«O acesso a cuidados de imunoalergologia depende imenso do país onde se nasce»

Quando no dia 1 de janeiro de 2025 o imunoalergologista Mário Morais de Almeida iniciou o seu mandato como presidente da World Allergy Organization (Organização Mundial de Alergia, em português) já estava claramente convicto de que “produzir ciência de excelência não é suficiente se essa ciência não chegar às pessoas”.

“Em imunoalergologia, o paradoxo é particularmente duro: tratamos as mesmas doenças, com a mesma base biológica e a mesma evidência científica, mas o acesso aos cuidados depende dramaticamente do país onde se nasce”, afirma. E acrescenta: “Pensar globalmente é importante, mas já não chega. É preciso agir sobre as desigualdades.”

No último ano, “tive oportunidade de viajar e trabalhar diretamente com colegas em vários continentes, como em África e no Sudoeste Asiático, e isso foi determinante para concluir ser mesmo necessário fazer alguma coisa para combater a disparidade de situações que existe”. Como por exemplo?

“Em países africanos encontrei profissionais altamente qualificados, profundamente comprometidos, a lidar diariamente com anafilaxias sem acesso imediato a adrenalina, ou com doentes com angioedema hereditário sem diagnóstico ou terapêuticas seguras. No Sudoeste Asiático, a realidade é de igual forma heterogénea: centros de excelência convivem com regiões onde as terapêuticas básicas simplesmente não estão com frequência acessíveis.”

“Estas experiências mudam a forma como olhamos para guidelines e recomendações. Obrigam-nos a pensar em aplicabilidade real. Em recursos, em algoritmos, em justiça...”, desabafa.

Mário Morais de Almeida esclarece que tem procurado afirmar a WAO como uma organização “orientada para a ação”. E de que forma? “As recomendações globais em áreas como a anafilaxia, o angioedema hereditário, a tosse crónica ou a remissão das doenças alérgicas foram pensadas desde o início com uma pergunta central: ‘Será que isto pode ser usado em qualquer parte do mundo?’ A evidência científica continua a ser o alicerce, mas passou a ser acompanhada por uma reflexão ética e prática sobre equidade, sustentabilidade e adaptação aos contextos locais.”


“Ver de perto as desigualdades torna impossível a indiferença”, afirma Mário Morais de Almeida


Exemplos concretos de desigualdades não faltam, sendo até, sublinha, “demasiado frequentes”. É o que acontece com os dispositivos para autoadministração de adrenalina, um medicamento essencial e que salva vidas, “que continua indisponível ou inacessível em grande parte do mundo, fazendo com que crianças continuem a morrer por anafilaxia tratável”.


O mesmo se passa relativamente às terapêuticas biológicas para alergia alimentar, “suportadas por dados científicos robustos, permanecem aprovadas apenas em contextos muito limitados e somente nos EUA”. No angioedema hereditário, “muitos doentes continuam sem acesso a terapias seguras”.

“Estas não são falhas da ciência, são falhas dos sistemas”, frisa Mário Morais de Almeida, que considera que a WAO “não pode e não deve limitar-se a produzir conhecimento e assegurar educação”.

“Tem de ser uma voz ativa junto de decisores políticos, reguladores, organizações internacionais e parceiros globais e locais. Defender o acesso a tratamentos essenciais, apoiar a formação de especialistas em regiões em desenvolvimento e promover padrões mínimos globais de cuidados tornou-se parte integrante da nossa missão. Em África, por exemplo, investir em educação médica e diagnóstico básico tem um impacto imediato e transformador”, assevera.

Vale a pena olhar para estes números: nos países desenvolvidos, como em Portugal, existe pelo menos um especialista para cada 50.000 habitantes, enquanto em algumas nações asiáticas há apenas 1 para cada 4 ou 5 milhões e em África ainda é pior, somente 1 para 80 milhões de pessoas!

Mário Morais de Almeida considera “essencial apoiar jovens alergologistas, criar redes regionais e facilitar o acesso à formação contínua para quebrar ciclos de desigualdade”. Sublinha mesmo que em vários países africanos e asiáticos “formar um especialista significa criar um ponto de mudança para milhões de doentes”.


A entrevista completa pode ser lida na edição de fevereiro 2026 do Jornal Médico.

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