A fixação dos médicos de família em zonas rurais e de difícil acesso

De acordo com Rui Nogueira, presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF), face ao facto de "termos profissionais médicos concentrados em dois grupos etários, os muito novos e os colegas com mais de 50 anos –, é preciso pensar em criar condições que facilitem a fixação dos jovens médicos em zonas do Interior".

Em artigo de opinião, publicado na edição de julho do Jornal Médico dos Cuidados de Saúde Primários, o presidente da APMGF começa por esclarecer que as zonas de difícil acesso/rurais não são, de facto, as que têm menos médicos: "Segundo os dados existentes, esta ideia é, atualmente, um mito".

Atualmente, "é em Lisboa, Barlavento Algarvio, Pinhal Litoral (Leiria), Baixo Tâmega (distrito do Porto) e no Alentejo Litoral (Santiago de Cacém) que existe mais falta de MF. Ou seja, são as unidades de saúde do litoral onde há mais pessoas sem MF e não no interior como, por vezes, se quer fazer passar a ideia", afirma Rui Nogueira.



Prevenir a escassez de médicos em mais regiões do país

Assim, na sua opinião, existem duas importantes questões: "resolver o problema atual nas zonas de maior escassez" e, por outro lado, "prevenir que venha a ocorrer em mais regiões do país, face às aposentações previsíveis de muitos colegas nos próximos anos".

Quanto à falta atual de médicos em certas regiões, considera que a solução passa por "contratar os profissionais aposentados que podem ir trabalhar para essas localidades, ajudando quem já lá está. Outra solução é fazer concursos céleres, colocando os jovens MF que vão concluindo o Internato."

Rui Nogueira faz questão de destacar ainda "um ponto essencial", que é a atribuição de MF em função das disponibilidades, "dando prioridade a idosos, pessoas dependentes, pessoas com diabetes, grávidas, doentes crónicos e crianças durante o período de tempo considerado necessário e de modo transitório."

Sobre o problema da fixação de médicos nos próximos anos – e face ao facto de termos profissionais médicos concentrados em dois grupos etários, os muito novos e os colegas com mais de 50 anos –, é preciso pensar em criar condições que facilitem a fixação dos jovens médicos em zonas do Interior."



"não é preciso ir buscar médicos a Espanha ou à América Latina"

Rui Nogueira adianta que a APMGF tem estudado "uma nova métrica das unidades de saúde, que consiste na atribuição de um coeficiente em função da dificuldade do contexto em que é exercida a profissão". Salientando que "não basta olhar para as listas de utentes", explica que "trabalhar numa zona rural é mais difícil do que no Litoral, onde existe mais acesso a outras unidades de saúde e onde a acessibilidade, por exemplo, em termos de transportes e vias de comunicação, é muito mais fácil."

Tal não significa, na sua opinião, que "nas zonas do Litoral não haja problemas, simplesmente, há mais opções de escolha e, para os médicos jovens, é muito mais atrativo em termos de condições de vida".

O presidente da APMGF esclarece que "este conceito de fixação de médicos há muito que existe, mas, infelizmente, não tem sido atualizado. E não se pense que não existem médicos para serem colocados, porque todos os anos há médicos internos que, acabando a sua especialidade, têm de esperar um despacho excecional do Ministério da Saúde para se abrir um concurso para estes profissionais. Logo, não é preciso ir buscar médicos a Espanha ou à América Latina."

CSP: consolidar a reforma e fortalecer as equipas

Relativamente à criação de Unidades de Saúde Familiar (USF), Rui Nogueira considera que esse processo "não deve parar e, infelizmente, tem abrandado nos últimos anos. Não me refiro apenas ao espaço, mas também às equipas destas unidades. É preciso contratar médicos, mas também enfermeiros, secretários clínicos, psicólogos, fisioterapeutas, dentistas, higienistas orais, nutricionistas."

E acrescenta que se está perante "um problema atual, com a escassez de MF em certas zonas e, por outro, existe o risco de esta situação se agravar num futuro próximo devido, às aposentações".

Para o responsável pela APMGF, "é preciso tomar medidas a pensar no presente e no futuro. Mas é igualmente necessário consolidar a reforma dos CSP iniciada há 10 anos e fortalecer as equipas com profissionais de saúde. E é necessário haver investimento real em benefício da saúde da comunidade."




O artigo completo de Rui Nogueira pode ser lido na edição de julho do Jornal Médico dos Cuidados de Saúde Primários

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