Oncologia nos cuidados primários: potenciar recursos pelo «bem-estar biopsicossocial do doente»

"O tema da Oncologia é, cada vez mais, inevitável de abordar nos cuidados de saúde primários", começa por afirmar Gracinda Dias, enfermeira da unidade de saúde familiar (USF) Nova Via.

Em declarações à Just News, sublinha que "cada vez mais surgem doentes oncológicos, em que a primeira abordagem é efetuada pelo médico de família e pelo respetivo enfermeiro. Estes são, assim, os primeiros a escutarem o doente, as suas queixas, os seus medos, as suas incertezas...".

Foi partindo desta realidade que profissionais do Centro de Saúde Boa Nova, que integra a USF Nova Via, decidiram dedicar a 1.ª edição das suas Jornadas à discussão exclusiva de temas relacionados com a Oncologia.



"Fazia sentido reunirmos e prepararmos um evento multidisciplinar, já que o doente oncológico e a família necessitam de todas as unidades envolvidas e todos os profissionais têm como objetivo o bem-estar biopsicossocial do doente", explica a enfermeira, que assume o papel de coordenadora das I Jornadas da Saúde Boa Nova, um evento que se vai realizar no Auditório do Parque Biológico de Gaia, dentro de duas semanas.

Para Gracinda Dias, as Jornadas "vão ajudar a identificar as lacunas existentes e contribuir para uma melhor comunicação entre as várias Unidades" e acrescenta:

O caminho faz-se caminhando, portanto, estamos a caminhar no sentido de potenciar todos os recursos humanos e materiais para que o doente oncológico esteja no conforto do seu lar, rodeado da sua família, e usufrua dos cuidados médicos e de enfermagem, sem estar em ambiente hospitalar."

"É importante que o doente sinta que trabalhamos em equipa"

Relativamente ao impacto do cancro, a enfermeira recorda que, "hoje em dia, ao contrário de antigamente, cancro não significa sentença de morte". Nesse sentido, os doentes são submetidos a tratamentos, "regressam ao seu domicílio e necessitam de cuidados médicos e de enfermagem. O tempo de vida é prolongado."

Assim, "é necessário e fundamental que exista uma relação terapêutica eficaz e que o doente sinta todo o apoio psicológico, numa abordagem que seja uma continuidade de cuidados". Destaca também "ser fundamental que exista uma ponte entre os CSP e o Hospital e é importante que o doente sinta que trabalhamos em equipa, que conhecemos o seu problema e estamos todos a tentar ajudá-lo."


Elementos da Comissão Organizadora das I Jornadas da Saúde Boa Nova

Das três dezenas de elementos que integram a Comissão Organizadora, cerca de metade são médicos e outra metade enfermeiros. Questionada sobre se houve alguma preocupação em manter equilibrada a equipa, Gracinda Dias explica que "surgiu de forma natural, já que, habitualmente, o número de enfermeiros e médicos está equilibrado".

Internos com "participação inexcedível"

Ângela Teixeira, diretora do Internato Médico Santos Silva (DISS), integra as comissões científica e organizadora do evento e não hesita em destacar a "participação inexcedível dos três internos de formação específica de Medicina Geral e Familiar do 1º ano no planeamento, coordenação, organização e implementação das Jornadas".

Relativamente à decisão das I Jornadas da Saúde Boa Nova serem dedicadas à Oncologia, explica que "foi uma decisão ponderada, tendo em conta que as doenças oncológicas são a segunda causa de morte em Portugal, devido ao envelhecimento populacional e às mudanças de estilo de vida. Aliás, o Plano Local de Saúde do ACES Espinho Gaia 2017-2020 contempla 2 tumores como prioridades: cólon e reto e traqueia."

Nesse sentido, acrescenta, "a Comissão Organizadora e a DISS constataram uma lacuna na formação nesta área e por isso surgiram com naturalidade estas Jornadas".


