Cirurgia de preservação da anca em jovens: intervir cedo permite «preservar a articulação»

A alteração da mobilidade da anca pode ser incorretamente interpretada como falta de flexibilidade, adverte Paulo Rego, diretor do Serviço de Ortopedia do Hospital Beatriz Ângelo.

Na realidade, "a flexibilidade depende mais da geometria das articulações e não tanto dos tendões ou ligamentos". Por este motivo, "quando existe uma alteração do arco de mobilidade, deve ser sempre excluída a presença de uma deformidade".

O cirurgião ortopédico foi um dos palestrantes da edição de 2019 da Exercise Summit, a maior conferência de exercício e saúde em Portugal, que teve lugar recentemente, tendo abordado conceitos relevantes da patologia da anca, em particular as implicações para carga e movimento.


Paulo Rego

“As deformidades da anca nem sempre nascem com o indivíduo, podem aparecer com o crescimento, devido, por exemplo, a traumatismos repetidos, desporto de impacto ou sequelas de doenças de desenvolvimento da criança”, afirma.

“O grande problema é que muitas vezes o seu diagnóstico não é feito e a ausência de tratamento destas situações pode dar origem a alterações degenerativas precoces”, menciona Paulo Rego, salientando que o despiste precoce das deformidades da anca em indivíduos jovens depende do exame clínico e de exames de imagem adequados.

A dor inguinal (virilha) é o sintoma que leva os indivíduos que sofrem destes problemas a procurar ajuda especializada. “Há muitas vezes a conceção errada de que a dor posterior isolada das regiões sacroilíaca e lombar está relacionada com a anca, mas, na verdade, habitualmente não está. Muitas vezes, no entanto, a dor importante é tardia e acompanha o aparecimento de lesões orgânicas irreversíveis”, explica.

Há deformidades da anca que são mais típicas do género masculino, como aquelas que derivam do impacto da atividade física, como o conflito femoroacetabular (condição em que existe um conflito mecânico entre o fémur e o acetábulo) e outras que são mais frequentes no género feminino, como as morfologias de instabilidade, ou seja, situações de hipermobilidade (devido a uma maior elasticidade nas articulações) e à presença de displasia da anca.


Uma das últimas cirurgias efetuadas por Paulo Rego e pela sua equipa

Rastreio da patologia da anca deve passar pelos profissionais do exercício físico e pelos fisioterapeutas

Paulo Rego defende a importância de se fazer o rastreio da patologia da anca em adolescentes e jovens. Na sua opinião, o mesmo deveria envolver os professores de educação física nas escolas, nas modalidades coletivas, onde “os adolescentes e os jovens podem, com muita facilidade, fazer os testes de rotação e flexibilidade”.

O especialista apresenta como exemplo o rastreio para a displasia da anca. Nas crianças e nos recém-nascidos, é feito através de exame clínico e depois com o apoio da ecografia. No entanto, não se faz em adolescentes e jovens e, como adverte, o mesmo seria importante para detetar alterações da mobilidade da anca.



Note-se que, nalguns países, em atletas de alta competição, "os responsáveis pela preparação física dos atletas já fazem este tipo de rastreio da cinesia articular e de eventual presença de dor durante o arco de mobilidade normal".

Questionado sobre quais os exercícios mais agressivos para a anca, Paulo Rego refere que são todos os que envolvam muita flexão daquela zona anatómica e rotação, como, por exemplo, as artes marciais, a dança e alguns desportos coletivos. Existem, no entanto, indivíduos com morfologia tão alterada que “a simples posição de sentado com flexão da articulação pode desencadear conflito intra-articular agressivo para a cartilagem”.

“O médico de família deve referenciar à consulta de especialidade os indivíduos que tenham dor na anca ou algum tipo de limitação”, recomenda o cirurgião ortopédico.



Criar um centro de referência

No entender de Paulo Rego, tal como existem locais especializados para o tratamento do cancro, "também para a patologia da anca da criança, do adolescente e do adulto jovem devia ser feito um esforço no sentido de criar um centro de referência para cirurgia mais diferenciada de correção de deformidades". E explica porquê:

“Estas cirurgias são complexas e demoradas e faria sentido criar uma unidade própria para o seu tratamento atempado, sem listas de espera prolongadas e com equipas médicas treinadas. As vantagens seriam várias, incluindo o aumento da capacidade de resposta, a possibilidade de poder implementar programas de investigação clínica e o aproveitamento da expertise cirúrgica nesta área, que muitas vezes se dispersa por outras mais generalistas.”





