainda uma associação entre a perturbação de audição e menor performance em testes de capacidade executiva não-verbal e velocidade psicomotora.

Deste modo, a identificação precoce da hipoacusia com diagnóstico e reabilitação adequados é de grande importância para preservar a interface de ligação com o mundo e é um dos elementos a ter em consideração na avaliação geriátrica.



Artigo publicado na edição de outubro do Jornal Médico dos cuidados de saúde primários, no âmbito de um Especial dedicado à 4.ª Reunião do Grupo de Estudos de Geriatria.
Jornal distribuído em todas as unidades de cuidados primários do SNS. 
Porque as boas práticas merecem uma ampla partilha entre profissionais!

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