Ângela Teixeira

Em declarações à Just News, a médica da USF Nova Via faz questão de mencionar o dinamismo dos 60 médicos internos, "distribuídos pelos Agrupamentos dos Centros de Saúde (ACES) Gaia e Espinho-Gaia, de forma equitativa, colocados em 14 Unidades de Saúde Familiar e em 2 Unidades de Saúde Personalizados".

Recordando que "todos os internos desenvolvem ao longo do internato trabalhos de investigação e de melhoria contínua da qualidade/intervenção na comunidade, no contexto dos Cuidados de Saúde Primários", Ângela Teixeira menciona dois trabalhos em curso:

"Neste momento está a decorrer na Unidade de Saúde Familiar Nova Via um projeto de intervenção que tem por base o Programa “Anos incríveis – pais e bebés”, em parceria com o Centro Hospitalar Vila Nova de Gaia/Espinho. Há outro estudo “AFIGARV – caracterização da atividade física da gravidez” que também está em fase de colheita de dados e que envolve várias unidades da nossa DISS."


Tudo o que uma UCC "tem para oferecer"

Não é habitual uma Unidade de Cuidados na Comunidade (UCC) estar representada na organização de eventos no âmbito dos cuidados de saúde primários.

Para Goreti Ferraz, enfermeira na UCC Tempus e membro da Comissão Organizadora, é importante que esta realidade se altere e espera que esta inclusão e envolvimento possa ser "um incentivo para outras unidades, pois, cada vez mais, as parcerias potenciam a melhoria e qualidade dos cuidados. No caso, falamos de parcerias de unidades que trabalham em prol dos mesmos utentes dos CSP."

Na sua opinião, "é importante divulgar cada unidade e a natureza do seu âmbito de ação" e, nesse contexto, em eventos desta natureza "dá-se mais uma oportunidade de perceber o conceito de UCC – Unidade de Cuidados na Comunidade e tudo o que esta tem para oferecer".


Goreti Ferraz e Carla Silva

Uma iniciativa que "uniu todas as valências"

Já quanto aos principais desafios com que, especificamente, os enfermeiros de família têm de lidar no contexto da Oncologia, Carla Silva, enfermeira da USF Boa Nova, refere "o lidar com a morte, com as mudanças físicas que aquele utente vai ter, como ajudá-lo, como motivá-lo… No fundo é também um gerir de emoções muito marcante para ele e para a família."

Para a profissional, que integra igualmente a Comissão Organizadora, tal como Goreti Ferraz, "muitas vezes a dor é física, mas com uma vertente psicológica muito mais marcada. Deste modo, como enfermeiros de família, temos de saber lidar e ajudar a lidar com a patologia e, se for caso disso, com o luto da própria família. Destaca-se, assim, o acompanhamento efetuado ao utente desde o nascimento até à morte."

Questionada sobre o facto da coordenadora das jornadas ser uma enfermeira, o que também não é algo muito habitual, Goreti Ferraz afirma que "o seu empenho é de louvar", mas destaca, acima de tudo, "o trabalho em equipa que, pela primeira vez, uniu todas as valências do Centro de Saúde Boa Nova: as USF Nova Via e Boa Nova, a UCC Tempus e a Unidade de Saúde Pública do ACES Grande Porto VIII - Espinho/Gaia, e que permitiu a obtenção deste resultado".



Agendadas para dia 15 de junho, as I Jornadas de Saúde Boa Nova, de inscrição gratuita, vão realizar-se no Auditório do Parque Biológico de Gaia. O empenho da Comissão Organizadora na preparação de um programa científico atrativo e na respetiva divulgação do evento levou a que as últimas vagas se tenham esgotado um mês antes. 

"Aproveitamos para agradecer a todos os que se inscreveram e pedir desculpa aos que já não se conseguiram inscrever", afirma Carla Silva, desejando que o evento "ajude a debater e esclarecer algumas dúvidas e que, assim, dele consigamos sair enriquecidos".


Para mais informações: jornadasboanova@gmail.com
O programa e outras informações podem ser consultadas no site das Jornadas.

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