“Esta Consulta nasceu da minha inquietação com a doença CDV”
Esta é a história de uma consulta que não é nada comum em Portugal e que existe graças à vontade e à perseverança da uma enfermeira transmontana, que a iniciou no São João em 2019 e a viu ser operacionalizada em novembro de 2025.
“Há coisas que só se percebem quando se está na linha da frente!”, garante Manuela Fonseca, deixando bem claro o seguinte: “A minha inquietação com a doença cardiovascular não nasceu numa sala de aula nem da leitura de uma diretriz, mas sim no Serviço de Urgência, há mais de 20 anos, a ver chegar, um atrás do outro, enfartes e AVCs.”
Eram “tantos e tão repetidos” que a enfermeira acabou a questionar-se sobre quantos desses episódios não poderiam ter sido evitados. Foi a pergunta que a acompanhou daí para a frente e que, muitos anos depois, daria origem à Consulta de Enfermagem de Fatores de Risco Cardiovascular que realiza no Hospital de São João.
Quando integrou a Consulta Externa de Cardiologia naquela unidade hospitalar do Porto, Manuela Fonseca percebeu claramente que os utentes apresentavam um profundo défice de literacia cardiovascular:
“As pessoas conheciam mal os seus próprios fatores de risco e, sobretudo, ignoravam o que estava ao seu alcance para os controlar. Sabiam o nome dos medicamentos, mas não a razão pela qual os tomavam. Tinham hipertensão, dislipidemia, excesso de peso… mas raramente havia quem se sentasse com elas o tempo suficiente para transformar diagnósticos em decisões do dia-a-dia. Esse espaço vazio era, para mim, evidente. E evitável!”1_Logo.jpg)
Manuela Fonseca
Estávamos em 2019 quando Manuela Fonseca decidiu que tinha que fazer alguma coisa, “por convicção e não por decreto”. Organizou dossiers em papel, agendou as primeiras consultas de enfermagem e começou a acompanhar e a seguir os doentes de forma estruturada. Não havia sistema informático, nem agenda própria, apenas um gabinete e “a determinação de fazer diferente”.
Confessa que “nem sempre foi fácil”. No início, “as equipas de saúde tiveram alguma dificuldade em entender o objetivo de uma consulta de enfermagem dedicada aos fatores de risco cardiovascular”. Mas diz compreender porquê: “Era algo novo, sem lugar óbvio no organograma habitual dos cuidados hospitalares!”
Mas aconteceu uma coisa que ainda hoje diz recordar com particular satisfação: “Foram os próprios doentes que validaram a consulta. Passaram a procurar-me sistematicamente, a regressar, a trazer dúvidas. À medida que isso se tornava rotina, as equipas foram percebendo que se estava a fazer algo de diferente e a interessarem-se por saber o quê. A consulta não se impôs por argumentos, mas sim por resultados.”
Com o eclodir da pandemia de covid-19, Manuela Fonseca tomou a decisão de não suspender a consulta, chegando a facultar o seu número de telemóvel aos doentes, para que estes se sentissem acompanhados, numa altura em que o isolamento e o medo ameaçavam desfazer meses de trabalho.
“A adesão terapêutica não podia ser vítima colateral da pandemia. E não foi. Aprendi, nesses meses, que a proximidade é, em si mesma, uma intervenção clínica”, observa.
Uma consulta com registo informático, bem como agendamento e marcação autónomos
Sete anos depois do seu arranque, chegados a 3 de novembro de 2025, deu-se o passo que faltava, com a Consulta de Enfermagem de Fatores de Risco Cardiovascular a passar a registo informático, com agendamento e marcação autónomos.
“Pode parecer um detalhe técnico, mas não é. Foi a passagem do improviso à instituição, com o reconhecimento de que aquilo que começou num dossier de papel tinha lugar próprio no funcionamento do Serviço de Cardiologia”, sublinha a enfermeira.
Atualmente, Manuela Fonseca dedica por inteiro os dias de segunda-feira à consulta. A referenciação dos doentes é feita diretamente pelos cardiologistas do Hospital de São João e, mais recentemente, tem também origem nas consultas de Insuficiência Cardíaca e de Hipertensão e Risco Cardiovascular asseguradas pela Medicina Interna.
