«A qualidade embrionária também depende da condição espermática»

Compreende-se que Luís Ferreira Vicente queira destacar que o mau desenvolvimento embrionário pode ter na sua origem uma menor qualidade dos espermatozoides. Afinal, a causa masculina tem vindo a ganhar peso, sendo já responsável por metade dos casos de infertilidade, havendo cada vez mais necessidade de personalizar o tratamento no homem.



A conversa com o atual presidente da Sociedade Portuguesa de Medicina da Reprodução aconteceu a pouco mais de um mês de distância das XL Jornadas de Estudos da Reprodução. O maior evento da SPMR em 2026 vai decorrer em Alcobaça, dias 8 e 9 de maio.

São vários os peritos estrangeiros que integram o programa da reunião, nomeadamente, o andrologista Jorge Hallak e o ginecologista Peter Humaidan. E que desejam, tal como Luís Ferreira Vicente, “melhorar as taxas de gravidez, seja espontaneamente, quer através de inseminação intrauterina ou de fertilização in vitro”.

“Há grupos de homens que nós temos que tratar de forma diferente. Enquanto até agora, quando havia um fator masculino presente, a nossa intervenção incidia essencialmente no casal, com o tratamento de fertilização in vitro, nomeadamente recorrendo à microinjeção do espermatozoide dentro do óvulo, estamos a chegar à conclusão de que precisamos de melhorar a condição espermática”, refere o coordenador do Centro de Procriação Medicamente Assistida do Hospital Lusíadas Lisboa.


Luís Ferreira Vicente

Está hoje comprovado, na sequência de estudos que têm sido feitos, por exemplo, pelo andrologista brasileiro Sandro Esteves, que quando há um fator masculino envolvido o tipo de infertilidade associada pode divergir muito de caso para caso. Certas doenças prévias, a exposição a quimioterapia e o “grande impacto” do ambiente, como o caso dos disruptores endócrinos que acabam, frequentemente, por afetar a condição espermática.

“A qualidade embrionária depende do ovócito mas também da qualidade do espermatozoide”, sublinha Luís Ferreira Vicente, lembrando que a fragmentação do DNA deste último tem impacto na divisão celular do embrião. E acrescenta que se fala muito no risco de se registarem alterações cromossómicas no filho de uma mulher que engravida depois dos 40 anos, mas não se tem dado idêntica relevância ao que acontece no homem acima dos 50-55 anos, mais sujeito a ser responsável por uma doença genética, ou maior incidência de autismo, num seu descendente.

Para além do bisfenol, que está presente nos plásticos e em quantidades tóxicas em coisas tão simples como as impressões em papel do Multibanco ou as vulgares senhas de espera, o médico chama a atenção para o telemóvel com wi-fi ligado no bolso da frente das calças ou para o consumo de canábis.

“Vemos reduções muito grandes na concentração e na mobilidade dos espermatozoides em homens que consomem canábis”, regista.

Da IA às más notícias

Como implementar a utilização da inteligência artificial no Laboratório de Embriologia é outro assunto a ser abordado nas XL Jornadas da SPMR. Luís Ferreira Vicente releva a importância do tema porque “os sistemas de monitorização contínua por vídeo para a seleção de embriões geram tanta informação sobre o seu desenvolvimento que aquela se torna depois difícil de interpretar”. E acrescenta:

“A IA vem-nos ajudar a tornar mais fácil a tarefa de identificar qual o melhor embrião a transferir, os seja, o que apresenta uma maior probabilidade de conseguirmos a gravidez.  Ao fim de quantas horas é que se deu a primeira divisão, avaliar a formação dos pronúcleos... toda essa informação pode ter impacto no resultado final. Também é agora possível, por exemplo, logo no momento da ecografia, estandardizar e aumentar a precisão das medições do diâmetro dos folículos.”

“Bem gostávamos que a nossa taxa de gravidezes bem-sucedidas fosse de 100%, mas, infelizmente, não é isso que acontece. Em média, situa-se nos 25-45% no 1.º tratamento, podendo ir um pouco mais além quando a idade da mulher é mais baixa, mas quando é superior aos 40 anos, sobretudo a partir dos 43, começamos a ter percentagens de êxito inferiores a 5%”, esclarece Luís Ferreira Vicente.

É por isso que se torna tão importante trabalhar a maneira como se deve dar uma má notícia, o que, aliás, justifica a inclusão desta questão no programa das Jornadas:

“Provavelmente, no início da minha carreira, terei prejudicado alguns casais por não ter dado essa notícia da forma que mais os ajudaria. Daí que eu ache que todos nós temos sempre que melhorar. E não esquecendo que somos uma equipa interdisciplinar, cujos elementos têm que trabalhar todos em conjunto para que o casal seja beneficiado, incluindo também o modo como lidamos com os doentes”


A notícia completa pode ser lida na edição de abril do Jornal Médico.

 

Imprimir


Próximos eventos

Ver Agenda