«Nos últimos 40 anos os inaladores ficaram mais simples, contudo, a taxa de erros continua elevada»
Há 20 anos muito dedicado à formação, especialmente na área das doenças respiratórias, pois, já leva mais de década e meia de ligação estreita ao GRESP -APMGF , Eurico Silva é, desde 2022, assistente graduado de MGF . Médico de família na USF João Semana, em Ovar, começou a ter responsabilidades ao nível do Internato Médico em 2023.
E, se não sabia, fica agora a saber que também possui uma licenciatura em Ciências Farmacêuticas, tendo mesmo chegado a trabalhar em duas farmácias comunitárias no início da sua vida profissional. Deve-se ainda acrescentar que integra o grupo de formadores fixos do Allergy & Respiratory Summit, um projeto educacional diferenciador que já vai, como se sabe, na sua 3.ª edição.
Eurico Silva
A ligação de Eurico Silva à formação, algo que tanto o atrai, começou por volta de 2006, ou seja, há duas décadas. Tinha-se licenciado em Ciências Farmacêuticas uns 3 anos antes e já havia iniciado o curso de Medicina quando lhe propuseram dar formação a farmacêuticos e técnicos de farmácia, no âmbito de uma série de cursos sobre administração de injetáveis realizados em vários locais do país. Como, entretanto, já tinha trabalhado em ambiente de farmácia – e, reconhece, “sempre gostei de ensinar, ou melhor, de partilhar”, sentiu-se à vontade para cumprir com essa tarefa.
Foi depois de ter dado um curso sobre doenças respiratórias, ainda para técnicos de farmácia – era então interno do 2.º ano de MGF –, que resolveu propor a realização de um workshop sobre técnica inalatória num Congresso Nacional da APMGF.
“Eu pensava que iria ter umas 20 pessoas a assistir e, a certa altura, a sala encheu-se com 140 médicos a ouvir aquilo que se transformou quase numa palestra!”, recorda.
Foi nessa altura que dois elementos do Grupo de Estudos de Doenças Respiratórias da APMGF, Ana Margarida Cruz e Alexandra Pina, se aproximaram de Eurico Silva e lhe disseram que tinha de conhecer Jaime Correia de Sousa, então coordenador do GRESP.
“Foi aí que verdadeiramente tudo começou, porque acabei por entrar no GRESP numa fase de formação interna, em que se promoviam muitas sessões para formar formadores. Foi um grande empurrão para se criar ali um grupo coeso que ainda se mantém”, sublinha.
Ainda durante o internato, envolveu-se em muitas outras áreas para além da respiratória, fazendo formação, por exemplo, sobre terapêutica injetável na diabetes. “Eu sabia bem as dificuldades que tinha tido quando comecei a trabalhar numa farmácia. Aliás, tinha acabado o curso sem nunca termos falado em inaladores. Aprendemos a fazer desde injetáveis a comprimidos, cremes e supositórios, mas nunca mexemos em inaladores ou insulinas”, comenta.
“Lidar com inaladores implica uma aprendizagem que, acima de tudo, exige manuseio, exige capacidade de identificação do erro e saber ensinar”
Em todo o caso, Eurico Silva deixa claro que “lidar com inaladores implica uma aprendizagem que, acima de tudo, exige manuseio, exige capacidade de identificação do erro e saber ensinar”. No seu entender, “entramos em níveis de aprendizagem que não é viável conseguir atingir na faculdade ou numa simples palestra”.
“Para uma correta utilização do inalador por parte do doente é necessária a intervenção de todos os profissionais de saúde envolvidos, não podeser apenas o médico, ou o enfermeiro ou o farmacêutico. E todos têm que ter a mesma base de conhecimento e saber ensinar de igual forma, com as mesmas técnicas e uma revisão constante, que é o que tende a acontecer igualmente com a administração de insulina e outros análogos”, considera o nosso entrevistado, frisando:
“São medicamentos que, de facto, exigem alguma aprendizagem técnica. Há muitos estudos a mostrar que nos últimos 40 anos os inaladores ficaram mais simples, contudo, a taxa de erros continua elevada. Quando promovemos um workshop sobre inaladores é preciso que os profissionais que estejam presentes tenham depois a coragem de dar o salto, que consiste em começar a ensinar, a mexer e a corrigir. E é este aspeto que torna tudo mais difícil.”
Eurico Silva diz que houve uma altura em que se interrogou: “Bem, o workshop parece bom, mas não está a ensinar aquilo que era previsto!” Ou seja, “numa primeira fase, importa conhecer os diferentes tipos de inaladores e saber como é que funcionam, mas a seguir é essencial identificar os erros”.
Foi então que passou a incluir nas ações de formação vídeos em que são propositadamente cometidos erros na utilização dos inaladores, sendo os formandos convidados a identificá-los. Mas, prossegue, “falta ainda uma outra componente que é difícil de fazer num workshop, que é como ensinar o doente a usar corretamente o inalador. Agora, propomos que um formando simule o ensino a outro para treinar essa competência”.
Eurico Silva até já foi convidado para fazer formação a internistas e a pediatras, estando mesmo convencido de que “qualquer médico que trabalhe com inaladores pode ser um especialista na matéria”. Os enfermeiros talvez constituam o grupo profissional com que mais contactou:
“Procuramos ter enfermeiros capacitados em doenças respiratórias, que saibam, com as componentes básicas, distinguir a DPOC e a asma, perceber a diferença entre um inalador de alívio e um inalador de manutenção, ou, por exemplo, aplicar e interpretar um questionário de controlo de asma ou DPOC.”
A entrevista completa foi publicada no Jornal Allergy & Respiratory Summit 2026.