“O círculo de quem confia neste trabalho tem vindo a alargar-se!”, comenta, com satisfação, a enfermeira, que adianta ter acompanhado nos primeiros oito meses de registo informático 76 utentes, num total de 212 consultas. “Não são contactos únicos, são percursos!”, esclarece.
A primeira consulta demora cerca de uma hora. Porque, afinal, “é aí que se conhece verdadeiramente a pessoa – a sua história, os seus receios, as suas comorbilidades, a sua vida real, aquela onde os conselhos têm de caber”. As consultas seguintes têm uma duração aproximada de 30 minutos e ajustam-se às necessidades de cada um.
“Para cada doente há um plano individualizado. E há uma coisa que faço questão de afirmar com clareza: esta é uma consulta de enfermagem, da responsabilidade do enfermeiro especialista. Não é uma extensão da consulta médica, é uma intervenção autónoma, com identidade própria”, refere, acrescentando:
“Noutros países existem, há muito, programas de prevenção coordenados por enfermeiros, e as próprias recomendações europeias apontam explicitamente para modelos multidisciplinares, com coordenação da enfermagem. O conceito não é, portanto, uma novidade. O que me parece verdadeiramente distintivo é a institucionalização autónoma desta consulta num Serviço de Cardiologia em Portugal. É o facto de ter deixado de ser uma iniciativa individual para se tornar uma estrutura reconhecida, o que, no nosso contexto, ainda é raro.”
Esse reconhecimento do valor do projeto tem-se manifestado de diversas formas, nomeadamente com a enfermeira a ser desafiada pela Sociedade Portuguesa de Cardiologia, presidida por Cristina Gavina, a levar esta consulta a diferentes contextos, através da realização de rastreios, por exemplo, na Assembleia da República.
“É um sinal de que a prevenção cardiovascular conduzida por enfermeiros está, finalmente, a encontrar o seu lugar”, diz Manuela Fonseca.%20(1)_Logo.jpg)
A escolha de transformar a enfermagem numa verdadeira ferramenta de prevenção e mudança
Consciente das dificuldades de acesso a cuidados de saúde na região do país que a viu nascer, Manuela Fonseca acreditou que seria possível contribuir para mudar essa realidade escolhendo “a nobre profissão que é ser enfermeira”. Natural da aldeia de Peredo da Bemposta, localizada no concelho de Mogadouro, distrito de Bragança, com 50 anos feitos a 16 de abril, a nossa entrevistada terminaria o curso de Enfermagem em 1997.
Começou por trabalhar no Hospital de Santo António, foi docente no ensino superior, exerceu vários anos em contexto de Serviço de Urgência e atualmente integra a Consulta Externa de Cardiologia do Hospital de São João.
Enquanto investigadora, participa em vários ensaios clínicos nacionais e internacionais, como coordenadora do Grupo de Estudos de Enfermagem em Diabetes da Sociedade Portuguesa de Diabetologia e também como membro do Grupo de Trabalho de Enfermagem Cardiovascular da Sociedade Portuguesa de Cardiologia. Integra ainda a Direção da Heart Porto – Associação de Pessoas com Doenças do Miocárdio (APDM).
Em termos de formação, fez o Mestrado em Educação para a Saúde e é especialista em Enfermagem de Saúde Comunitária e de Saúde Pública. “O contexto social, a comunidade, a família e olhar a pessoa para lá da doença foram determinantes para esta escolha de transformar a enfermagem numa verdadeira ferramenta de prevenção e mudança”, frisa Manuela Fonseca.
Entretanto, a decisão de realizar uma pós-graduação em Gestão e Administração Hospitalar justifica-a com a convicção que tinha de que lhe acrescentaria “competências no sentido de ter uma visão mais ampla da gestão, organização e transformação dos cuidados de saúde”.
“A combinação da especialidade de Enfermagem em Saúde Comunitária com a formação em Gestão e Administração Hospitalar permite identificar necessidades de saúde, intervir junto das pessoas e da comunidade. Mas também possibilita potenciar as competências de organizar recursos, liderar equipas, desenvolver projetos, avaliar resultados e transformar essas necessidades em respostas concretas dentro das organizações”, afirma Manuela Fonseca.
Até porque, como faz questão em sublinhar, “eu não quero apenas prestar bons cuidados, eu quero construir melhores cuidados”!
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Esta entrevista foi originalmente publicada no Jornal Médico de outubro de 2026.


