Prémio Carreira SPP 2026 atribuído ao pediatra António Vilarinho
António Vilarinho começa logo por confessar à Just News que foi com verdadeira surpresa que recebeu a notícia de que iria ser distinguido pela Sociedade Portuguesa de Pediatria com o Prémio Carreira SPP 2026. “Não estava nada a contar que os colegas se fossem organizar no sentido de me prestarem esta homenagem, que me deixa sensibilizado mas que também me criou logo alguma ansiedade”, admite.
O pediatra, que fez 74 anos há menos de um mês, a 27 de setembro, diz não gostar “deste tipo de exposição” e deixa o aviso de que, muito provavelmente, irá emocionar-se na altura da cerimónia, que vai acontecer amanhã, 23 de outubro. Quem o conhece sabe bem que fala verdade, nomeadamente no que respeita ao facto de ser uma pessoa algo reservada.
O “25 de abril” ainda não tinha acontecido quando António Vilarinho terminou o 7.º ano do liceu. Toda a gente achava que iria para Engenharia, pois, “tinha muito boas notas a Matemática, Física e Química”, mas a ameaça da Guerra Colonial pô-lo a fazer contas: é que o curso de Medicina durava mais um ano, a que se seguiriam outros 2 de internato Geral, depois mais uns quantos para obter a especialidade… “e podia ser que a Guerra acabasse entretanto”. O que realmente se veio a verificar!
Natural do Porto, vivendo a 10 minutos a pé do São João, começou a estudar na FMUP em 1972. Por altura do 3.º ano, um pouco aborrecido com tanta teoria, decidiu ir ao Hospital de Santo António pedir para fazer urgência. “Queria conhecer outra realidade”, justifica. A médica Eva Xavier, chefe de equipa, recebeu-o, acordaram as condições em que o faria, e António Vilarinho passou a cumprir um turno de 12 horas por semana, assim continuando até ao final do curso, em 1978. “Aprendi a fazer muita coisa!”, sublinha.
Acabou por cumprir o internato Geral de 2 anos também no Santo António e o então Serviço Médico à Periferia (SMP) em São João da Madeira. Esperou pela realização do exame de acesso à especialidade, o que veio a acontecer em 1983, começando o internato de Pediatria no ano seguinte, no Hospital de Crianças Maria Pia. Mas porquê Pediatria?!_Logo.jpg)
Finalmente, “internista pediatra”
“Nós acabávamos o internato Geral e o SMP e, enquanto aguardávamos pelo exame, ficávamos alocados a um Serviço, tendo eu escolhido o de Nefrologia. Acontece que certo dia nos apareceu uma criança com insuficiência renal aguda e, com autorização da Dr.ª Eva Xavier, que era a diretora do Serviço, eu e o Dr. Morais Sarmento, um nefrologista com quem me dava muito bem, decidimos submetê-la a hemodiálise. Sobreviveu, embora não recuperando da situação de falência renal”, conta, prosseguindo:
“Entretanto, dizem-me haver um colega do Maria Pia, o Dr. Avelino Oliveira, que queria desenvolver ali a Nefrologia. E foi incentivado pelo Dr. Morais Sarmento e pela Dr.ª Eva Xavier, que consideravam que eu já tinha alguma experiência nessa área específica, que acabei a ocupar uma vaga de Pediatria naquele hospital, fazendo o meu internato entre a Nefrologia e a Pediatria Médica.”
E é assim que António Vilarinho aparece envolvido na criação da primeira Unidade de Hemodiálise Infantil em Portugal, na implementação de programas de diálise peritoneal e na realização do primeiro transplante renal pediátrico na região norte, efetuado pela equipa do Santo António.
Já era especialista há 3 anos quando, em 1993, participou ativamente na criação da Unidade de Cuidados Intensivos Neonatais e Pediátricos do Maria Pia, “mantendo o apoio à Nefrologia ao fim de semana”.
