A prevenção e tratamento da doença CDV “exige cada vez mais uma intervenção multidisciplinar”

“A aterosclerose engloba várias dimensões do risco cardiovascular”, refere o internista Rodrigo Leão, 42 anos, que vai presidir à edição de 2026 do XXXIV Congresso Português de Aterosclerose, a decorrer este mês de outubro no Centro de Conferências de Troia. Esse facto também contribuirá, no seu entender, para que se justifique cada vez mais a existência da própria Sociedade, que tem nesta reunião o seu principal evento anual.

Para Rodrigo Leão, faz algum sentido que a Medicina Interna seja uma especialidade fortemente representada na Sociedade Portuguesa de Aterosclerose. Afinal, “é o internista que, com uma postura holística, também estará mais vocacionado para olhar para o doente de risco cardiovascular de uma forma abrangente, menos compartimentada, algo que o conhecimento que temos vindo a ganhar nesta área nos ajudou a perceber ser necessário”.

“Daí que, embora tradicionalmente se associasse de forma imediata aterosclerose a dislipidemia, sabemos, hoje em dia, tratar-se de uma doença multifatorial cuja abordagem engloba várias dimensões do risco cardiovascular”, lembra o internista da ULS de São José.

“Quando estamos perante um doente com risco cardiovascular, não tratamos só a hipertensão, a dislipidemia ou a diabetes, temos que estar atentos a toda uma série de dimensões que começamos a perceber serem cada vez mais importantes”, refere, prosseguindo:

“É por isso que temos sessões no XXXIV Congresso Português de Aterosclerose sobre a obesidade ou a síndrome cardiorrenal metabólica, sobre o envelhecimento ou as diferenças de género, sobre a importância do estilo de vida saudável ou da prática de exercício físico.”




E embora a Medicina Interna seja uma especialidade que tem a facilidade de ver a pessoa como um todo, Rodrigo Leão logo adianta ser a discussão destes temas com profissionais de outras áreas “muito enriquecedora, principalmente para o próprio doente. Ganhamos nós em termos de conhecimento e ganha o doente com a possibilidade de fazermos uma melhor abordagem à prevenção ou ao tratamento da sua patologia cardiovascular”.

O nosso entrevistado, que já integra há uns anos a Direção da Sociedade Portuguesa de Aterosclerose, sendo atualmente um dos seus vice-presidentes, confirma haver cada vez mais cardiologistas e médicos de família envolvidos na Sociedade, que também agrega, para além de um número significativo de endocrinologistas, profissionais de outras áreas, como farmacêuticos, bioquímicos ou enfermeiros.

“A prevenção, seja primária ou secundária, e o tratamento da doença cardiovascular exigem cada vez mais uma intervenção multidisciplinar e de equipa”, frisa Rodrigo Leão. E apresenta como exemplo o que sucede no Hospital de Santa Marta com a prevenção secundária no doente pós-síndrome coronária, que é assegurada conjuntamente pela Medicina Interna e pela Cardiologia, em paralelo com a Medicina Geral e Familiar.

 “Novos Rumos, Novos Horizontes”


“Num tempo de rápida evolução científica, torna-se cada vez mais evidente a necessidade de uma abordagem mais ampla e integrada à doença cardiovascular, que vá além das fronteiras tradicionais e incorpore diferentes dimensões do risco, da prevenção e da intervenção clínica”, escreve o presidente do XXXIV Congresso Português de Aterosclerose na nota de apresentação do evento, justificando, de certa forma, o lema escolhido para o mesmo: “Novos Rumos, Novos Horizontes”.


“Os novos rumos têm que ver com o conhecimento que a ciência e a evidência nos têm vindo a proporcionar. Isso vai traduzir-se nos novos horizontes, que se prende com a forma como vemos o nosso doente, que já não é alguém só com hipertensão ou apenas com diabetes. Temos de encarar a prevenção e o tratamento cardiovascular como um trabalho de equipa, numa abordagem muito mais abrangente e não compartimentada”, diz Rodrigo Leão.

