O psiquiatra e psicanalista que defendia «o encontro emocional autêntico como fonte de vida»

“Mais amor, menos doença.” Este é a principal mensagem deixada por António Coimbra de Matos, falecido no passado dia 1 de julho, segundo Patrícia Câmara, membro da direção da Associação Portuguesa de Psicanálise e Psicoterapia Psicanalítica e vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Psicossomática.

Na sua opinião, António Coimbra de Matos "foi e continuará a ser uma figura de referência na área da Saúde Mental, particularmente na Psicanálise". Dos vários legados, considera que o principal foi alertar para a relevância da “relação como fonte de mudança e transformação”.

Sublinha que “o Professor teve a ousadia de falar sobre o amor, ou seja, a importância de sermos reconhecidos pelos outros na nossa essência, para nos podermos desenvolver o melhor possível.”

Em suma, considera que António Coimbra “defendia o encontro emocional autêntico como fonte de vida. E falou sobre este tema sem qualquer receio, nalguma linguagem simples, acessível e transformadora do ponto de vista social.”


Patrícia Câmara e António Coimbra de Matos

"Amor é reconhecimento, é a possibilidade de mergulhar com alguém na sua vida"

Com base numa visão biopsicossocial, a psicóloga e psicanalista frisa como é importante "não olhar apenas para a doença" e como faz toda a diferença não se ficar pelo alívio dos sintomas de uma dada perturbação mental:

“É preciso trabalhar a componente da relação, quer com os outros como consigo próprio. O Professor dizia que amor é reconhecimento, é a possibilidade de mergulhar com alguém na sua vida, aceitando-a.”

Associada a esta visão está também a relação terapeuta-paciente, porque, sublinha, “a entrega relacional é o que permite a transformação da pessoa”.

"Imortalidade simbólica"

Patrícia Câmara destaca ainda outros cunhos do psiquiatra, tal como "o conceito de imortalidade simbólica, como forma de manter viva, dentro de nós, a outra pessoa, mesmo que não esteja já presente fisicamente".

No âmbito da Psicanálise, a especialista realça a “visão revolucionária” de António Coimbra de Matos sobre questões mais metodológicas, nomeadamente ao defender que a frequência das sessões de psicanálise deveria adequar-se as necessidades de cada pessoa e não estar previamente definida. Opôs-se veementemente contra a ideia de uma neutralidade técnica na intervenção psicanalítica.



Uma longa carreira na Saúde Mental

António Coimbra de Matos foi psiquiatra, pedopsiquiatra e psicanalista, tendo nascido em 20 de dezembro de 1929, em Galafura, uma aldeia perto do Peso da Régua. Mas é no Porto, para onde foi morar aos 10 anos, que se licencia em Medicina.

Acabou por rumar a Lisboa, tendo sido diretor do Centro de Saúde Mental Infantil e Juvenil de Lisboa, que, mais tarde, foi integrado no Departamento de Pedopsiquiatria do Hospital Dona Estefânia. A depressão era a sua doença de eleição.

Pertenceu à Sociedade Portuguesa de Psicanálise, mas por algumas incompatibilidades associadas à técnica psicanalítica, acabou por criar e ser presidente honorário da Associação Portuguesa de Psicanálise e Psicoterapia Psicanalítica.

Além disso, foi ainda presidente da Sociedade Portuguesa de Psicossomática, do Colégio de Psiquiatria da Infância e Adolescência da Ordem dos Médicos e docente na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Lisboa e no Instituto Superior de Psicologia Aplicada.

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