«Uma esquizofrenia descompensada exige um controlo rápido dos sintomas psicóticos»

Na sequência do simpósio que os Laboratórios Farmacêuticos ROVI promoveram no último Congresso da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental, em que foram apresentados os resultados preliminares do RESHAPE, a Just News conversou com dois psiquiatras diretamente envolvidos neste estudo, que incluiu doentes internados em 76 hospitais de cinco países europeus, entre os quais Portugal.

Nuno Madeira, da ULS de Coimbra, e Ricardo Moreira, da ULS de São João, comentam as principais conclusões a que este ensaio clínico permitiu chegar relativamente à utilização do antipsicótico de longa ação Risperidona ISM® em casos agudos de esquizofrenia. E não deixam de salientar como é importante a intervenção precoce para uma mais célere recuperação funcional destes doentes.



Ao ser admitida numa unidade de agudos, a pessoa em descompensação de uma psicose esquizofrénica necessita de controlo rápido dos sintomas psicóticos que  estão a motivar o internamento. Estes incluem frequentemente delírios e alucinações, que geram sofrimento intenso e risco de desorganização, agitação e auto ou heteroagressão.

O psiquiatra Nuno Madeira, diretor do Serviço de Psiquiatria da ULS de Coimbra, sublinha ser “importante garantir a segurança física, nomeadamente, prevenindo a agressividade ou a autonegligência, com um ambiente estruturado que reduza estímulos desorganizadores e facilite a recuperação, nomeadamente emocional”.

Identifica ainda outra “necessidade central”, que consiste “na estabilização precoce da pessoa, para permitir encurtar o internamento e preparar, desde o início, o regresso à vida no ambulatório, minimizando descontinuidades após a alta”. A isto soma‑se “a reconstrução da aliança terapêutica, frequentemente abalada por internamentos involuntários, resultantes de não adesão prévia e insight limitado, podendo ainda existir experiências terapêuticas negativas anteriores”.

“O RESHAPE, um estudo internacional multicêntrico não intervencional envolvendo 275 doentes internados por descompensação de esquizofrenia, destacou precisamente estas prioridades numa amostra muito semelhante à que encontramos na prática diária”, refere Nuno Madeira, salientando: “Foi reportada redução rápida e sustentada da gravidade clínica e melhoria funcional com Risperidona ISM®, permitindo altas cerca de uma semana após a primeira injeção.”

Aliás, o artigo principal com os resultados deste estudo, de que o psiquiatra de Coimbra é coautor, já foi submetido para publicação, devendo estar disponível muito em breve.


Nuno Madeira

A importância da melhoria clínica nos primeiros dias de internamento

Alcançar a melhoria clínica nos primeiros dias de internamento, especialmente nos casos mais graves, é algo cuja importância não se discute, até porque a “experiência psicótica”, como lembra Ricardo Moreira, assistente hospitalar graduado no Serviço de Psiquiatria da ULS de São João, “está frequentemente associada a um elevado sofrimento psíquico e às alterações comportamentais que daí advêm, podendo colocar o próprio doente ou terceiros em risco”. E mais: “Sabemos bem que quanto mais tempo passar sem a psicose ser tratada pior será o prognóstico.”


“Para além destes fatores, sem dúvida os mais relevantes, não posso deixar de referir que uma melhoria clínica mais rápida leva a uma diminuição do tempo de demora média dos internamentos. O que, consequentemente, contribui para aliviar a enorme pressão que a atual escassez de vagas nas unidades de internamento de Psiquiatria exerce na gestão dos respetivos serviços/departamentos”, lembra.

Nuno Madeira classifica mesmo de “crucial” essa evolução positiva da situação logo no início do internamento: “Permite reduzir o sofrimento derivado da psicopatologia, para além de diminuir o risco de comportamentos agressivos, favorecendo a normalização da comunicação médico-doente e possibilitando iniciar rapidamente o trabalho de reabilitação e o planeamento da alta.”

Ao contrário, “uma resposta lenta prolonga a desorganização comportamental e o sofrimento, aumenta a necessidade de contenção farmacológica e/ou física, com mais tempo de internamento e afastamento da vida quotidiana, com impacto negativo para o doente, para a sua família e para o Sistema de Saúde”.