Salvaguardando o facto de a realidade não ser a mesma em todo o país, o nosso entrevistado diz notar que “os colegas de MGF estão cada vez mais imbuídos de um espírito de cooperação e interessados na identificação precoce destes doentes, de forma a conseguir prevenir mais patologia cardiovascular. Ora, isso faz com que eles necessariamente decidam participar mais nestes fóruns, como o Congresso de Aterosclerose, e que colaborem mais com sociedades como a SPA”.

“A Medicina Interna já faz isso há muito tempo porque tem que ver com a natureza da própria especialidade, mas também porque não podemos estar sozinhos neste combate à doença cardiovascular. Precisamos da Cardiologia e da Nefrologia, por exemplo, como necessitamos de nos aproximar de outras especialidades que têm doentes de alto risco, como as Doenças Infeciosas ou a Reumatologia”, considera Rodrigo Leão.

O também professor da NOVA Medical School reconhece que “temos medicamentos cada vez mais eficazes para abordar estes doentes, mas é preciso não esquecer que não será a terapêutica que vai substituir a necessidade de adoção de um estilo de vida saudável por parte das pessoas”.

Considerando que “tem que ser desenvolvido um trabalho de fundo na prevenção primária da doença cardiovascular”, parece-lhe que “a MGF está cada vez mais imbuída do espírito de que tem que se começar a trabalhar desde uma idade muito precoce na promoção de um estilo de vida saudável por parte da população”. Isso para que “depois nós consigamos ser mais eficazes com as armas terapêuticas que temos”.


A vontade de ter em Santa Marta um Centro de Excelência em HTA

 


O início de carreira de Rodrigo Leão está muito ligado ao Núcleo de Investigação Arterial do Hospital de Santa Marta, cujo fundador, o internista Pedro Marques da Silva, conheceu quando começava o internato de Medicina Interna, em 2012. Dá-se então o seu envolvimento na Consulta de Hipertensão e Dislipidemias, que nunca mais deixou.

Dinamizar a Consulta -- nomeadamente em termos de reforço a nível de recursos humanos -- é, neste momento, um desejo seu, mas também uma necessidade. “Acompanhamos muitos doentes e o tempo de espera por uma consulta é elevado!”, refere.




No âmbito da reorganização das consultas na ULS de São José, verificada há cerca de um ano, “foi decidido concentrar as de hipertensão e dislipidemias/aterosclerose em Santa Marta. Até porque, devido também à progressiva aposentação de alguns dos colegas que se dedicavam a estas áreas, os doentes acabaram a ser todos seguidos neste hospital”.

Investir nos critérios de referenciação e no contacto direto com os médicos de família é, para Rodrigo Leão, algo também importante de se fazer. Por um lado, porque, com a criação da ULS, as unidades de CSP enviam agora mais utentes para Santa Marta, mas também porque “há margem para aperfeiçoarmos os critérios e os circuitos de referenciação, garantindo que chegam à consulta diferenciada os doentes que mais podem beneficiar dela”.

O falecimento de Pedro Marques da Silva, em janeiro de 2020, e a pandemia de covid-19 foram dois acontecimentos decisivos para que deixasse de se fazer investigação própria no Núcleo de Investigação Arterial, que integra a Unidade Funcional de Medicina Interna 4 da ULS de São José, atualmente coordenada por Miguel Toscano Rico.

“Estamos a retomar a atividade científica, com a participação em ensaios clínicos, um deles internacional, e a ideia é desenvolvermos a nossa própria investigação e conseguirmos ser reconhecidos pela Sociedade Europeia de Hipertensão como Centro de Excelência em Hipertensão, concretizando um desejo do Dr. Pedro Marques da Silva”, afirma Rodrigo Leão.




Esta entrevista foi publicada no Jornal Médico de outubro 2026. 

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