"As deformidades devem ser corrigidas"

Paulo Rego estudou 200 doentes com seis anos e meio de seguimento após cirurgia de preservação e, embora reconheça que o tempo de seguimento é médio, está convencido de que, "em doentes jovens, quando se antecipa que existe risco de lesão importante das cartilagens através dos exames complementares de diagnóstico, as deformidades devem ser corrigidas".

E frisa a relevância desta operação: “Quando fazemos uma cirurgia de preservação da anca numa fase inicial, conseguimos modificar a história natural da evolução da patologia. Se em vez de a pessoa ter artrose aos 30 a tiver apenas aos 60, o impacto na qualidade de vida será menor e há uma poupança nos custos, evitando-se complicações associadas à cirurgia de substituição, nomeadamente, reintervenções, infeções e intolerâncias ao material protésico, entre outras."

Desta forma na cirurgia de preservação, "o doente fica com a sua própria articulação, que pode durar vários anos sem que seja necessário realizar mais alguma intervenção, com uma boa qualidade de vida".

"Dar mais qualidade de vida aos jovens e tentar minimizar a cirurgia de substituição da articulação”


Paulo Rego fez o Internato no Hospital de Santa Maria, onde se manteve durante alguns anos já enquanto especialista, tendo sido responsável pela equipa da anca.

O médico está no Hospital Beatriz Ângelo desde que esta unidade abriu, em 2012, sendo diretor do Serviço de Ortopedia. Paralelamente, coordena o Serviço de Ortopedia do Hospital da Luz, onde é também responsável pela equipa da anca. Doutorou-se em 2017, tendo sido precisamente a cirurgia de preservação da anca o tema principal da sua tese.



Atualmente, é dos únicos em Portugal a fazer tratamento cirúrgico da displasia da anca com volume razoável de casos por ano e com experiência acumulada de mais de 10 anos nesta área. O interesse surgiu ainda no Internato, no HSM, quando o Serviço de Ortopedia recebeu um especialista estrangeiro para efetuar o procedimento. Depois disso, concorreu a uma bolsa num hospital na Suíça, que acabou por ganhar, tendo ficado durante quatro meses a efetuar o fellowship.

“Percebi que ali havia uma realidade quase paralela à nossa. Enquanto em Portugal tratávamos pessoas muito idosas, já com alterações causadas pela artrose, ou seja, colocávamos próteses, eles também o faziam, mas a maior parte dos casos eram cirurgias de preservação da anca em jovens”, observa.

Paulo Rego assume que, atualmente, a sua motivação é “dar mais qualidade de vida às pessoas e tentar minimizar a cirurgia de substituição da articulação.”

Desde 2006, "e já com algumas publicações e alguns trabalhos de investigação", Paulo Rego esteve envolvido aproximadamente em 800 cirurgias de preservação da anca.

Atualmente, no Hospital Beatriz Ângelo, e no que às cirurgias da displasia da anca diz respeito, trata por ano cerca de 30 a 40 casos complexos em crianças e adolescentes, um número que garante ter "capacidade para duplicar, ou mesmo triplicar", reconhecendo que "há muitos que precisam, mas não são diagnosticados ou os colegas não referenciam".

Encontro internacional

"Proporcionar uma atualização sobre as várias técnicas cirúrgicas atuais e discussão sobre tópicos controversos" é o objetivo central do Lisbon International Hip Symposium, um evento de referência na área, presidido precisamente por Paulo Rego e que se realiza esta quinta e sexta-feira.



Dirigido a cirurgiões de Ortopedia, médicos internos, enfermeiros, fisioterapeutas e personal trainers, este "encontro internacional de especialistas em preservação da anca" está também aberto a outros profissionais de saúde e visa promover a partilha de experiências e de boas práticas.



A entrevista pode ser lida no Hospital Público de novembro/dezembro 2019.

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