Cavaco Silva condecora a primeira mulher presidente da Sociedade de Ginecologia
Teresa Osório criou e dirigiu o Serviço de Ginecologia do IPO do Porto, tendo sido a primeira mulher a assumir o cargo de presidente da Sociedade Portuguesa de Ginecologia (SPG). A ginecologista foi hoje condecorada, em Lamego, pelo Presidente da República, na Sessão Solene comemorativa do 10 de junho, Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.
Ao longo de mais 20 anos, Teresa Osório manteve-se ligada à SPG. Fez dois mandatos como secretária-geral, entre 1985 e 1990, depois, foi vice-presidente e assumiu a presidência entre 1994 e 1999. Antes da fundação, participou nalgumas reuniões preparatórias, promovidas por um grupo de ginecologistas de Coimbra.
Assumiu funções numa época de transição da SPG. Coincidiu com a alteração dos estatutos, com o arranque das reuniões descentralizadas, com a criação de secções e com uma colaboração mais próxima entre as sociedades. Viu ainda concretizado o sonho de ver criada a Federação Portuguesa das Sociedades de Ginecologia e Obstetrícia.
Durante o XIII Congresso Português de Ginecologia, que decorreu entre 4 e 6 de junho, Teresa Osório foi a oradora convidada para fazer o balanço dos 40 anos de vida da Sociedade Portuguesa de Ginecologia, cuja intervenção teve lugar durante a cerimónia de abertura do evento. Foi-lhe ainda prestada uma homenagem, assim como aos outros ex-presidentes e sócios fundadores da SPG.
Rastreio dos cancros da mama e do colo do útero
Na opinião de Teresa Osório, progrediu-se muito em conhecimento e em tecnologia nas últimas décadas, mas muito pouco na prevenção do cancro, existindo ainda um longo percurso a realizar nessa área, nomeadamente, na informação das populações, bem como na Educação para a Saúde.
Em declarações à Just News, salienta que "ainda temos a maior taxa de incidência na Europa do cancro do colo do útero" e lembra que, em 1976, aquando da aprovação da legislação que apoiava o Planeamento Familiar gratuito para todas as mulheres, “foi previsto pelo Dr. Albino Aroso, então secretário de Estado da Saúde, iniciar o rastreio dos cancros da mama e do colo do útero, nos limites etários preconizados”.
O primeiro levantamento na zona Norte foi feito por Teresa Osório, em colaboração com Albino Aroso. A total realização do programa ainda não se conseguiu concretizar. Trinta e cinco anos depois, ainda há muito a fazer. Afirma que “a zona Centro tem um rastreio de cancro da mama efetivo, muito bem organizado, há cerca de 20 anos, e igualmente, com menos tempo, mas também efetivo, do colo do útero”.
Na zona Norte, com total apoio da Liga Portuguesa Contra o Cancro, o rastreio do cancro da mama existe, bem estruturado e com resultados demonstrados há dez anos. O do colo do útero está em marcha e a ser realizado através dos centros de saúde. No Sul, tudo existe e está estruturado, mas a caminhar mais lentamente, refere Teresa Osório.
Sem rodeios, até porque se assumiu sempre como uma mulher “contestatária”, alerta para o facto de muitos clínicos gerais não saberem fazer um exame ginecológico. “É preciso ter coragem para dizer estas coisas”, refere, argumentando que a Ginecologia parece “uma ciência limitada ao aparelho genital da mulher, mas envolve um contexto muito mais complexo, do nascimento à morte, passando pela primeira menstruação, a gravidez ou a esterilidade, as doenças de transmissão sexual, as doenças inoficiosas gerais com repercussão ginecológica; os problemas das atletas, a menopausa e tantas outras questões até ao envelhecimento”.
A ginecologista que ousou enfrentar os cirurgiões no bloco operatório
Abraçar uma especialidade cirúrgica foi sempre o sonho de Teresa Osório, mas pisar um território marcadamente masculino nos anos 60 não foi fácil. Confessa que foi aconselhada a “coser meias”, mas nunca desistiu. Saiu de Portugal para Moçambique, onde nasceu, para apoiar três cirurgiões na maternidade. Anos depois, e com a ajuda de uma bolsa de estudo que lhe abriu ainda mais os horizontes (em França e Portugal), concluiu a especialização em Ginecologia e Obstetrícia.
Regressa a Portugal em 1970, para trabalhar no Hospital de Lamego, já com um grande know-how em cirurgia. Ainda assim, teve que vencer o preconceito e afirmar-se perante os três cirurgiões gerais da unidade e de um obstetra com 70 anos. Certo dia, quando se preparava para fazer ali a primeira histerectomia, viu-se num palco, como se fosse uma atração de circo. “Lembro-me que era inverno e que chovia muito. Eu estava já no bloco operatório, equipada, com a sala esterilizada e com o anestesista ao lado, quando os cirurgiões do hospital começaram num estranho rodopio. Entravam e saíam do bloco de casaco, botas, chapéu-de-chuva, infetando tudo”, recorda.
Atónita, Teresa Osório perguntou ao anestesista se sabia qual o motivo de tanto reboliço. “Vêm ver a doutora operar, porque nunca viram uma mulher a operar!”, respondeu-lhe. “Dirigi-me a eles, lembrei-lhes dos procedimentos num bloco e disse-lhes que, se quisessem assistir, tinham que se equipar.” Depois do puxão de orelhas protagonizado pela jovem médica, que foi obrigada a esterilizar de novo o bloco, os cirurgiões não voltaram a fazer “plateia” no bloco operatório.