O percurso profissional do nosso entrevistado sofre uma mudança significativa quando decide aceitar o convite para dirigir a Pediatria do Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia / Espinho, onde chega em maio de 1999. Não só pela tarefa que iria ter de desenvolver um Serviço que era, na altura, o único a sul do rio Douro vocacionado para formar pediatras com interesse em áreas específicas, mas também porque iria ter oportunidade de se assumir, finalmente, como “internista pediatra”.
Embora a prometida mudança do Serviço de Pediatra da Unidade 2 do então CH para o Hospital Eduardo Santos Silva só tenha acontecido uma dúzia de anos depois do que lhe fora dito, António Vilarinho recorda com saudade essa fase da sua vida, garantindo não ter sido nada difícil, como diretor do Serviço, ter de gerir pessoas. Como é isso possível? “Então, ia pedindo e elas iam fazendo!”
“A minha prioridade foi sempre promover os mais jovens, mas deixando-os ir, permanecendo na retaguarda, apontando caminhos, ouvindo-os, tirando dúvidas, estimulando o seu crescimento. Aliás, considero que os internos são uma peça fundamental para dinamizar e permitir o desenvolvimento de um Serviço”, refere, acrescentando:
“Parece que, por vezes, os colegas mais velhos comentariam que eu tratava melhor os internos, mas julgo que isso resultava da circunstância de eu ser, por ventura, mais exigente com os especialistas.”
António Vilarinho defende que, “para liderar convenientemente um Serviço é preciso estarmos atentos e sabermos ouvir as pessoas, tentando perceber se as coisas estão a correr bem, não só no hospital, mas também a nível pessoal. Pode ser muito importante aliviar a pressão sobre alguém que atravessa um período menos favorável. Afinal, nós ainda não somos robôs!”_Logo.jpg)
Desde a Primária que o tratam por Vilarinho…
António Cândido dos Santos Vilarinho nasceu e viveu dois terços da sua vida na freguesia de Paranhos, portanto, sempre muito próximo do São João. Mesmo depois de se mudar para o vizinho concelho de Matosinhos, não estará a mais de 800 metros do hospital que frequentou apenas enquanto estudante da FMUP.
Com uma irmã 18 meses mais velha, já falecida, a mãe era doméstica e o pai camionista. “Tinha uma sociedade de dois camiões com um tio meu e, na altura em que era estudante de Medicina, cheguei a acompanhá-lo, para ajudar nas cargas e descargas”, revela António Vilarinho.
Praticante de andebol até aos 34 anos (campeonato distrital), é casado com Laura Vilarinho, farmacêutica, investigadora do INSA e coordenadora do Programa Nacional de Rastreio Neonatal. Têm duas filhas. A mais velha é médica, tendo-se dedicado mais às doenças do fígado, e reside em São Francisco. A mais nova é engenheira civil.
António Vilarinho tem 5 netos, com 14, 12, 10, 6 e 2 anos, dois a viver nos EUA e três no Porto. Já ouviu da sua mulher o comentário de que está a dar aos netos a atenção que não deu às filhas. Reconhece ser verdade. Com 4 anos de diferença, o seu nascimento coincidiu, aliás, com a fase do internato da especialidade e da participação do pai no desenvolvimento da Nefrologia Pediátrica.
Havia tantos Antónios no tempo de Salazar que desde a Escola Primária que todos o tratam por Vilarinho, incluindo a sua mulher. Agora que está reformado, já percebeu que vai ter que se habituar a uma nova realidade: “Fui há dias tratar de um assunto ao centro de saúde e, a certa altura, ouvi chamar pelo Sr. António…”
Importa deixar registado que, tendo sido diretor clínico do CHVNG/E entre 2004 e 2006, deixou de dirigir o Serviço de Pediatria em 2017, altura em que assumiu a Direção da Unidade de Gestão da Mulher, Criança e Adolescente. Cargo que manteve até maio de 2025, embora já estivesse aposentado da Função Pública desde setembro de 2022.
E ainda se deve acrescentar que desempenhou funções na Sociedade Portuguesa de Pediatria e na Ordem dos Médicos, tendo chegado a presidir ao Colégio de Pediatria Médica em 1997.


