Cardio-Oncologia: 4 anos a tratar as cardiotoxicidades dos sobreviventes de cancro

Os doentes sobreviventes de cancro têm risco elevado de desenvolver doenças cardiovasculares devido a algumas terapêuticas oncológicas potencialmente cardiotóxicas. Como hoje em dia essa sobrevivência é maior, têm mais tempo para desenvolver este tipo de problemas.

Para responder a esta nova questão da monitorização cardíaca dos longos sobreviventes de cancro, uma realidade que se está a colocar a nível mundial, constituiu-se no Centro Hospitalar Universitário de Lisboa Norte (CHULN) um grupo de trabalho, constituído por uma equipa multidisciplinar composta por cardiologistas, oncologistas, hemato-oncologistas, radio-oncologistas e especialistas de Medicina Geral e Familiar (MGF).


Manuela Fiuza, coordenadora da Consulta de Cardio-Oncologia

Consulta de Cardio-Oncologia: 4 anos a detetar e tratar problemas cardíacos

O objetivo desse grupo de trabalho é propor a inclusão calendarizada de exames cardiológicos simples nas consultas de seguimento hospitalares e nos cuidados de saúde primários, quando os doentes têm alta hospitalar, com vista à deteção atempada destas alterações e ao seu tratamento.

Assim, doentes provenientes de várias consultas hospitalares, nomeadamente de Oncologia, de Radio-Oncologia e de Hemato-Oncologia, são seguidos na Consulta de Cardio-Oncologia, criada, de forma oficial, precisamente há quatro anos, em janeiro de 2016. 

As mais valias desta valência do CHULN e a experiência acumulada da equipa tem levado a que recebam doentes também de outras unidades hospitalares, como o IPO de Lisboa e a Fundação Champalimaud.
 
Os doentes podem também ser referenciados à Consulta de Cardio-Oncologia antes de iniciarem a terapêutica oncológica porque lhes foram detetados problemas cardíacos.

São então avaliados relativamente à necessidade de iniciarem ou otimizarem a terapêutica cardíaca durante os ciclos de terapêutica oncológica, se desenvolverem problemas cardíacos, e de suspenderem ou modificarem a terapêutica oncológica. O mesmo sucederá, depois de concluídos os tratamentos oncológicos, em relação a quem ficou com sequelas cardíacas.

Antes da consulta médica, todos os doentes passam por uma consulta de enfermagem e realizam ECG, ecocardiograma/doppler e strain.

Fazer face à "elevada morbilidade e mortalidade cardiovascular”

Em declarações à Just News, Manuela Fiuza, responsável pela criação da Consulta de Cardio-Oncologia no CHULN, cuja coordenação está a seu cargo, começa por afirmar que “já há alguns anos se comprovou que algumas terapêuticas clássicas utilizadas no tratamento dos doentes oncológicos são cardiotóxicas". O que acontece é que, "anteriormente, os doentes não sobreviviam o tempo suficiente para as cardiotoxicidades se manifestarem”.

A cardiologista afirma que, a longo prazo, também a radioterapia torácica pode ser responsável pelo desenvolvimento de problemas cardíacos, que se manifestam muitas vezes uma ou mais décadas depois. “Os doentes sobreviventes de cancro têm elevada morbilidade e mortalidade cardiovascular”, sublinha.

Segundo refere, frequentemente, "estas cardiotoxicidades são silenciosas", mas podem ser detetadas com exames simples, por exemplo, a ecocardiografia e o ECG. “A inclusão do pedido destes exames nas consultas de seguimento hospitalares, de uma forma calendarizada (por exemplo, a cada dois anos), assim como nos doentes que passem a ser seguidos na MGF, seria muito útil para detetar atempadamente alterações cardíacas e serem referenciados à Consulta de Cardio-Oncologia”, afirma, acrescentando:

“Nestes casos, a equipa de trabalho está a discutir a possibilidade de os doentes, para além da nota de alta, levarem um cartão para entregar ao seu médico de família, em que se propõe a realização destes exames de uma forma calendarizada, dependendo também do tipo de terapêutica oncológica a que foram sujeitos.” Manuela Fiuza realça a excelente relação com os oncologistas, com os quais o contacto é muito estreito.


Andreia Magalhães, Paula Costa, Miguel Menezes e Manuela Fiuza

Além de Manuela Fiuza, a Consulta é assegurada pelos cardiologistas Andreia Magalhães e Miguel Menezes. Há depois uma técnica cardiopneumologista, Paula Costa, que colabora na realização dos exames ecocardiográficos. Até meados de novembro, já tinham sido vistos mais de 500 doentes.



Notícia publicada na revista Coração e Vasos de janeiro de 2020.

seg.
ter.
qua.
qui.
sex.
sáb.
dom.

Digite o termo que deseja pesquisar no campo abaixo:

Eventos do dia 24/12/2017:

Imprimir