“Nos doentes mais graves, a necessidade de um fármaco com eficácia precoce é ainda maior, porque o limiar para complicações é mais baixo e a margem de tempo para erro terapêutico é reduzida”, alerta, afirmando que o estudo RESHAPE documenta bem este ponto:

“A mediana de tempo desde a primeira injeção de Risperidona ISM® até à alta foi de 8 dias, sugerindo um controlo rápido da exacerbação psicótica em contexto real de internamento. Logo na avaliação após uma semana de tratamento observou-se uma redução clinicamente significativa  nas escalas clínicas usadas – CGI‑S (Clinical Global Impression – Severity) e PANSS‑6 (Positive and Negative Syndrome Scale 6-item) –, incluindo nos subgrupos mais graves, com diminuição acentuada da proporção de doentes marcadamente doentes após apenas duas injeções.”

O papel da recuperação funcional precoce no prognóstico e na reintegração social do doente

Ricardo Moreira lembra como, nas últimas décadas, “a evolução da psicofarmacologia, entre outros fatores, tem alterado significativamente a forma como olhamos para a esquizofrenia, nomeadamente no que diz respeito aos objetivos de tratamento e de prognóstico desta doença”. E afirma:

“Se, por um lado, os antipsicóticos de segunda/terceira geração contribuíram para uma manifesta redução da iatrogenia e para um mais eficaz controlo dos sintomas negativos da esquizofrenia, por outro lado, a generalização da utilização dos antipsicóticos de longa duração tem demonstrado um aumento significativo nas taxas de adesão ao tratamento, com consequente diminuição do número de recaídas/reinternamentos e um excelente perfil de tolerabilidade.”

E constata: “Esta evolução tem contribuído para uma melhoria assinalável na recuperação funcional destes doentes, o que, aliado a um diagnóstico cada vez mais precoce da doença, se traduz num progresso substancial em termos de prognóstico da esquizofrenia. Observamos agora doentes com menos efeitos secundários da medicação, com uma maior preservação da esfera volitiva e das suas capacidades cognitivas e, consequentemente, com outras condições para desenvolverem o seu próprio projeto de vida.”

Estas melhorias, associadas às novas políticas de Saúde Mental, com uma vertente mais comunitária, “têm contribuído para uma diminuição do estigma relativamente à esquizofrenia e para uma integração cada vez maior destes doentes na nossa sociedade”.



Ricardo Moreira

Contudo, no entender de Ricardo Moreira, “estamos ainda longe do que é desejável, existindo um longo caminho a percorrer”, considerando premente investir, financeiramente e não só, na saúde mental, no sentido de dotar o país de infraestruturas e de técnicos de saúde especializados que possam tornar esta integração cada vez mais efetiva”.

Nuno Madeira não tem dúvida de que a recuperação funcional precoce é fundamental, pois, “determina, em grande medida, se o doente conseguirá retomar rapidamente rotinas básicas, relações e projetos de vida, em vez de se cingir à melhoria sintomática, mas com persistência da incapacidade”.

Aliás, quanto mais depressa se observar uma evolução positiva em relação à autonomia, à capacidade de autocuidado e ao comportamento social “mais relevante será a redução do risco de nova descompensação logo após a alta”. Para além de que “fica facilitada a continuidade dos cuidados em ambulatório, com uma superior adesão ao tratamento e facilitação da aproximação à família e demais relações”.

Comentando os resultados obtidos com o estudo RESHAPE, em que a dimensão funcional foi avaliada pela escala PSP (Personal and Social Performance), “registou-se um progresso relevante um mês após a primeira injeção de Risperidona ISM®, com ganhos sustentados até ao final do seguimento, que foi, no mínimo, de dois meses”.

Segundo Nuno Madeira, o aumento médio da PSP foi da ordem das duas dezenas de pontos (a pontuação possível varia entre 0 e 100), com redução marcada dos níveis “severo” e “muito severo” de disfunção em domínios como o autocuidado ou os comportamentos perturbadores ou agressivos.

“Estes resultados sugerem que um tratamento eficaz em fase aguda pode favorecer a normalização social, a capacidade de organização do dia‑a‑dia e, no geral, uma melhor qualidade de vida, elementos centrais para um prognóstico mais favorável e uma reintegração sustentável”, conclui.

