O doente idoso

“É hoje bem conhecido que os idosos doentes diferem muitas vezes dos doentes adultos não idosos, pelas manifestações das doenças e descaracterização dos quadros clínicos definidos nos grandes tratados de Medicina Interna.” A afirmação é de João Gorjão Clara, coordenador da Unidade Universitária de Geriatria da FMUL/Academic Medical Center/CHLN.

De acordo com o também regente da área disciplinar de Introdução às Doenças do Envelhecimento (Geriatria) da FMUL, frequentemente, também diferentes estados patológicos se manifestam de modo igual no doente idoso que chega à urgência. “Prostração, confusão, agitação, desidratação… são, quantas vezes, os sinais e sintomas de diversas morbilidades que exigem aturado esforço de diagnóstico”, afirma, desenvolvendo que “o órgão ou sistema que dá sinais e sintomas é o que mais sofre com a agressão mórbida e nem sempre o que é sede da doença”.

Adicionalmente, João Gorjão Clara sublinha que a ocorrência no idoso de múltiplas patologias em simultâneo é quase a regra. “A abordagem terapêutica, já de si diferente da convencional para o doente não idoso, complica-se pelas interações farmacológicas, pela medicação inapropriada e pela polifarmácia. Otimizar a assistência ao doente idoso é, pois, um dos objetivos da Geriatria. Mas não é só este.”

O especialista sublinha que não é objetivo da Geriatria prolongar a vida, mas permitir que o idoso viva sem sofrimento e com a qualidade necessária para que valha a pena viver. E adianta que, com o reconhecimento pela Ordem dos Médicos, em 31 de maio de 2013, da competência em Geriatria, a preparação dos clínicos nos conhecimentos desta área será outro dos objetivos.

O interesse de João Gorjão Clara pela Geriatria tem-lhe ensinado que o doente muito idoso tem comprometida a homeostasia, como característica de envelhecimento biológico, ou seja, “a capacidade de responder, reequilibrando”.

Um sistema orgânico que perdeu capacidade de resposta tem dificuldade em regular o equilíbrio da temperatura corporal nas mudanças marcadas da temperatura ambiente, de responder com as defesas imunológicas adequadas aquando de uma infeção, de regular a pressão arterial ao perder algum volume plasmático”.

“Estas reconhecidas características do idoso fazem dele um ser biológico em equilíbrio instável”, aponta, comparando-o à imagem de um equilibrista, que, “de braços estendidos, caminha na corda bamba e se um pássaro lhe pousar num braço isso será o suficiente para que perca o equilíbrio e caia”.

Quando subitamente surgem sintomas e sinais de doença, João Gorjão Clara refere que a sua primeira preocupação é procurar perceber o que foi que o desequilibrou. Um novo fármaco? Uma infeção oculta? Um trauma psicológico? O especialista recorda, ainda, que o doente geriátrico não se define pela idade, como em 1948 o fez, no Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido, Marjory Warren,
a mãe da Geriatria. “Na atualidade, o doente geriátrico é de facto idoso, mas, além disso, tem alto grau de fragilidade, múltiplas patologias de diagnóstico difícil, abordagem holística e decisões terapêuticas complexas”, afirma, concluindo que “a Geriatria tem o papel fundamental de otimizar o estado funcional, melhorar a qualidade de vida e a autonomia do doente idoso”.

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