«O mais importante para os nossos doentes com insuficiência cardíaca é viverem sem sintomas»

Particularmente dedicada à insuficiência cardíaca (IC) há quase duas décadas, Irene Marques, especialista em Medicina Interna da ULS de Santo António, resolveu avaliar os resultados dos tratamentos e de outras intervenções em doentes com aquela patologia sob um prisma diferente do habitual.

Quis perceber o que contribuía mais para a qualidade de vida das pessoas com IC e chegou à conclusão de que o importante é não terem sintomas nem sofrerem de eventos associados à doença e implantar, quando tal esteja indicado, um dispositivo de ressincronização cardíaca com função de pacemaker. O trabalho de investigação desenvolvido acabou por dar origem à tese de doutoramento que a médica defendeu com êxito no final de janeiro deste ano.


Irene Marques

A insuficiência cardíaca é uma síndrome que afeta principalmente idosos. Sabendo-se que 25% da população portuguesa tem mais de 65 anos, é significativo que uma em cada quatro pessoas com 70 ou mais anos sofra de IC. A estes dados Irene Marques acrescenta ainda que esta patologia é a causa mais frequente de hospitalização nos indivíduos com idade superior a 65 anos e que apresenta uma mortalidade aos 5 anos mais elevada do que algumas das neoplasias malignas mais comuns.


“Para além de que os estudos mostram que os doentes com IC avançada têm uma maior carga de sintomas e pior qualidade de vida do que as pessoas com uma neoplasia avançada”, afirma a internista da ULS de Santo António. E esclarece: “A qualidade de vida é um endpoint independente nos ensaios clínicos sobre IC e as recomendações internacionais preconizam a sua avaliação na prática clínica diária.”


A investigação sobre este tema surgiu, justifica Irene Marques, “como uma necessidade de compreender melhor o impacto da IC e dos cuidados de saúde em pessoas mais velhas”. Ao criar e implementar no Hospital de Santo António, mais precisamente no seu Serviço de Medicina Interna, o Grupo de Estudos de Insuficiência Cardíaca (GEstIC) – que funciona como uma autêntica clínica multidisciplinar de IC –, a médica haveria de perceber uma coisa:

“Constatei que os resultados dos tratamentos e intervenções aplicados aos doentes com IC eram medidos com base em dados de mortalidade e hospitalizações, sendo que, na realidade, cerca de metade das pessoas a quem os aplicávamos tinham mais de 80 anos. Por isso, senti a necessidade de valorizar os resultados de outro ponto de vista, considerando antes a qualidade de vida desses doentes.”

“Esta avaliação pareceu-me ainda mais importante porque a maioria dos casos que seguíamos era de IC com fração de ejeção preservada, constituindo um grupo para o qual nenhuma terapêutica havia, até então, provado mudar o prognóstico em termos de mortalidade e de hospitalizações”, comenta Irene Marques.

A sua tese de doutoramento, intitulada “Quality of life in heart failure: what matters”, englobou 14 publicações de vários estudos de investigação que caracterizaram e estabeleceram o prognóstico de doentes hospitalizados por IC no Serviço de MI da ULS de Santo António.

Isto relativamente à mortalidade intra-hospitalar, ao papel dos peptídeos natriuréticos na orientação da terapêutica durante o internamento e na previsão de eventos após a alta hospitalar, assim como também identificaram fatores preditores independentes de reospitalização e de mortalidade no primeiro ano após alta.

Para além disso, a médica recorreu ainda aos resultados do estudo GEstIC, que avaliou o impacto dos primeiros anos de atividade do projeto, e QUALIFIER, que identificou os fatores com impacto significativo na qualidade de vida dos doentes seguidos no GEstIC. Considerou de igual modo o estudo que validou para português o questionário, que classifica de “pragmático e específico”, para avaliação da qualidade de vida relacionada com a IC, o Minnesota   Living with Heart Failure Questionnaire (MLHFQ).


A entrevista completa com Pedro Guimarães Cunha pode ser lida na edição de julho 2026 do Jornal Médico.

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