Uma abordagem eficaz influencia o ambiente do doente e a perceção social da esquizofrenia

Uma abordagem eficaz em fase aguda não transforma apenas o quadro clínico do doente, modifica também o clima relacional com a equipa terapêutica, a família e a restante comunidade envolvente. Nuno Madeira justifica:


“Quando os sintomas psicóticos e os comportamentos desorganizados são rapidamente controlados, reduz‑se o alarme e o desgaste dos cuidadores, bem como o impacto económico direto e indireto associado a internamentos prolongados e a perda de funcionalidade. Isto contribui para que a esquizofrenia não mais seja vista como sinónimo de cronicidade inevitável e antes como uma condição tratável, em que as recaídas não excluem uma possibilidade real de recuperação.”

“A recuperação rápida e sustentada observada no RESHAPE, com um intervalo reduzido entre a primeira injeção de Risperidona ISM® e o momento da alta, associada a uma evolução funcional robusta avaliada pela escala PSP, mostra que é possível estabilizar em contexto real e promover um desempenho social significativo num curto prazo”, destaca Nuno Madeira.

O estudo RESHAPE envolveu ainda a utilização de um instrumento psicométrico de satisfação com o tratamento – o Medication Satisfaction Questionnaire (MSQ). Conclusão:

“Foi registada elevada satisfação com o tratamento, com melhoria da aliança terapêutica na esmagadora maioria dos casos, sugerindo um efeito positivo também na confiança do doente na equipa e na medicação, favorecendo a adesão, a redução do autoestigma e uma melhor reintegração social.”

Ricardo Moreira intervém para reforçar que “quanto mais eficaz for a abordagem terapêutica no controlo dos sintomas positivos e negativos da esquizofrenia melhor será a funcionalidade e a integração do doente no seu seio familiar e na comunidade onde vive”. Tal irá traduzir-se, “necessariamente, numa diminuição do estigma em relação à doença”, embora esteja consciente de que, “apesar de estarmos no bom caminho, é preciso tempo para que esta mudança de perceção seja mais evidente”, isto porque “ainda persistem alguns estereótipos erradamente associados a esta patologia”.


Principais contributos do estudo RESHAPE para a prática clínica na gestão de doentes agudos com esquizofrenia em internamento 

Nuno Madeira considera serem de vária ordem os contributos práticos que os resultados do RESHAPE (Real-world Effectiveness Study of Hospitalized Adult Patients with Schizophrenia Treated with Risperidone ISM®) oferecem para a gestão de doentes agudos com esquizofrenia em internamento.

Em primeiro lugar, diz, “mostram que a Risperidona ISM® permite uma estabilização rápida em contexto real: a mediana de tempo desde a primeira injeção até à alta foi de 8 dias, com melhorias clinicamente significativas na CGIS e na PANSS6 já ao 8.º dia, incluindo nos doentes mais graves. Isto relembra a utilidade dos antipsicóticos injetáveis de longa duração logo na fase aguda, e não apenas como opção de manutenção”.

Depois, sublinha que “o estudo documenta ganhos funcionais relevantes, sugerindo que a escolha de Risperidona ISM® em internamento pode traduzir-se rapidamente em melhor autocuidado, comportamento social e redução de comportamentos perturbadores, com impacto direto na segurança ainda na unidade e na preparação da pós-alta.” Por outro lado, “o perfil de tolerabilidade foi favorável, com baixa taxa de descontinuação relacionada com eventos adversos e elevada satisfação do doente, reforçando que esta estratégia pode ser mantida a longo prazo, ao alinhar fase aguda e manutenção num único esquema terapêutico.”

Para Ricardo Moreira, relativamente aos resultados do RESHAPE, “mais do que a eficácia da risperidona no controlo dos sintomas positivos e negativos da esquizofrenia, que já era conhecida, e do efeito positivo que os antipsicóticos de longa duração de ação demonstram reiteradamente na adesão ao tratamento e na diminuição de recaídas/reinternamentos, gostaria de destacar a rapidez de ação que a Risperidona ISM® (in situ microparticles) demonstrou ter no controlo dos sintomas, com um excelente perfil de tolerabilidade”.

E acrescenta: “Este facto está diretamente relacionado com as características farmacocinéticas desta formulação de risperidona e traduz-se numa diminuição do tempo médio de internamento destes doentes, o que, pelos motivos já apresentados, é uma significativa mais-valia para os doentes e para as unidades de internamento de agudos de Psiquiatria.”


A notícia pode ser lida na edição de janeiro de 2026 do Jornal Médico.

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